Léxico: «camarinha»

A bordo

      A repórter Raquel Morão Lopes foi visitar ontem o navio-escola Sagres. O comandante Sardinha Monteiro definiu a camarinha: «Aqui a camarinha do comandante é o espaço reservado ao comandante. Onde o comandante trabalha, toma as suas refeições e onde também recebe as suas visitas.»
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista o vocábulo: «antiquado pequena câmara à popa dos navios antigos».
[Texto 1078]

Léxico: «desmonte»

A palavra do dia

      Eng.º António Ferreira da Costa, administrador da EDP Produção, em declarações à Antena 1: «Quando se executava o desvio da Estrada Nacional 212, estava a proceder-se ao desmonte de rocha. Estes desmontes são efectuados recorrendo a explosivos, o que é normal neste tipo de obras.» Está correcto: desmonte é a escavação de rochas ou solos muito consistentes.
[Texto 1077]

«Rubrica/rúbrica»

Os factos disponíveis

      Daniel Catalão, no Jornal da Tarde de ontem: «Pedro Rosa Mendes diz que os factos disponíveis apontam para uma relação entre a crónica que fez sobre o programa Reencontro, emitido a partir de Angola, e o fim da rúbrica Este Tempo, na Antena 1.» Está no Prontuário Sonoro, caro Daniel Catalão. E mais: «O jornalista anunciou ainda que vai colocar um processo por difamação contra Luís Marinho por causa das declarações prestadas na mesma comissão durante o dia de ontem.»
[Texto 1076]

Como se fala no Parlamento

Dizem que é poeta

      Deputado Mendes Bota, a ler no Parlamento: «O que nós precisamos é de um PS interessado verdadeiramente no interesse nacional e que não tenha declarações políticas, essas sim verdadeiramente piegas como aquela a que aqui assistimos.»
[Texto 1075]

Como se escreve nos jornais

Mes recommandations face au froid

      «O número de mortos proporcionado pela vaga de frio que assola a Europa fez mais de 450 mortos ao longo da última semana. Muitas das vítimas são sem-abrigo» («Governante francesa aconselha sem-abrigo a “evitarem saídas” por causa do frio», Hugo Torres, Público em linha, 8.02.2012, 15h38).
      É como um espectáculo, lindas emoções nos proporciona o frio. E o texto é sobre o deslize de Nora Berra, a secretária de Estado da Saúde francesa, que aconselhou no seu blogue certos grupos de risco, como agora se diz, a não saírem de casa. Entre eles, os sem-abrigo! Que não saiam de casa, coitados... Agora, depois de toda a chacota, já apagou os sans-abri.
[Texto 1074]

Faculdade de Letras e AOLP90

Não passarão

      «A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) não vai implementar o novo Acordo Ortográfico oficialmente mas também não tomará uma posição contra porque não tem uma política de ortografia. A reitoria diz que o assunto ainda não foi discutido. Há quem seja a favor do acordo e quem seja contra mas a faculdade, por enquanto, não assumirá uma posição» («Faculdade de Letras de Lisboa sem posição sobre o acordo», Cláudia Carvalho e Isabel Coutinho, Público, 8.02.2012, p. 5).
      Implementar, pois... E que «política de ortografia» havia de ter uma faculdade, mesmo de Letras?
«O “site” da Faculdade de Letras de Lisboa está com a grafia antiga, como sempre esteve e não será alterado. “Se alterássemos estaríamos a ter uma posição política de ortografia e por isso vamos mantê-lo”, diz Feijó [director da Faculdade de Letras], alertando que em termos de imperativos legais o acordo não está completamente em vigor. “Eventualmente a faculdade poderá vir a ter que tomar uma decisão, mas eu não antecipo quando será”.»
      Entretanto, na página da internet do CCB ainda vemos visitas guiadas «monumentais, espetaculares» e mesmo, para lá de toda a controvérsia em torno da ortografia, «perfomáticas». É difícil pôr tudo a funcionar bem.
[Texto 1073]

«Jura/juramento»

Bem, mas

      «O primeiro-ministro britânico, David Cameron, elogiou-lhe [a Isabel II] “a dignidade e a autoridade tranquila” e o arcebispo de Cantuária destacou o “serviço generoso” prestado ao país. A monarca, que ontem manteve uma agenda discreta, declarou-se “comovida” com as homenagens. “Consagro-me hoje de novo ao vosso serviço”, anunciou, repetindo uma jura antiga e deixando claro que o trono será seu enquanto for viva» («Reino Unido. Isabel II, a serena, subiu ao trono há 60 anos», A. F. P., Público, 7.02.2012, p. 18).
      O jornalista não deveria ter escrito «juramento»? Sim, são sinónimos — jura e juramento —, mas neste contexto é mais adequado «juramento».
      «Ali estavam “todos os grãdes, titulos & Fidalgos destes Reynos”, com um cerimonial não sumptuoso, embora digno, para o juramento do novo monarca» (História de Portugal: a Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo, 1997, p. 24).
[Texto 1072]

Sobre «desapontamento»

Passo

      «Albert Speer, o arquitecto do Reich, afirmou que Eva Braun “iria provar-se um grande desapontamento para os historiadores”. Um mistério trágico e medíocre» («Nascimento de Eva Braun, a amante de Adolf Hitler», «P2»/Público, 6.02.2012, p. 2).
      Desapontamento é anglicismo desnecessário, como qualquer falante reconhecerá. E há-de ser, digo eu, por Garrett declarar, no prefácio da Lírica de João Mínimo, que tem virtudes expressivas que nem sequer Montexto o enjeita. Por mim, embora saiba perfeitamente que está muito enraizado na nossa língua, detesto-o. «Nunca agradeceremos demasiado», escreveu José Gomes Ferreira, «a Garrett este abençoado anglicismo: desapontamento
[Texto 1071]

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