Revisão

É a vida

      Depois de agradecer a dezenas de pessoas, de lordes e ilustres para cima, Virginia Woolf deixa, em Orlando, este agradecimento final: «Por último agradeceria, se não tivesse perdido o seu nome e morada, a um cavalheiro americano que generosa e gratuitamente corrigiu a pontuação, a botânica, a entomologia, a geografia e a cronologia de anteriores obras minhas e que, segundo espero, não irá privar‐me desta vez dos seus serviços.» Um revisor informal, decerto competente — e de nome desconhecido para sempre.

[Texto 3443]

Não esqueçam

É português

      Bem, é melhor não esqueceram completamente o grego, ou pelo menos como sempre se transcreveram para português palavras gregas. Ainda hoje li que o mensageiro da Batalha de Maratona (490 a. C.) foi Pheidippides e que o percurso dele incluiu o «monte Parthenio». Ora, sempre se escreveu Fidípides (ou Filípides), e o monte é, sem qualquer dúvida, o Parténio.

[Texto 3442]

Léxico: «psi»

É grego

      «Estou a falar com dois psis, pai e filha. Para compreender alguma coisa de quem são e da vossa relação, tenho de começar pelo complexo de Édipo da Joana?» («Joana e Carlos Amaral Dias. Amar é natural na espécie humana?», Anabela Mota Ribeiro, «Domingo»/Público, 27.10.2013, p. 19).
      Sim, mas para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ainda é apenas o nome da vigésima terceira letra do alfabeto grego.
[Texto 3441]

«Espaçotemporal»

Tripla, desta vez

      «Os mundos possíveis não actuais não são planetas distantes; não são entidades que tenham uma relação física, ou espácio-temporal, com o planeta Terra, nem com o universo em que vivemos» (Essencialismo Naturalizado, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 16).
      Para quem entende que espácio- é elemento de composição de natureza substantiva, correcto é «espaciotemporal». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, nem isso está em causa, só há uma forma de grafar: «espaçotemporal». E pronto, eis — sem que o tivéssemos pedido — três formas de escrever o mesmo.
[Texto 3440]

Léxico: «hemitórax»

Uns sim, outros não

      «Um golpe na região do hemitórax direito de João Carlos Ribeiro, orientado da direita para a esquerda, da frente para trás e ligeiramente de baixo para cima — lê-se no processo» («O homem que matou um homem e encontrou Saramago na prisão», Catarina Fernandes Martins, «2»/Público, 27.10.2013, p. 14).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «hemotórax». Se eu sugerir a inclusão de «hemitórax», responder-me-ão, porém, que já está no Dicionário de Termos Médicos. Numa notícia no Público da semana passada, foi usado um termo semelhante a estes dois, «hematórax», que também está apenas no Dicionário de Termos Médicos. Só falta, pois, para serem consequentes, tirarem «hemotórax» do Dicionário da Língua Portuguesa.
[Texto 3439]

Tradução: «bow window»

Querem ver que

      «Está tudo na arquitectura. As casas dos Beatles são pequenas; as fachadas, opacas. Apenas a de John tem bow windows, e as luzes acesas, numa avenida larga. São em pleno subúrbio, longe do centro de Liverpool e da sua digna monumentalidade» («As ruas de Liverpool», Jorge Figueira, «2»/Público, 27.10.2013, p. 9).
      Peço licença para lembrar, bow window tem, obviamente, tradução para português. Na literatura traduzida, nunca vi nenhuma bow window.
[Texto 3438]

Maus exemplos

VPV, o metafísico

      «O mal deste trio [Seguro, Sócrates e Soares] é que, para além da sua intransigência e vociferação, não oferece nada ao partido ou a Portugal, que, peço licença para lembrar, ainda aqui anda» («A grande zaragata», Vasco Pulido Valente, Público, 27.10.2013, p. 56).

[Texto 3437]

Tradução: «honourable»

Intraduzível, hein?

      Numa tradução de uma obra muito conhecida, feita no Brasil, lê-se: «Se ainda fosse alguma Honourable Edith ou Lady Violet, talvez; mas não aquela Sally maltrapilha sem um tostão de seu, sem pai ou mãe jogando em Monte Carlo.» Na tradução feita em Portugal, lê-se isto: «Ainda se fosse alguma Ilustre Edith ou Lady Violet; mas jamais a farroupilha da Sally, que não tinha um tostão e cujos pais passavam o tempo a jogar em Monte Carlo.»
[Texto 3436]

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