Léxico: «mal-do-panamá»

Soa a doença venérea

      «No início do século XX, o fungo que provoca o mal-do-panamá causou os primeiros prejuízos importantes em plantações de banana precisamente no Panamá» («O que é que a banana tem? Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar-se», Teresa Firmino, Público, 8.11.2013, p. 37).
      Acho que só ultimamente é que ando a ver o verbo «alastrar» como pronominal. Eu escreveria assim: «Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar.»
[Texto 3483]

Os «nostalgériques»

E os nostálgicos do nosso império?

      «Os “nostalgériques” (os nostálgicos da Argélia francesa), com importante peso eleitoral em Aix-en-Provence e com uma presença assinável [sic] nos novéis meios de comunicação, condicionaram o processo» («Albert Camus. Um homem irrecuperável», Miguel Bandeira Jerónimo, Público, 8.11.2013, p. 22).
[Texto 3482]

O dinheiro e o dicionário

Inveja não é

      Pode algum leitor do Linguagista ter a dúvida: «Sou multimilionário? Não sou multimilionário?» Se souber ler, procurará num dicionário. O da Porto Editora regista: «que ou aquele que é muitas vezes milionário; que ou aquele que é muitíssimo rico». Muitas vezes, pois, mas quantas? O Público esclarece: «Um relatório do banco suíço UBS concluiu que em Portugal há mais 85 milionários [sic] — indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares (perto de 22,4 milhões de euros) — do que em 2012» («O número de multimilionários portugueses subiu e estão mais ricos», Camilo Soldado, Público, 8.11.2013, p. 22). O jornalista ficou de tal modo perturbado, coitado, que se enganou. Ah, sim, o título também é curioso.
[Texto 3481]

Literatura na política

Disse a rainha

      «Perante as críticas da oposição sobre a visão positiva do ministro da realidade do país, Maduro respondeu: “A forma como analisam a situação de Portugal só me recorda a Alice no País das Maravilhas: ainda não é pequeno-almoço e eu já acreditei em seis coisas impossíveis”» («Alice no País das Maravilhas, segundo o ministro Miguel Poiares Maduro», Maria Lopes, Público, 8.11.2013, p. 12).
      Está bem citado? Hum... «“I daresay you haven't had much practice,” said the Queen. “When I was younger, I always did it for half an hour a day. Why, sometimes I’ve believed as many as six impossible things before breakfast.”» Ficamos assim com vontade de reler esta obra.
[Texto 3480]

Tradução: «self-publishing»

Em busca do self

      «Memórias agora reunidas em Os Beatles na Imprensa Portuguesa 1963-1972, de Abel Soares Rosa, livro com tiragem limitada que acaba de ser lançado em autoedição» («Como se falava dos Beatles sob o olhar atento da censura», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 6.11.2013, p. 47).
      Parece que se pretende assim traduzir o termo inglês self-publishing. Pois, mas em português não se disse sempre, caro Nuno Galopim, «edição de autor»? Isso é arrombar portas abertas.
[Texto 3479]

Paradoxo de Stanisław J. Lec

Para terminar

      Para acabar o dia, deixo um paradoxo de Stanisław Jerzy Lec. Em inglês, não em polaco nem em português. «There are grammatical errors even in his silence.»
[Texto 3478]

A importância do imperfeito

Incompreensível

      «Je sortais d’un théâtre.» Assim começa Sylvie, de Gérard de Nerval, incompreensivelmente ainda sem tradução portuguesa. Gostava de a ver traduzida por Pedro Tamen ou por Mega Ferreira, por exemplo. Em nota de rodapé em certa obra, Eco afirma: «Infelizes as línguas que não têm imperfeito e se esforçam por dar este incipit nervaliano.» É o caso do inglês, língua em que já se fizeram várias traduções daquela obra.
[Texto 3477]

Ortografia: «sub-reptício»

Sub-repticiamente

      E porque será que tanta gente erra na ortografia desta palavra e do advérbio? Não sei. O que sei é que o Acordo Ortográfico de 1945 previa explicitamente que se devia usar hífen nos «compostos formados com o prefixo sub, ou com o seu paralelo sob, quando o segundo elemento começa por b, por h (salvo se não tem vida autónoma: subastar, em vez de sub-hastar), ou por um r que não se liga foneticamente ao b anterior». Da leitura do acordo de 1990 não se chega a nenhuma conclusão sobre esta questão.

[Texto 3476]

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