Léxico: «proteaginosas»

Outra nova

      «Portugal poderá ser autossuficiente na produção de alguns cereais, oleaginosas e proteaginosas[,] revela um estudo divulgado ontem pela Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas, em Elvas» («Portugal produz cereais suficientes», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 14).
      Não conhecia, mas não estou sozinho, pois não a vejo em nenhum dicionário. É o nome que se dá às leguminosas com alto conteúdo em proteínas, como a soja, tremoços, ervilhas, favas, etc.
[Texto 3459]

«Cowork»!

Uma espécie de crioulo

      «As guitarras Santa Cecília, construídas a partir de caixas de charutos, vão estar amanhã na CRU — loja de criadores e espaço de cowork no Porto — fechando a edição das Inaugurações Simultâneas de 2013» («Quando caixas de charutos ‘viram’ guitarras», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 22).
[Texto 3458]

Exorcismo

Exorcismo

Carlos Drummond de Andrade



Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.

Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.

Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.

Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.

Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.

Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.

Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.

Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.

Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronomial obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.

Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista,
Libera nos, Domine.

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

Os jornalistas e a gramática

Não ouvi, mas acredito

      «Quando eu pensava que já tinha visto/lido/ouvido tudo», escreve-me um leitor do Linguagista, «eis que vem a TSF desenganar-me. No seu noticiário das 17 horas de hoje, numa peça sobre alegadas acusações da empresa Parvalorem à administração do BPN nacionalizado, o jornalista [José Milheiro] disse o seguinte: “Ataques, insinuações, insídia e manobras – são estes os adjectivos utilizados pelos antigos administradores do BPN nacionalizado para classificarem a posição da Parvalorem reflectida na edição de hoje do Diário de Notícias”.»
      Talvez supere tudo o que, de semelhante, já tenho lido ou ouvido, pois, no caso, não há sequer um adjectivo.
[Texto 3456]

Léxico: «legiferar»

A legífera

      «Como costumam dizer os vigaristas da nossa política, sou insuspeito nesta matéria: não gosto de gatos, nem de cães. Mas também não gosto que o Estado se intrometa na minha vida ou na vida dos portugueses. Descobri esta semana com espanto que a sra. Ministra da Agricultura resolveu legiferar sobre o número de animais que um cidadão pode ter em casa» («2 cães, 4 gatos e a loucura do Governo», Vasco Pulido Valente, Público, 1.11.2013, p. 52).
      Merece figurar aqui, porque raramente se usa o verbo legiferar. Mas, na primeira frase, a vírgula antes da conjunção é pura excrescência: não gosto de gatos nem de cães. Ele. Eu gosto de cães e de gatos.

[Texto 3455]

«Coolie/cúli/cule»

Não surpreende nada

      Na mesma tradução, ora se lê coolie ora o seu aportuguesamento cúli. Nem este nem a variante cule estão registados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se consultarmos o Dicionário de Inglês-Português da mesma editora, vemos que coolie é o nome depreciativo que se dá ao «trabalhador assalariado (indiano ou chinês)». É como se no verbete football escrevessem «jogo entre dois grupos de onze jogadores, em campo rectangular, geralmente relvado, em que cada grupo procura meter uma bola na baliza do adversário, sem lhe tocar com os membros superiores». Não surpreende, assim, que alguns, demasiados, tradutores deixem a palavra em inglês.

[Texto 3454]

Sobre «zootrópio»

De pouco serve

      Sabem o que é um zootrópio? Se não sabem e forem consultar a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não ficarão a saber muito mais: «aparelho que dá a ilusão do movimento pela persistência das sensações ópticas». É mais um verbete a precisar de nova redacção, pois de todos os dicionários que consultei, é o menos claro.
[Texto 3453]

«Homicídio/assassínio»

Isso não é connosco

      «Rosario Porto e Alfonso Basterra estão detidos pela morte da filha, mas negam serem os autores do crime. Inicialmente foram acusados de homicídio, mas o juiz alterou a acusação para assassínio (que pressupõe um planeamento do crime) ao receber os resultados do exame toxicológico» («Asunta morreu devido à ingestão de ansiolíticos», Diário de Notícias, 25.10.2013, p. 24).
      Que «pressupõe um planeamento do crime» (porquê «um»?), sim, mas no ordenamento jurídico espanhol. Num artigo publicado na edição em linha de segunda-feira do diário espanhol ABC, explicava-se a diferença: «Para hablar de homicidio lo único que se necesita es que una persona le causa la muerte a otra, voluntaria o involuntariamente, pero siempre excluyendo tres condiciones que sí se dan para que el delito se eleve al de asesinato: que se cometa con “alevosía”, es decir, premeditación; que se de “ensañamiento” o, por último, que haya una recompensa por cometer el crimen, lo que se tipifica como “concurrencia de precio”.»
[Texto 3452]

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