Léxico: «dermoabrasão»

Não se percebe

      Neste caso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não apresenta a incoerência que acabámos de ver em relação a «hipestesia/hipoestesia». Nada disso: apenas regista a grafia dermabrasão («processo cirúrgico que consiste na raspagem da pele até à camada dérmica com o objectivo de remover sinais, cicatrizes ou outras imperfeições»), quando muitíssimo mais usada é a variante, igualmente correcta, dermoabrasão.
[Texto 3299]

«Hipestesia/hipoestesia»

Nem pensar

      É um problema — um erro — comum a vários dicionários: registarem variantes com definições diferentes. Veja-se o caso de hipestesia/hipoestesia no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Em hipestesia, regista: «diminuição da sensibilidade»; em hipoestesia, regista: «diminuição relativa, sem ir até à supressão do conjunto, de várias ou de uma das sensações». Ora, não pode ser, e muito menos quando não têm, como é o caso, remissões recíprocas.
[Texto 3298]

«Manteiga em nariz de cão»

Continuem

      «Esta mentira, camaradas e amigos», disse ontem, em Évora, Jerónimo de Sousa, «durou tanto como manteiga em nariz de cão.» É o único dirigente político português cujo discurso merecia um estudo, mas é ver o que se diz nas redes sociais: que não sabem como ele inventa estes ditados; que não é «nariz», mas «focinho», etc. Nada sabem nem nada investigam, pensam, e pensam mal, e escrevem. Nariz é outra forma de nos referirmos ao focinho dos animais. Este ditado concretamente pode ler-se, por exemplo, em Herculano. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira cita esta frase de Rebelo da Silva: «– É segredo! e segredo em boca de mulher derrete-se que nem manteiga em nariz de cão!... Sabe o ditado, tia Angélica?...» (De Noite Todos os Gatos tão Pardos).
[Texto 3297]

«A partir de»

Porque dá que pensar

      Há pessoas que, vá-se lá saber porquê, ficam sempre irritadas com estas estatísticas, mas cá vai, afoitamente: num texto de pouco mais de 200 páginas, encontrei 183 vezes a expressão «a partir de». É muito, é pouco? Bem, na maioria das vezes, foi possível alterar para melhor. Agora vejam aí num dicionário, pode ser no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «a partir de: de … em diante». Nada mais. Ora, as ocorrências da expressão naquele texto repartem-se igualmente pelas três acepções que encontramos num bom dicionário de francês: «a) en prenant pour point de départ (un lieu); b) à compter de, à dater de (un moment dans le temps); c) en prenant comme origine; d) en prenant comme origine logique». Não chegamos a ser mais Franceses do que os Franceses, mas ultrapassamos e bem tudo o que os nossos dicionários admitem. Mesmo tendo em consideração os erros e as falhas que encontramos (eu encontro) todos os dias nos dicionários, é obra. Pensem nisto.
[Texto 3296]

Nomes próprios e o AO

Se o vir na Avenida da Liberdade

      «Por exemplo: vai-se à extraordinária exposição A Encomenda Prodigiosa e lá está, nos folhetos da dita, a “Capela Real de São João Batista”, em vez de Baptista. Isto nos folhetos azuis, os “oficiais”, porque nos folhetos do Museu de São Roque está, obviamente, São João Baptista. O acordo ortográfico, já se sabia (embora não esteja em vigor aqui, como nunca é demais repetir), obriga a mudar batismo para “batismo” ou baptizado para “batizado”, seguindo, aqui, a norma vigente no Brasil. Mas Baptista é um nome, não devia ser mudado» («Eça com z, se faz favor», Nuno Pacheco, «2»/Público, 15.09.2013, p. 40).
      Pois, Baptista é um nome, e por acaso baptista também é um nome. Não sei se o caso merecia uma crónica, enfim. Aqui num texto, em cinco escassíssimas linhas, ora escrevem com p ora sem p. No texto do Acordo Ortográfico de 1990, a única referência pertinente para o caso é a Base XXI (quase cópia da Base L do Acordo Ortográfico de 1945), que estatui que, «para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote na assinatura do seu nome». Não sei se São João Baptista, o Precursor, um homenzinho agora com 2015 anos de idade, continua a escrever o nome com p. Nuno Pacheco que lhe pergunte, quando o encontrar por aí.
[Texto 3295]

Cada macaco

Esse seria o mundo perfeito

      O ideal, em todas as circunstâncias da vida («da puta da vida», como disse A. B., que morreu milionário antes do 50), seria as pessoas só falarem do que percebem. Quanto ao resto, impunha-se um voto perpétuo de silêncio — ou até adquirirem as respectivas competências. É o caso: «A equipa decidiu utilizar a grafia pré-acordo ortográfico em todo o livro. Se não estou em erro, isso significa que sub-populações, socio-económicas, etc., têm hífen. Deixámos todas as ocorrências com a sugestão de alteração (não aceitámos nem recusámos). Pensamos que o mais importante é existir coerência.»

[Texto 3294]

Tradução: «gogol»

Nada simples

      Lembrei-me agora, a propósito de Asperger, de uma dificuldade numa tradução recente. No original, francês, lia-se que alguém era «gogol», corruptela de mongolien, «mongolóide», e termo ofensivo. Apesar de tudo o que se diz — e já uma vez escrevi no Assim Mesmo sobre esta questão —, «mongolóide» não é um termo ofensivo. (Não vou é explicar de novo, porque tenho mais que fazer.) Era preciso encontrar um termo equivalente em português — ofensivo, preferencialmente também corruptela. Acham que existe? Qual acham que foi a solução encontrada?
[Texto 3293]

«Transportista»?

Boa pergunta

      Podia ser uma pergunta para aqueles concursos para gente muito inteligente: como se chama o dono de uma empresa de transportes — transformista; transportador ou transportista? Um leitor acaba de me mandar uma mensagem: «Meu caro Helder: A revista Ler de Setembro inclui uma pré-publicação do novo romance de Mario Vargas Llosa. Os tradutores chamam “transportista” a uma das personagens, dono de uma empresa de transportes. Acha que isto faz algum sentido?» O original diz que Felícito Yanaqué é «dueño de la Empresa de Transportes Narihualá». Na tradução brasileira lê-se que Felícito Yanaqué é o «dono da Empresa de Transportes Narihualá». Claro que, como não li o original (nem a tradução), não posso saber se é usada também a palavra castelhana transportista, que designa o «que se dedica a hacer transportes». Admitindo que o dono de uma empresa de transportes é isso que faz — por intermédio de outros —, temos em português a palavra transportador — aquele que transporta. Não precisamos de inventar nem de adoptar nenhuma palavra estrangeira. «&*#$#!», respondo eu. «Era o que me parecia, mas como os tradutores são duas pessoas muito conceituadas, fiquei na dúvida», escreve o meu interlocutor. «&*#$#!», repito eu (Asperger, diagnosticaria de novo aquela besta do N.). «E quem terá sido o revisor que deixou passar uma coisa destas?»
[Texto 3292]

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