Como se escreve nos jornais

Está na hora de mudar de jornal

      «A ausência do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante as últimas semanas na comunicação social causou estranheza e especulação entre a população, com o chefe de Estado a vir ontem explicar-se: Putin, 60 anos feitos em maio e cinturão negro em judo, garantiu ter-se magoado num combate, tendo lesionado-se na coluna, o que lhe tem provocado dores nas costas» («Putin lesiona coluna no judo», Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 26).
[Texto 2378]

Aspas escusadas

Pecha muito vista

      «Tanto ela [Ana Saltão] como o marido tinham ido ao funeral da octogenária assassinada, cerimónias que decorreram este sábado. Mas, apesar de estar habituada e ter conhecimentos técnicos sobre como ‘ler’ cenários de crime, a inspetora terá cometido alguns deslizes, cruciais para o sucesso desta investigação. A arguida, de 36 anos, natural da Figueira da Foz, estava de baixa médica devido a uma intervenção cirúrgica» («Inspetora da PJ recusa explicar porque matou», Paula Carmo, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
       Não interessa se é um sentido principal ou um sentido figurado — não precisa das aspas.

[Texto 2377]

Ortografia: «inclusive»

Para a próxima

      «Ao longo dos meses, a investigação conseguiu também reunir muitas outros tipo de prova, nomeadamente através da vigilância realizada tanto na Sé como junto às habitações. O agente em causa foi inclusivé visto a sair da casa de Aurélio, pertencente ao grupo de detidos e que está em prisão domiciliária à espera de ser julgado por tráfico de droga. Terá avisado os restante detidos de rusgas agendadas e terá inclusivé reunido com os advogados dos indivíduos. Nos autos constam ainda escutas telefónicas onde [sic] o polícia participa» («Chefe da PSP que avisava traficantes fica em preventiva», A. T., Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
      Pode ler-se assim, pode, mas não se escreve dessa forma, pois trata-se de uma palavra grave.

[Texto 2376]

Como se escreve nos jornais

Não é para aqui

       «Depois de várias negas, Ana Filipa [Miranda] apresenta-nos o primeiro classificado. Certamente um dos poucos que não terá sofrido ataques de ansiedade» («Cardiologia e neurocirurgia no topo das escolhas de novos médicos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 17).
      «Negas»... Tanto informalismo ficava melhor numa conversa à esquina, entre amigos, a jornalista deve saber isso.
[Texto 2375]

Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]

Léxico: «grife»

Como tantas outras

      «Miranda Kerr pode deixar de ser um dos ‘anjos’ da Victoria’s Secret. A notícia caiu como uma bomba uma vez que a australiana é uma das manequins preferidas da marca, mas a justificação é simples: foi noticiado que a conhecida grife de lingerie usava produtos tóxicos na sua confeção, segundo o The Daily Telegraph» («Miranda Kerr quer deixar de ser ‘anjo’», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 53).
      Parece que já é portuguesa... No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «griffe». A acepção é a primeira: «empresa produtora e/ou distribuidora de artigos de vestuário e acessórios de luxo».
[Texto 2373]

Sobre «operacional»

Então está errado

      «Em junho de 2011, Nuno Pereira, inspetor-chefe da Polícia Judiciária (PJ) na reforma, matou a empregada que fazia a limpeza em sua casa com um tiro na cabeça, alegadamente por motivos passionais. O crime ocorreu no escritório da sua casa e pensa-se que foi motivado pela recusa da vítima, uma ucraniana de 45 anos, em iniciar um relação amorosa com o ex-operacional» («Homicídio passional», Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 18).
      Mas «operacional» não se aplica apenas a militares? É o que se pode comprovar nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só está registado como adjectivo. Se, em vez da Polícia Judiciária, se tratasse da GNR, que é uma força de segurança de natureza militar, talvez se adequasse.

[Texto 2372]

Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]

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