Como se escreve por aí

Fica para a próxima


      «Como se previa, António José Seguro ganhou por larga margem a segunda volta. Os cidadãos escolheram inequivocamente o candidato eivado dos valores democráticos, que declarou respeitar a Constituição, tendo rejeitado o outro que, amiúde, tem contrariado esses valores e quer mudar a nossa lei fundamental» («E agora, António José?», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.02.2026, p. 2).

      O Prof. Carlos Fiolhais esqueceu-se de dar uma olhadela nos dicionários, o que nunca é avisado. Veria que em alguns, como o da Porto Editora, as três primeiras acepções têm um sentido negativo («1. que apresenta eiva ou mancha;  2. que está contaminado; 3. que está viciado, corrompido», enquanto noutros, como o tão decantado Houaiss, apenas encontraria acepções negativas («infectado, contaminado»). Concluiria forçosamente que não era o melhor termo no contexto. 

[Texto 22 388]

Sobre «ob-reptício»

Li e não gostei

      «Sintomático é que a presidente da Associação de Professores de Português tenha, a priori, o capcioso argumento, típico dos ob-reptícios: dizer que com estas metas regredimos vinte anos... Não, minha senhora. Veja bem: o professor não fica dentro dum espartilho com este programa — liberta-se é dum programa que, admitido em 2001, terá, em 2015 (quando este Novo Programa vigorar), mais de uma década de leccionação. O resultado qual foi? Média nacional de 8,9 no secundário e uma iliteracia nefanda. Eis o resultado. Para quem, como Edviges Ferreira, tem sempre a posição do “não li e não gostei”, estas metas colocam um problema óbvio: o professor terá de ler e terá de saber como ensinar a ler e a escrever. Terá de ler literatura e ensaio sobre obras da nossa cultura (e não só...) e terá de saber articular o discurso literário com História e a Filosofia, com Música e as Artes... É chato. Dá trabalho. Mas os alunos agradecem. Merecem. E o país também» («Verdades sobre o ensino do Português: metas curriculares e não só», António Carlos Cortez, Público, 27.11.2013, p. 50).
      Digamos que o uso de «ob-reptício» — obtido por ob-repção; doloso, fraudulento — é um tanto inusitado.
[Texto 3592]

Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

«Voluptuário/sumptuário»

Vamos recorrer

      «As juízas do Tribunal da Relação que analisaram o caso invocam os elevados montantes despendidos em “gastos totalmente voluptuários e despropositados (perfumes, charutos, aluguer de Porches [sic], refeições e vinhos de preços escandalosos)” para concluírem que, mesmo que tivessem sido devidamente autorizadas, essas autorizações “ofenderiam os bons costumes enquanto valoração do social e moralmente aceitável, tendo em conta a gravidade dos factos”» («Gastos “voluptuários” do maestro Graça Moura não foram desculpados», Ana Henriques, Público, 11.10.2013, p. 6).
      Voluptuário é o relativo à voluptuosidade, ao prazer — mas há prazeres gratuitos. Em iguais circunstâncias, costuma falar-se em gastos sumptuários, isto é, em que há grande luxo.
[Texto 3377]

Sobre «consequente»

Adivinha-se

       «Menos de três meses depois, a 22 de Novembro, Kennedy morreu, assassinado a tiro durante uma visita a Dallas, no Texas. Esses dois momentos — a Marcha em Washington e a inesperada morte do Presidente Kennedy —, ocorridos há 50 anos, fizeram de 1963 um ano extremamente consequente para a história dos negros na América» («Ele teve um sonho», Kathleen Gomes, «2»/Público, 11.08.2013, pp. 20-21).
       O termo «consequente» — que se deduz; que segue naturalmente; que raciocina bem; coerente — foi aqui usado com propriedade? Que acham?
[Texto 3179]

Sobre «colégio»

Menos formal

      Ora vejamos: «Apesar de ter reunido um colégio de especialistas, que fez a despistagem das pinturas, a PJ não sabe ainda se o conjunto das pinturas foi feito por apenas um ou vários falsificadores» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
      «Colégio» remete sempre para uma ideia de corporação, de algo que permanece no tempo. O que a Polícia Judiciária fez foi contratar vários especialistas, e, até talvez de forma individual, ouvir a sua opinião sobre as pinturas.
[Texto 2892]

«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]

«Malogrado jornalista»

Infeliz jornalista

      Sobre André Fontaine: «Ligado à publicação durante 60 anos da sua vida, o malogrado jornalista, que morreu este domingo em Paris, com 91 anos, desempenhou as mais variadas funções no jornal, desde os cargos de repórter, chefe de redação e até... diretor» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      «O malogrado jornalista»... Era para escrever «foda-se», mas vá: c’um caraças! Morreu com 91 anos e é «o malogrado jornalista»? «Malogrado» é para os que morrem jovens, não para os que partem com quase um século. Haja decoro.
[Texto 2693]

Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]

Léxico: «vergão»

Vergastada

      Dizia, se bem lembro, que sobre a carne pálida da escrava se via uma «lista arroxeada, a marca de uma vara ou de uma correia dura». Lista... À lesão da pele provocada por traumatismo ou pancada, sobretudo por vergastada, como parece ser o caso, dá-se o nome de vergão. Se as palavras existem, devemos procurar conhecê-las e usá-las com propriedade.

[Texto 1980]

Até prova em contrário

Realmente...

      Ainda pensei que estivesse, por lapso, noutra secção do jornal, mas não: «País». «Um decreto real, datado de 1864 e ainda em vigor, está a alarmar muitos proprietário [sic] de imóveis e terrenos nas margens dos rios portugueses. Caso se encontrem até 50 metros de [sic] limite costeiro, correm o risco de perder esse património» («Decreto real penaliza proprietários ribeirinhos», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21). 
      Aqui, o adjectivo «real» tem um peso que não tem em Real Funerária, Real Colégio, Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, entre outros. Mas continuemos a ler: «Até 2005, os proprietário [sic] podiam fazer prova por via administrativa. A partir daí, passou a ser feita por via judicial, onde [sic] a prova na grande maioria dos casos afigura-se [sic] impossível. Não foi assim com uma médica de Gaia que conseguiu provar, após vários meses de pesquisa nos arquivos distritais do Porto e na Torre do Tombo, que o imóvel que detinha estava construído sob propriedade privada.» Porquê «sob», que aparece outra vez mais à frente?
[Texto 1784]

Sobre «rocket»

Nem pensar

      «Homens encapuzados a disparar rockets de fabrico artesanal. Barricadas com pneus, contentores ou troncos de árvores a arder, agentes da Polícia Nacional e da Guardia Civil armados até aos dentes e a tentarem proteger-se dos projéteis» («‘Rockets’ artesanais e cargas policiais no conflito das Astúrias», P. V., Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 7).
      Ia lá sair do bestunto de algum português palavra que traduzisse, melhor ou pior, o conceito expresso por «rocket». Não há nem nunca houve nada de remotamente aparentado. Com quanta mais razão os jornalistas — e não Vieira — diriam «conheci que não sei falar português». «As autoridades», continua o jornalista, «estão atentas, para que o cenário de confronto asturiano não se translade para Madrid.» É claro que o livro de estilo que aconselha a preferir-se «trasladar» e «trasladação» a «transladar» e «transladação» não é o do Diário de Notícias. Fúnebre.
[Texto 1781]

«Implantação do Acordo Ortográfico»

Qualquer coisa assim

      «Fundamentos políticos, económicos, jurídicos. E linguísticos. A implantação do Acordo Ortográfico (AO) na totalidade da CPLP continua em discussão e os encontros de ministros da Educação e da Cultura em Luanda, há uma semana e meia, trouxeram à luz novos argumentos sobre os impasses na ratificação de Angola e Moçambique» («Angola e Moçambique querem gerir o seu tempo na ratificação do Acordo», Marta Lança, Público, 11.04.2012, p. 28).
      Alguns jornalistas ainda não sabem bem, tal é a complexidade da questão, se é «implantação», se «implementação». Eu sou mais adepto da terceira via. Em relação ao 5 de Outubro, também não sabem bem se é «implementação» ou «implantação».
[Texto 1350]

Como se fala na televisão

Exagerado

      Triplo homicídio em Beja. O repórter Paulo Nobre, da RTP, em directo: «Não, não se percebeu o que precedeu este massacre e porque é que ele aconteceu. E é isso que tem intrigado aqui as pessoas e que as tem movido, quer ontem à porta da casa do alegado homicida e daquela família, quer hoje aqui frente ao Tribunal de Beja.»
      Felizmente o tribunal fechou à hora de almoço, e as pessoas lá puderam ir para casa... «Massacre», Paulo Nobre? Não estará a confundir o alegado homicida, «pessoa afável, simpática, de fino trato», com Pol Pot? Massacre, mortandade, carnificina...
[Texto 1110]

Como se escreve nos jornais

Mes recommandations face au froid

      «O número de mortos proporcionado pela vaga de frio que assola a Europa fez mais de 450 mortos ao longo da última semana. Muitas das vítimas são sem-abrigo» («Governante francesa aconselha sem-abrigo a “evitarem saídas” por causa do frio», Hugo Torres, Público em linha, 8.02.2012, 15h38).
      É como um espectáculo, lindas emoções nos proporciona o frio. E o texto é sobre o deslize de Nora Berra, a secretária de Estado da Saúde francesa, que aconselhou no seu blogue certos grupos de risco, como agora se diz, a não saírem de casa. Entre eles, os sem-abrigo! Que não saiam de casa, coitados... Agora, depois de toda a chacota, já apagou os sans-abri.
[Texto 1074]

Explicativo, explicado, muito explicado...

À Zuca Maluca

      Hoje em dia, os livros para crianças têm de falar de bruxas — ou não prestam. É a moda, ditadora. Mais um: «O príncipe, ao ouvir a bruxinha, soltou uma estrondosa gargalhada. Desatou a rir. Ria a bom rir por ver na sua frente uma bruxinha ruiva tão explicativa e desembaraçada» (Zás Trás Pás Zuca Maluca, Vera Roquette. Com ilustrações de João Moreno e revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 20).
      «Explicativa»? Explicativo é o que significa, o que esclarece, o que serve para explicar; elucidativo. Quase exclusivamente usado na oralidade, e mais noutras partes do País do que em Lisboa, há um termo que significa o que a autora queria neste passo dizer: explicado. «E bem-falante, muito explicada, respondona como a maior das malcriadas, sempre com a palavra do Cambronne na boca, pronta para desferi-la, como se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo [...]» (Ao Entardecer, Contos Vários, Afonso de Escragnolle Taunay. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901, p. 42 [com actualização ortográfica]).
[Texto 944]

Sobre «colmatar»

Outros riscos

      «O risco de escrever sobre este assunto, com um título destes, é sempre o risco de moralizar em excesso, de opinar em causa própria e de ficcionar um diálogo grandíloquo com um ausente. Vou procurar colmatá-los evitando um tom plástico e circunscrevendo a minha defesa» («Carta a um ex-leitor de jornais», Pedro Lomba, Público, 29.12.2011, p. 32).
      «Colmatar riscos». Chegará a extensão semântica a tanto? Não me parece.
[Texto 891]

Sobre «convocar»

Chamado a depor

      «Além de Iñaki Urdangarin, o juiz José Castro, titular do processo, imputou a prática dos crimes ao seu sócio Diego Torres e outros dirigentes do Instituto Nóos, chamados a testemunhar já no dia 5 de Janeiro. O ex-director-geral de Desportos do Governo das Ilhas Baleares, o ex-director da Fundação Illesport e o responsável pelo Instituto Balear de Turismo também foram convocados («Iñaki Urdangarin chamado a depor em tribunal», Rita Siza, Público, 30.12.2011, p. 30).
      Convocar é também solicitar a presença de alguém, geralmente de forma imperativa, mas não é o verbo habitualmente usado para exprimir a ordem com intimativa emitida por um tribunal. O monarca, antigamente, convocava as cortes. Convocava a palácio (como se dizia então) governadores e outros representantes da Coroa, etc.
[Texto 890]

Sobre «travo»

Hum...

      «Expulsa pelo nariz, devagar, o fumo do primeiro travo e sente-se vacilar durante um instante.» Eu também me sinto vacilar um pouco. Podemos travar o fumo do cigarro — mas nunca antes vira o substantivo deverbal (é disso que se trata?) «travo». Conheciam? Só conheço o «travo» que todos conhecerão: o sabor adstringente de bebida ou comida ou, figuradamente, o vestígio ou impressão desagradável.
      «Tirei um cigarro e acendi-o. Inalei o fumo, travando-o nos pulmões até a vista me turvar» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 55).
[Texto 597]

Sobre «abater»

Entre mortos e abatidos

      «Um português de 46 anos, a sua mulher e o filho adolescente foram abatidos a tiro na casa onde viviam, a sul de Joanesburgo, África do Sul. De acordo com a polícia sul-africana, o principal suspeito é o filho da empregada doméstica da família, detido poucas horas depois» («Família portuguesa abatida a tiro na África do Sul», Público, 4.10.2011, p. 8).
      Se fosse jornalista, não sei se alguma vez usaria o verbo «abater» como sinónimo de «matar, assassinar» — mas, se usasse, não abusaria, como se vê na imprensa portuguesa.

[Texto 547]

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