«Júri/jurado»

Digam-lhe

      Quase toda a gente já sabe a diferença entre «júri» e «jurado». Entre os que não sabem, para nosso infortúnio, estão muitos jornalistas. «No rosto de Seabra nada se passou. Odília Pereirinha, no banco onde se senta há mais de dois meses para assistir ao julgamento do filho, apenas baixou a cabeça por instantes. Quando cada um dos júris confirmou o veredicto – culpado, culpado, culpado... –, mãe e filho permaneceram impávidos» («Jurados rejeitam insanidade e condenam Renato Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 1.12.2012, p. 19).
[Texto 2386]

Léxico: «pensionamento»

Pela primeira vez

      Acabei de a ver num texto de natureza económica, de autor português. Pensionamento. Os dicionários gerais da língua portuguesa desconhecem-na. Mas existe pensionado, pensionar, pensionário, pensioneiro, pensionista. Encontro-a nos dicionários de italiano: «Il mettere o il mettersi in pensione, collocamento in pensione di un lavoratore che ha cessato la propria attività» (in Enciclopédia Treccani). Não dirá a nossa palavra «aposentação» rigorosamente o mesmo?
[Texto 2385]

Acordo Ortográfico

O desastre está aí

      O número de falantes que adoptaram o novo Acordo Ortográfico e que escrevem «contato» revela-se, a cada dia que passa, assustador. E estou a falar de licenciados para cima. Professores universitários, investigadores... Convenhamos que ainda não foi ultrapassado o pior desconchavo nesta matéria: o daquela professora de Português que introduzira paulatinamente, mesmo antes de frequentar uma «ação de formação» específica, as novas regras nos textos que dava aos alunos, «adatando-os». Assim mesmo, sem p nem pés nem bom senso.
[Texto 2384]

Léxico: «cremona»

Também do francês

      «Quando acordou[,] viu que Raul, de tronco nu, fazia a barba olhando-se no espelho pequeno que tinha por hábito pendurar na cremona da janela mais pequena» (Nunca É de mais, Maria Roma. Lisboa: Bertrand Editora, 2003, p. 214). Conheci-a ontem. Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ferrolho duplo, comprido, da altura da porta ou da janela, que fecha simultaneamente em cima e em baixo». Também se diz carmona.
[Texto 2383]

Sobre «impasse»

Se são meramente descritivos

      «Encontro», escreve a autora sobre Lisboa, «ruas que vão dar a impasses e escadas que acabam de repente.» Sempre achei muito curioso este galicismo. Impasse é o mesmo que beco sem saída. O termo, que talvez tenha sido introduzido na língua na década de 1940, já está nos dicionários, mas há imprecisões que é necessário corrigir. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, estão registadas duas acepções — e nenhuma é esta. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa aparece como terceira acepção, mas com esta particularidade: «[Portugal: Madeira] Rua sem saída». Ai sim? Experimentem pesquisar no sítio Lisboa Interactiva e verão quantos impasses por ali estão. Se acolheram o galicismo, têm de registar todas as acepções usadas na nossa língua, que são precisamente as do étimo, como se pode comprovar no Le Trésor de la Langue Française Informatisé: «Rue sans issue. Synon. cul-de-sac» e «position ou situation qui ne présente pas d’issue favorable».
[Texto 2382]

Dia da Espiga

Pois então

      Na obra Festividades Cíclicas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 113), é Dia da Espiga, com maiúsculas iniciais, que se pode ler. Por analogia com outras datas, também sou de opinião que se deve grafar desta forma.
[Texto 2381]

Léxico: «feijão-mungo»

Nutritivos

      Hoje comprei rebentos de feijão mungo no supermercado, para fazer com ravióis. É o que se lia na embalagem, e eu pensei logo que havia de ser designação mal traduzida do inglês: mung beans sprouts... Engano o meu: está na honestíssima Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 11, p. 28): feijão-mungo, nome vulgar do Phaseolus mungo Lin., também conhecido como feijão-do-congo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2380]

«Catarense»/«catariano»

Seria melhor

      «Há ainda outros dois trunfos que reforçam a esperança do xeque do Qatar. Uma delas é a amizade entre Mourinho e o presidente do Paris Saint-Germain, o também catari Nasser Al-Khelaifi, que numa entrevista recente ao jornal espanhol Marca desfez-se em elogios a Mourinho. “É muito inteligente e está a fazer um grande trabalho em Madrid”, disse» («PSG seduz José Mourinho com oferta estratosférica», Carlos Nogueira e Madalena Esteves, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 37).
      Está longe de ser português, como salta à vista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista catariano, que remete para catarense.
[Texto 2379]

 

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