Tradução: «heat»

Ainda no mundo do surfe

      «O jovem de Cascais [Vasco Ribeiro], que lidera actualmente o ranking europeu de juniores e ficou no segundo do mundial de sub-18 no Peru, foi o segundo atleta mais pontuado do seu heat (eliminatória), com 12.50 pontos» («Vasco Ribeiro justificou convite», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 39).
      Madalena Esteves é já um caso a seguir no Diário de Notícias. Sim senhor: estrangeirismo, tradução. No âmbito do desporto, heat é a designação para eliminatória, etapa. «E já era mais que tempo de aportuguesar definitivamente “surf”», comentou a leitora Cristina. «Os dicionários de português mais usados “em linha” (Priberam e Porto Editora)», lembrou então o leitor R. A., «já têm o verbo surfar e o substantivo surfe.» «Resta a questão da pronúncia», acrescentou. Bem, mas comecemos por algum lado: hoje em dia, quase ninguém, em Portugal, escreve de outra forma que não «icebergue», por exemplo. Aguardemos. Quanto a ranking, é dispensável.

[Texto 161]

Léxico: «lançador»

Bem lançados

      «Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil e a Agência Espacial Brasileira, os testes servirão para preparar o centro de Alcântara para lançadores de maior porte» («Brasil faz testes com foguetões para lançamento de satélites», Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 30).
      Temos muita sorte — eu, sem o desejar, quase o esperava — por não ter sido usado, desta vez, um anglicismo para o que todos compreendemos o que é. Curiosamente, apesar de usada com alguma frequência, esta acepção do vocábulo «lançador» ainda não está registada nos dicionários. E convinha.

[Texto 160]

Gíria

Preconceito, diz ele

      «Concluíram [as técnicas de Reinserção Social] que o arguido “evidencia reduzida consciência da sua situação jurídica e das consequências que daí possam advir” e revela “fraca capacidade de descentração”» («Defesa critica preconceito da justiça com ‘rei Ghob’», Rute Coelho, Diário de Notícias, 13.06.2011, p. 18).
      Vai-se ao manual por onde se estudou e vá de usar a terminologia. Os juízes compreenderão? Isso interessará? Por outro lado, é revoltante como, a avaliar pela notícia, as técnicas, em relação a um caso que nenhuma relação tem com aquele pelo qual está em prisão preventiva, se reportem sempre ao processo por triplo homicídio em que Francisco Leitão ainda nem sequer foi julgado. Esta atitude não é punível?

[Texto 152]

Plural dos apelidos

Por pouco

      «Talvez por isso, o regime, contam outros refugiados, “que arrasou aldeias inteiras, casas, árvores, culturas” e eliminou muitos dos seus habitantes, começou a “entregar armas às famílias alauitas”, a comunidade religiosa a que pertencem os Assad» («Damasco arma alauitas e tropas avançam em Jisr al-Chughur», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 13.06.2011, p. 24).
      Ao contrário do que vimos no Público, no Diário de Notícias sabem que o vocábulo alauita não precisa de acento. Claro que o texto de Lumena Raposo não é perfeito. O plural de Assad é Assads, «os Assads», e será a tropa e não as tropas que avançam em Jisr al-Chughur. Pormenores muito importantes — e descurados pela maioria.

[Texto 143]

«Sobre/sob»

Do lado contrário

      «E uma das formas de perpetuar as pequenas e grandes histórias surge quase sempre sobre o manto de uma lenda» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 7.06.2011).
      Mais um erro lamentável e, para agravar, desses em que só os mais descuidados incorrem. Na rádio não se usará, mas Mafalda Lopes da Costa precisa de dar a ler a alguém — o ideal seria um revisor — os textos que escreve. Revelaria, porque decerto já por aqui passou e está ciente dos erros que dá, inteligência e respeito pelo ouvinte.
     «Duvide-se emb’ora da conveniência de facultar assim, a anónymos, a calúmnia, sob o manto da irresponsabilidade; de incutir no ânimo dos povos que o rei constitucional não depositasse plena fé na lealdade de ministros a quem taes investigações competiam: de lançar na mente régia indevidos germes de suspeitas» (Tributo á Memória de Sua Majestade Fidelissima o Senhor Dom Pedro Quinto, o Muito Amado, António e José Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1862, p. 47).

[Texto 131]

Tradução: «Indian Summer»

Para quê?

      «Levaram-me», pode ler-se na tradução, «a X durante a noite amena e chuvosa como a de um Verão índio.» No original: «Indian Summer». A esmagadora maioria das vezes, a tradução que se vê é outra: Verão indiano. Ora, ao período de finais de Outubro a começos de Novembro damos nós o nome de Verão de S. Martinho. Passe-se a acção no Alentejo, em Nova Iorque ou no Brasil (onde é conhecido por veranico), não é igualmente preciso? Não exprime o mesmo conceito?
[Texto 119]

Sobre «bullying»

Andam a bulir com a língua

      O economista brasileiro Roberto Macedo escreveu hoje no Estadão sobre esse anglicismo omnipresente que é bullying: «Pensando no referido comportamento, recordei-me de palavras que, quando criança, ouvia para descrevê-lo. Por exemplo, em casa, na escola e na rua alguém dizia “fulano buliu comigo”. Aí está o bullying, e nessa e noutras formas em dicionários da nossa língua.
      O meu (Houaiss) apresenta como significados de bulir: mexer com, tocar, causar incômodo ou apoquentar, produzir apreensão em, fazer caçoada, zombar e falar sobre, entre outros. E não consta como regionalismo. Neste caso, no Nordeste tem também o significado de tirar a virgindade. Acrescente-se que nas duas línguas as palavras começam da mesma forma, mas ignoro se têm etimologia comum.
      O mesmo dicionário tem também bulimento, o ato ou efeito de bulir, e bulidor, aquele que o pratica. Ou seja, temos palavras para designar tanto o sujeito (bully), como o verbo (to bully) e o ato decorrente (bullying). Acrescente-se que no desnecessário uso deste último anglicismo se fica só na referência ao ato, dificultando ou desnecessariamente estendendo textos, o que é feito não apenas corriqueiramente pela imprensa, mas também por gente importante» («‘Bullying’ é bulir com a língua portuguesa», Roberto Macedo, Estadão, 3.06.2011).
      Já tínhamos visto no Assim Mesmo que, no contexto, palavras como «perseguição» ou «intimidação» são adequadas para exprimir a mesma ideia.
[Texto 101]

«Estereótipo» e «inêxito»

O interesse dos debates

      Maria Flor Pedroso acaba de usar, na Antena 1, a palavra «estereótipo», mas deslocou a tónica para a sílaba -ti-, e logo, talvez também escreva «estereotipo». Não demorará muito e todos os dicionários registarão, sem indicação de forma preferencial, as duas variantes.
      Estes debates das legislativas são também uma fonte de interesse linguístico. Ontem, Bagão Félix falava em «êxitos e inêxitos». «Inêxito» não é nada de novo, mas ouve-se muito poucas vezes. Poderá ter-nos chegado do Brasil na década de 1950. «Ser ou não ser, perseguindo com irremediável inêxito um critério de opção sem que, mau grado o inêxito, se possa desistir — é trágico: Antero» (Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda, Mário Sacramento. Porto: Editorial Inova, 1970, p. 193).
[Texto 100]

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