Uma «direcção» esquisita

Vamos silenciá-la

     Para descansar da questão galega, fui à Decathlon, em Alfragide. Embora conheça o caminho de olhos fechados, liguei o GPS, um TomTom, porque a última vez que o usara não funcionava bem. A própria palavra «Decathlon» não sai muito escorreita da voz clara e bem audível de Joana, uma das vozes por que podemos optar, mas isso é o menos, desculpável até, pois trata-se de uma indicação secundária. Muito pior é não abrir a vogal de «direcção», muito longe de /dirɛsɐ̃w/, conforme transcrição fonética do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Faz impressão. A viagem já não corre bem. Não serão (diabos os levem) estragos causados pelo Acordo Ortográfico de 1990?

[Texto 3466]

Léxico: «masseira»

Outra falha

      «São os campos de masseiras, zonas cultivadas no terreno arenoso das dunas.» Ah, os dicionários. Abro o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e vejo que desconhece esta acepção de «masseira». É verdade que têm este nome porque, na sua forma, as parcelas quadrangulares, com os lados inclinados, parecem masseiras, os tabuleiros em que se amassa a farinha para o fabrico do pão.

[Texto 3465]

A língua e o autismo

Melodia e simplicidade

      «Miguel, um dos utentes do CAO [Centro de Actividades Ocupacionais], percebe tudo o que lhe dizem tanto em português como em inglês, mas responde em inglês. As terapeutas não conseguem perceber porquê. “Talvez tenha aprendido nos videojogos e na Internet. O inglês é quase sempre a língua preferida dos autistas, provavelmente pela melodia e por ser mais fácil”» («“Para perceber um autista, é preciso aprender a pensar como ele”», Mariana Correia Pinto, Público, 4.11.2013, p. 13).

[Texto 3464]

A questão galega

Pode haver uma terceira via

      «Fácil é de perceber que o que esteve em causa, nesse debate [II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, realizada em Lisboa, no final de Outubro], foram duas vias possíveis para a resolução da questão galega: uma insistindo numa via isolacionista, que não levará senão, a curto-médio prazo, à completa extinção dessa singularidade linguístico-cultural; a outra, apostando antes numa crescente convergência com o espaço lusófono (não apenas com Portugal), sem qualquer fantasma de dissolução. A língua que se fala na Galiza será sempre uma variante singular da língua portuguesa, nessa acepção mais ampla e mais profunda do que é a Lusofonia, enquanto realidade plural e polifónica» («A questão galega», Renato Epifânio, presidente do Movimento Internacional Lusófono, Público, 3.11.2013, p. 54).

[Texto 3463]

Uma certa «noite»

Se é coloquial, está

      «Morreu Zé da Guiné, uma das figuras incontornáveis da música e da noite lisboetas na década de 80. Foi o símbolo do Bairro Alto, considerado um precursor na mudança de hábitos em Lisboa», viu-se ontem no Telejornal. Esta acepção de «noite» não foi deixada de fora pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «coloquial actividades de divertimento e lazer realizadas durante esse período de tempo; vida nocturna». Faltam muitas outras, mas esta está lá.
[Texto 3462]

Plural de «gel»

Então não

      Já conhecem o Talky? Experimentem. Bem, tratando de mais um caso: uma obra já reeditada, e, lá no meio, esta mancha: «os gels fixantes». Há quem defenda que tem dois plurais, géis e geles, mas parece ser maioritária a opinião de que tem apenas um, o primeiro.
[Texto 3461]

«A-histórico/anistórico»

Contrário à História (e à língua)

      O autor escreveu «an-histórico», mas nunca vira tal. Pensei que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registasse o vocábulo «a-histórico», mas nada disso, apenas — oh horror! — «anistórico». Antes, já tinha lido, escrito por um professor universitário — agarrem-se bem — «anhistórico». Apre.

[Texto 3460]

Léxico: «proteaginosas»

Outra nova

      «Portugal poderá ser autossuficiente na produção de alguns cereais, oleaginosas e proteaginosas[,] revela um estudo divulgado ontem pela Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas, em Elvas» («Portugal produz cereais suficientes», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 14).
      Não conhecia, mas não estou sozinho, pois não a vejo em nenhum dicionário. É o nome que se dá às leguminosas com alto conteúdo em proteínas, como a soja, tremoços, ervilhas, favas, etc.
[Texto 3459]

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