Outro colocanço

É uma doença

      «O antigo ministro da Cultura de José Sócrates José António Pinto Ribeiro não conseguiu provar em tribunal que o jornal Expresso deturpou as suas declarações numa entrevista que concedeu ao semanário em 2008. O Ministério Público arquivou a queixa por difamação e Pinto Ribeiro foi colocando recursos até chegar ao Tribunal Constitucional» («Pinto Ribeiro perde processo contra Expresso», Maria Lopes, Público, 6.02.2012, p. 9).
      Que desgosto, Maria Lopes, que desgosto, então agora é assim que escreve? «Colocando recursos»!

[Texto 1070]

Hortaliças e legumes

Chegámos aos canos

      «Aliado a este programa de exercício, está ainda a divulgação do consumo de comida saudável, nomeadamente de legumes e frutas frescas» («Michelle Obama foi ao tapete, mas venceu Ellen», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 53).
      Legumes, legumes, sempre os legumes... Não fica nada de fora? Acabei de ir a um supermercado Continente e comprei uma embalagem de 250 g de bicarbonato de sódio, onde se lê: «Na cozedura de hortaliças e legumes ajuda a manter a cor e o sabor.» No meu caso, é para desentupir os canos do lava-loiças e do lavatório. Não há melhor. Despeja-se no cano meia chávena de vinagre branco e meia chávena de bicarbonato de sódio. Tapa-se o ralo. Ao fim de 15 minutos, despeja-se nele uma chaleira de água a ferver.
[Texto 1069]

Como se escreve nos jornais

E a propósito de siglas e acrónimos

      «A marca [Bruma] nasceu em 2002, mas a história da empresa recua a 1953, quando o sogro de Baldomero [Talaia] e dois outros sócios abriram uma fábrica em Vila Nova de Famalicão, a Fermacar – o diminutivo e a junção dos três apelidos: Ferreira, Marques e Carneiro» («As torneiras que fazem correr água pelo mundo», Sónia Simões, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 34).
      Cara Sónia Simões, tem a certeza de que sabe o que é um diminutivo? Confira: palavra formada com um sufixo que expressa a ideia de pequenez ou valores afetivos (carinho, intensidade, etc.).

[Texto 1068]

Como se fala na televisão

MPAGDP

      Ontem, na RTP, falou-se novamente no projecto, já aqui referido antes, A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Segundo Tiago Pereira, realizador e mentor do projecto, o objectivo é «tirar as coisas de ser rural ou ser urbano e misturar tudo e aquilo chegar ao maior número de pessoas possíveis e disseminar-se por outros públicos».

[Texto 1067]

«Deve e haver»

Mais vale prevenir

      «Dois novos acessos de espirros impediram-me de chegar ao fim do retrato. Para evitar uma depressão clínica, evoquei mentalmente alguns pontos positivos neste dever e haver, que manifestamente existem, a começar pela melhoria da qualidade do ar e da água, a revolução no tratamento do lixo, a consideração vinculativa do ambiente nas decisões sobre grandes projectos» («Mapa fatídico», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 5.02.2012, p. 55).
      Pode ser gralha, mas quem sabe? É que há cerca de cinco anos um estudante — talvez agora doutorando — perguntava ao Ciberdúvidas se não seria mais correcto «dever e haver». Não é. A expressão, consagrada, é deve e haver.
[Texto 1066]

O gerúndio em todo o seu esplendor

Já faz parte

      «Stir vigorously, wiping drool from your chin with shirt-sleeve.» Na tradução: «Agite vigorosamente, limpando a baba do queixo com a manga da camisa.» «Agitar limpando»?! É mais uma exibição do gerúndio copulativo. Bem, o Google não traduz muito pior: «Mexa vigorosamente, limpando a baba do seu queixo com camisa de manga.»

[Texto 1065]

Ortografia: «primeira-dama»

Agora é pior

      Com a adopção das novas regras ortográficas, quase sempre a trouxe-mouxe, deu-se uma razia nos hífenes. «Michelle Obama é a responsável pelo programa Let’s Move (que em português poderá ser qualquer coisa como Toca a Mexer) ao qual a primeira dama dedica bastante do seu tempo» («Michelle Obama foi ao tapete, mas venceu Ellen», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 53).
      Cara Fernanda Mira, antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990, é «primeira-dama» que se escreve. Diga lá em casa e no emprego, se faz favor.
[Texto 1064]

Léxico: «sorumbatismo»

Está noutros

      «À aproximação da paragem seguinte, onde tudo se resolveria, a pressão sonora foi baixando, o entusiasmo cedeu e os passageiros mergulharam novamente no sorumbatismo em que antes vegetavam. A compactação tornou-se omnipresente e eu fugi logo que pude, duas paragens antes da habitual, reencontrando o oxigénio, mas sem saber o resultado do julgamento» («“Estás a brincar ou o quê?”», Ricardo Garcia, Público, 5.02.2012, p. 37).
      O substantivo «sorumbatismo» não está registado em todos os dicionários. Não está registado, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas já sugeri que o incluísse. «Agradecemos as suas sugestões/comentários, que serão merecedores da nossa análise.»

[Texto 1063]

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