AOLP90: toda a verdade

Maquilhado

      «Nuno Pacheco explica detalhadamente as incongruências a que a língua foi sujeita», prometeu — em vão — o locutor logo no início do programa de ontem de Nativos Digitais, dedicado ao Acordo Ortográfico. Apareceu também escrito que «nas rádios a questão não se coloca de uma forma tão vincada porque o acordo tem repercussões sobretudo ao nível da escrita». Sou ouvinte assíduo de rádio, e nomeadamente da Antena 1, e, até agora, não reparei em nenhuma repercussão do Acordo Ortográfico. O director adjunto do Público aduziu o exemplo de «maquiagem», que, «em português de Portugal, quer dizer “abarbatar-se com umas quantias”». Não quer nada, isso é disparate. Temos, como têm os Brasileiros, o verbo maquiar, que significa desfalcar, subtrair, de que não se formou o substantivo «maquiagem». Tão disparate como afirmar que são «milhares, milhares» as palavras diferentes entre o inglês e o inglês americano.
      Já para José Mário Costa (fosse eu jornalista, e escreveria que é o «bonzo do Acordo Ortográfico»), se antes, «nós, mesmo os mais ligados à língua, não éramos capazes de escrever sem um prontuário a dizer como é que era», agora «o hífen passou a ter regras claras», até porque basta ir ao Vocabulário Ortográfico, «disponível graciosamente», e «qualquer dúvida é imediatamente resolvida». Então não.

[Texto 1570]

Tradução: «firewall»

Para não haver tresmalhos

      Prof. Silva Lopes, economista e antigo ministro das Finanças e antigo governador do Banco de Portugal, em entrevista à Antena 1: «A Europa tem todo o interesse que faça aquilo a que se chama uma firewall, portanto, uma cerca de protecção para os países... Quer dizer, actualmente a Grécia está dentro dessa cerca. Se a Grécia ficar fora da cerca, é preciso que Portugal fique dentro e que a Europa apoie, quer dizer, com a tal firewall, a tal cerca — consiste em apoios do Banco Central Europeu e outros, mas principalmente do Banco Central Europeu —, se a Europa fizer isso e se Portugal ficar dentro, enfim, lá vamos aguentando.» Tínhamos visto esta questão aqui recentemente.
[Texto 1569]

«Sarna/escabiose»

Pior que a sarna?

      «Dois casos distintos de surtos de escabiose – mais conhecida por sarna – numa CERCI de Oeiras e num hospital açoriano, abrangendo 18 pessoas, estão a gerar apreensão entre funcionários e utentes. [...] Um caso, denunciado ontem de forma anónima ao DN, prende-se com a CERCI de Oeiras, instituição de apoio ao [sic] deficientes que, nos últimos três anos, tem sido frequentemente atingida por esta doença de pele contagiosa, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei» («Surtos de sarna em CERCI de Oeiras e hospital», Pedro Sousa Tavares e Paulo Faustino, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 13).
      É para «sarna» que remete o verbete «escabiose» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Deve ser uma sensação terrível, e não é por acaso que há várias frases feitas e provérbios sobre a doença. Só lhe falta sarna para se coçar é o que ouço mais vezes.
[Texto 1568]

Rife

Outras paragens

      «Considerada como a surpresa da campanha, a franco-marroquina Najat Vallaud-Belkacem assumiu o Ministério dos Direitos das Mulheres. Esta jovem de 34 anos nasceu no Rife marroquino, mas mudou-se com a família para França quando tinha apenas quatro anos» («Do Magrebe à Coreia do Sul, as origens dos ministros de Hollande», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 25).
      Prefiro, naturalmente, a grafia Rife. Que é também a usada no verbete «rifenho», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «do Rife, região montanhosa de Marrocos setentrional».
[Texto 1567]

Plural metafónico

Eu seja surdo se

      «O alerta foi dado por funcionários da obra. Preparavam-se para mais um dia de trabalho num dos troços da futura Auto-Estrada n.º 4, em Mouçós-Vila Real, quando encontraram o tractor tombado numa via paralela», disse a repórter Eduarda Freitas (ou terá sido Ana Felício?) no Jornal da Tarde. E manteve o timbre da vogal tónica, isto é, sem metafonia. Ora, tanto quanto sei, «troços» tem plural metafónico e não é vocábulo alvo de indefinição. Como em tijolos, tortos, tremoços, trocos...
[Texto 1566]

«À maravilha»

Às mil maravilhas

      «Diogo Pires primou entre os humanistas do seu tempo, não lhe faltando servir-se à maravilha dum latim verdadeiramente ciceroniano como instrumento de expressão» (Portugueses das Sete Partidas, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, [1951], 3.ª ed., p. 248).
      «Como se está a ver, eu observei que “um ou outro autor português recorre à expressão à maravilha...” Mas adverti que a expressão às mil maravilhas tem sabor mais castiço em nossa fraseologia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 153).
[Texto 1565]

«Cor-de-rosa» no AOLP90

Isso é absurdo

      «Sobre o artificialismo de escrever cor-de-rosa, mas cor de laranja, considerando aquela uma palavra composta, e dizendo que exprime uma só ideia, o argumento é infantil. Na tradução das cores tanto há uma só ideia em cor de rosa, como em cor de laranja, etc. Dizer, como Sá Nunes diz, que a cor-de-rosa leva hífen, por ter um único sentido, faz supor que em cor de laranja não se verifica a mesma semântica, e isso é absurdo. Cor de burro quando foge forma também uma unidade semântica, na ideia una da ironia» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 126).
      E ainda hoje continua, absurdamente, a ser assim. Mais um exemplo da falta de ponderação das soluções consagradas no Acordo Ortográfico de 1990.
[Texto 1564]

Acordo Ortográfico rejeitado

Ora aí está o que se pode fazer

      «A Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico aprovou quinta-feira em Lisboa uma moção de rejeição do Acordo Ortográfico. A associação irá agora defender também, junto dos órgãos de governo do Técnico, que “nenhum estudante seja prejudicado por recusar escrever segundo o Acordo Ortográfico”. É a primeira associação de estudantes do país a rejeitar oficialmente o acordo» («Estudantes do Técnico contra Acordo Ortográfico», Público, 21.05.2012, p. 12).
      A propósito: amanhã, às 19h50, no programa Nativos Digitais, na RTP2, vai falar-se do Acordo Ortográfico.
[Texto 1563]

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