Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]

Sobre «bufete»

Pode não ser

      «No documento, que estabelece os alimentos a retirar dos bufetes das escolas – que o DN noticiou em setembro (ver caixa) –, a DGS enuncia um conjunto de alimentos e produtos “que contêm glúten”, e que deve ser tido em conta pelas escolas e empresas que confecionam as refeições para os alunos» («DGS previne alergias nas cantinas», P. S. T., Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 15).
      Das quatro acepções de «bufete» registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, qual é a do artigo acima? Bem, talvez nenhuma.
[Texto 2289]

Frades, marifusas

É da crise

      «Alheios a essas questões, logo que surgem as primeiras chuvas de outono centenas de pessoas percorrem as florestas de Trás-os-Montes. Este ano, o “exército de apanhadores” é engrossado por muitos desempregados como Augusto Lopes 45 anos de Poiares (Peso da Régua). “Não há trabalho, temos de sobreviver e sustentar a família, por isso nesta época dedico-me à apanha de cogumelos, mas a maioria é para consumir em casa.” Confrontado com a recente morte de três conterrâneos seus por ingestão de cogumelos venenosos, foi rápido na resposta: “Sei o que apanho: primeiro só apanho ‘frades’ (nome popular da espécie Macrolepiota procera), e já o faço há mais de 20 anos, e aqueles que não conheço nem lhes toco”» («Comércio ilegal de cogumelos gera cinco milhões de euros só no Norte», José António Cardoso, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 20).
      Vírgulas a menos, aspas a mais, parênteses errados... Mas o que me interessa agora: «frade» não é o regionalismo para «cogumelo», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas o nome comum, regionalismo, sim, da espécie Macrolepiota procera, também conhecida por marifusa.
[Texto 2288]

Léxico: «embrace»

Um abraço

      Em inglês diz-se curtain cord, eu conhecia-o apenas por cordão, mas o nome em português é embrace (por derivação regressiva de embraçar): «cordão ou faixa com que se prende um reposteiro, cortina de porta ou janela, etc.», conforme se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2287]

Tradução: «twist»

Outro golpe

      Não seria traduzir para francês, mas quase. Twist por «golpe de teatro», decalque escusado do francês coup de théâtre. Parecido, mas inteiramente português, é lance teatral. Dependendo do contexto, lance imprevisto também poderá adequar-se.
[Texto 2286]

Tradução: «bay window»

Escusadamente

      O tradutor quis que fosse «janela de bojo», mas o que me parece é que é querer inventar o que já foi inventado. Até na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira leio «janela saliente». E já li, algures, traduzido por «janela de ângulo», o que não se me afigura correcto, pois esta é a que, numa esquina, se abre nas duas paredes contíguas, muitas vezes mainelada por uma coluna ou pilar na prumada do cunhal, no que não apresenta qualquer semelhança com a bay window.
[Texto 2285]

Tradução: «knickerbockers»

Não desta vez

      Então se até o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de knickerbockers «calças à golfe» (que faz anteceder do labéu de «antiquado»...), o tradutor deixa no original? Não pode ser. «E já muda o turno, agora é um rapaz alto, de aspecto amável, calças à golfe, cabelos loiros de caracol à Tintin. O homem sorri-se, lembra-se de Óscar com seis anos ao seu colo, a ouvi-lo ler a história de Les Bijoux de la Castafiore» (Não Te Esqueças de Mim: O Pó das Palavras Mortas, Nuno de Figueiredo. Lisboa: Escritor, 2000, p. 173).
[Texto 2284]

Tradução: «doily»

Com paninhos

      Fico sempre perplexo quando alguém traduz do inglês — com termos de outra língua que não a portuguesa. Desta vez, a palavra era doily ­— paninho ornamental, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. O tradutor quis que fosse napperon. Mas até o temos aportuguesado, naperon. E é assim que ele aparece abundantemente na obra de António Lobo Antunes, talvez o autor que mais a usa.

[Texto 2283]

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