Como se escreve (e pensa!) por aí

Andam aos papéis


      «O gabinete do Chega na Assembleia da República foi encontrado vandalizado ontem de manhã. A porta do gabinete, sabe o Correio da Manhã, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alertar a GNR» («Ventura denuncia invasão ao gabinete do Chega», Miguel Bravo Morais e Diogo Carreira, Correio da Manhã, 29.07.2026, p. 6). 
      Isto é que é rigor jornalístico: vandalizado. Vi imagens na CNN Portugal, e apareciam papéis, livros, gavetas, até um exemplar do Correio da Manhã (deve ter sido este a testemunha do jornal, a fonte) que pareciam ter sido cuidadosamente postos no chão. Documentos sensíveis... Quem é que guarda documentos sensíveis numa sala que não fecha à chave?

[Texto 23 379]

Como se escreve por aí

Fica para a próxima


      «Como se previa, António José Seguro ganhou por larga margem a segunda volta. Os cidadãos escolheram inequivocamente o candidato eivado dos valores democráticos, que declarou respeitar a Constituição, tendo rejeitado o outro que, amiúde, tem contrariado esses valores e quer mudar a nossa lei fundamental» («E agora, António José?», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.02.2026, p. 2).

      O Prof. Carlos Fiolhais esqueceu-se de dar uma olhadela nos dicionários, o que nunca é avisado. Veria que em alguns, como o da Porto Editora, as três primeiras acepções têm um sentido negativo («1. que apresenta eiva ou mancha;  2. que está contaminado; 3. que está viciado, corrompido», enquanto noutros, como o tão decantado Houaiss, apenas encontraria acepções negativas («infectado, contaminado»). Concluiria forçosamente que não era o melhor termo no contexto. 

[Texto 22 388]

Sobre «ob-reptício»

Li e não gostei

      «Sintomático é que a presidente da Associação de Professores de Português tenha, a priori, o capcioso argumento, típico dos ob-reptícios: dizer que com estas metas regredimos vinte anos... Não, minha senhora. Veja bem: o professor não fica dentro dum espartilho com este programa — liberta-se é dum programa que, admitido em 2001, terá, em 2015 (quando este Novo Programa vigorar), mais de uma década de leccionação. O resultado qual foi? Média nacional de 8,9 no secundário e uma iliteracia nefanda. Eis o resultado. Para quem, como Edviges Ferreira, tem sempre a posição do “não li e não gostei”, estas metas colocam um problema óbvio: o professor terá de ler e terá de saber como ensinar a ler e a escrever. Terá de ler literatura e ensaio sobre obras da nossa cultura (e não só...) e terá de saber articular o discurso literário com História e a Filosofia, com Música e as Artes... É chato. Dá trabalho. Mas os alunos agradecem. Merecem. E o país também» («Verdades sobre o ensino do Português: metas curriculares e não só», António Carlos Cortez, Público, 27.11.2013, p. 50).
      Digamos que o uso de «ob-reptício» — obtido por ob-repção; doloso, fraudulento — é um tanto inusitado.
[Texto 3592]

Sobre «rectius»

Mais correctamente

      «Este relatório foi aprovado por uma maioria esmagadora de cerca de 73% dos votos dos deputados. Quase três quartos dos representantes legítimos dos povos europeus entendem que o órgão de que fazem parte deve ter (rectius, tem) o direito de se “auto-organizar”. Apesar do silêncio mediático sobre a matéria, trata-se de uma decisão histórica. É muito importante — é mesmo fundamental — que os eleitorados e as opiniões públicas nacionais percebam e interiorizem o alcance e o sentido desta votação. A grande maioria dos deputados europeus, representando os cidadãos dos respectivos Estados, exprimiu a vontade de que o PE possa assumir-se como um parlamento livre da tutela “paternal” de outras instituições europeias e, em particular, do Conselho Europeu» («Estrasburgo e/ou Bruxelas: nem simbolismo nem pragmatismo (II)», Paulo Rangel, Público, 26.11.2013, p. 52).
      É termo usado em textos jurídicos, e Paulo Rangel, como jurista que é, trouxe-o para este texto. Não tenho é a certeza de que o usasse com propriedade. Habitualmente, é empregado para significar que há uma forma mais correcta (em latim também está no grau comparativo) de exprimir o que foi dito — por terceiros. Não parece ser o caso.
[Texto 3589]

«Voluptuário/sumptuário»

Vamos recorrer

      «As juízas do Tribunal da Relação que analisaram o caso invocam os elevados montantes despendidos em “gastos totalmente voluptuários e despropositados (perfumes, charutos, aluguer de Porches [sic], refeições e vinhos de preços escandalosos)” para concluírem que, mesmo que tivessem sido devidamente autorizadas, essas autorizações “ofenderiam os bons costumes enquanto valoração do social e moralmente aceitável, tendo em conta a gravidade dos factos”» («Gastos “voluptuários” do maestro Graça Moura não foram desculpados», Ana Henriques, Público, 11.10.2013, p. 6).
      Voluptuário é o relativo à voluptuosidade, ao prazer — mas há prazeres gratuitos. Em iguais circunstâncias, costuma falar-se em gastos sumptuários, isto é, em que há grande luxo.
[Texto 3377]

Sobre «consequente»

Adivinha-se

       «Menos de três meses depois, a 22 de Novembro, Kennedy morreu, assassinado a tiro durante uma visita a Dallas, no Texas. Esses dois momentos — a Marcha em Washington e a inesperada morte do Presidente Kennedy —, ocorridos há 50 anos, fizeram de 1963 um ano extremamente consequente para a história dos negros na América» («Ele teve um sonho», Kathleen Gomes, «2»/Público, 11.08.2013, pp. 20-21).
       O termo «consequente» — que se deduz; que segue naturalmente; que raciocina bem; coerente — foi aqui usado com propriedade? Que acham?
[Texto 3179]

«Evacuação de casas»

Está melhor

      «A Áustria também não escapou às chuvas torrenciais[,] que provocaram um morto e forçaram à evacuação de centenas de casas» («Cheias forçam milhares a deixar as suas casas», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 4.06.2013, p. 25).
      Sobre o verbo «evacuar», lê-se no livro de estilo do Estado de S. Paulo: «Use o verbo apenas no sentido fisiológico: evacuar sangue. Nos demais, prefira desocupar, esvaziar, retirar de, sair de, deixar livre.»
[Texto 2923]

Sobre «colégio»

Menos formal

      Ora vejamos: «Apesar de ter reunido um colégio de especialistas, que fez a despistagem das pinturas, a PJ não sabe ainda se o conjunto das pinturas foi feito por apenas um ou vários falsificadores» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
      «Colégio» remete sempre para uma ideia de corporação, de algo que permanece no tempo. O que a Polícia Judiciária fez foi contratar vários especialistas, e, até talvez de forma individual, ouvir a sua opinião sobre as pinturas.
[Texto 2892]

«Possuir/ter»

Se fosse só isso

      Passa pela cabeça de alguém que saiba ler há mais de quatro anos substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Disse à polícia que pertencia à Al-Qaeda, mas certo apenas é possuir problemas psicológicos» («Tiroteio em Marselha faz três mortos e um ferido», Paulo Dentinho, Jornal da Tarde, 26.04.2013).
[Texto 2781]

«Malogrado jornalista»

Infeliz jornalista

      Sobre André Fontaine: «Ligado à publicação durante 60 anos da sua vida, o malogrado jornalista, que morreu este domingo em Paris, com 91 anos, desempenhou as mais variadas funções no jornal, desde os cargos de repórter, chefe de redação e até... diretor» («O diretor que salvou o ‘Le Monde’ da crise financeira», M. R., Diário de Notícias, 19.03.2013, p. 43).
      «O malogrado jornalista»... Era para escrever «foda-se», mas vá: c’um caraças! Morreu com 91 anos e é «o malogrado jornalista»? «Malogrado» é para os que morrem jovens, não para os que partem com quase um século. Haja decoro.
[Texto 2693]

Como se escreve nos jornais

Eu não usaria

      «Marcelo Rebelo de Sousa, que acompanhou a onda de estudantes até à porta, diria depois à SIC que os jovens da JSD deviam ter saído da sala antes de Passos para formarem uma espécie de cordão de defesa e abafarem o protesto. Mas ontem isso acabou por não acontecer porque o próprio Passos, numa imagem de bravata, quis enfrentar o protesto — como que o desvalorizando» («Primeiro-ministro recebido por estudantes de Direito com coelho enforcado», Maria Lopes, Público, 28.02.2013, p. 9).
      Há-de ser a parte de opinião... Não será excessivo usar a palavra bravata ­— ameaça arrogante; fanfarronice; bazófia; jactância — neste contexto?
[Texto 2641]

«Resignação», «renúncia»...

O leitor decide

      «Um cardeal com poder de voto na eleição do novo Papa foi acusado de ter praticado “actos impróprios” com quatro jovens seminaristas há mais de 30 anos. A denúncia contra Keith O’Brien, o cardeal da Escócia, partiu de três padres e um ex-padre, na semana anterior ao anúncio de resignação de Bento XVI. Mas a notícia só agora chegou aos media. [...] A apresentação da queixa parece ter sido planeada para coincidir com a aposentação do cardeal, mas o facto de o Papa ter renunciado levou os queixosos a divulgá-la, pedindo que O’Brien seja impedido de participar no conclave. Se assim não for, sentirão que as suas queixas não foram devidamente atendidas. Querem um conclave “limpo” e virar a página sobre o passado» («Cardeal da Escócia acusado de ter tido “actos impróprios” com seminaristas», Ana Dias Cordeiro, Público, 25.02.2013, p. 24).
      Em que ficamos: Bento XVI resignou ou renunciou? Na declaração oficial de Bento XVI, é «renúncia» que se lê, e não vejo motivos para se dizer de outra forma.
[Texto 2627]

Sobre «tiroteio»

Pólvora seca jornalística

      «A polícia encontrou munições ilegais de uma arma da qual Oscar Pistorius não tem licença (de 38 milímetros), sendo apenas legal a pistola de nove milímetros utilizada no tiroteio» («Oscar Pistorius já tinha sido detido por agressão», Madalena Esteves, Diário de Notícias, 21.02.2013, p. 40).
      «Tiroteio»... Disparou três ou quatro ou seis tiros, do outro lado alguns gritos e é um tiroteio. Pode consultar, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista: «disparo sucessivo de tiros de uma e outra parte». Reeva Steenkamp disparou com quê, com o piaçaba?

[Texto 2624]

Como se escreve nos jornais

«Produtos»?

      «Segundo um estudo realizado pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil [APSI] abrangendo [sic] o período entre 2000 e 2009, as varandas e as janelas são os produtos que aparecem mais vezes envolvidos em quedas (38%)» («Menino caiu da varanda enquanto o pai foi ao pão», Alfredo Teixeira e Inês Banha, Diário de Notícias, 1.02.2013, p. 17).
[Texto 2558]

Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]

Léxico: «vergão»

Vergastada

      Dizia, se bem lembro, que sobre a carne pálida da escrava se via uma «lista arroxeada, a marca de uma vara ou de uma correia dura». Lista... À lesão da pele provocada por traumatismo ou pancada, sobretudo por vergastada, como parece ser o caso, dá-se o nome de vergão. Se as palavras existem, devemos procurar conhecê-las e usá-las com propriedade.

[Texto 1980]

«Sustentabilidade»

Coisas da engenharia, talvez

      «Recorde-se que a prova em causa foi também notícia devido à denúncia de uma alegada fuga de informação que teria levado à divulgação, por SMS, de informações relativas a conteúdos e a autores, nomeadamente à utilização de um excerto de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Alegações que, após um pedido de averiguação à Inspeção-Geral da Educação e Ciência, o Ministério considerou não terem sustentabilidade» («24 mil fizeram teste de Português da 2.ª fase», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 14.07.2012, p. 17).
      Não se aguentam nas pernas, é isso? Então agora já não se diz que por não terem fundamento as investigações não se fazem?
[Texto 1828]

«Púlpito/tribuna»

Fora da igreja

      Jornalista Daniela Santiago, no Telejornal de ontem: «Foi colocado inclusive aqui um púlpito com microfone especificamente para o ministro responder às questões e a todas as questões que se têm levantado nas últimas semanas ligadas a esta licenciatura.»
      Ninguém ignora que tribuna e púlpito são vocábulos parcialmente sinónimos. Se alguma destas duas coisas estivesse na sala do Palácio Foz, onde o ministro estava, seria mais uma tribuna, não um púlpito nem um ambão. Mas nem isso: é uma simples estante de leitura ou leitoril ou atril de acrílico com um microfone o que podíamos ver na imagem.
      «O padre é o jornalista de sobrepeliz. O púlpito alarga-se em tribuna. O sacerdote volta-se para o Cristo do altar e grita-lhe: peço a palavra sobre a ordem» (As Farpas, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Lisboa: Principia, 2004, 3.ª ed., p. 485).
[Texto 1820]

Até prova em contrário

Realmente...

      Ainda pensei que estivesse, por lapso, noutra secção do jornal, mas não: «País». «Um decreto real, datado de 1864 e ainda em vigor, está a alarmar muitos proprietário [sic] de imóveis e terrenos nas margens dos rios portugueses. Caso se encontrem até 50 metros de [sic] limite costeiro, correm o risco de perder esse património» («Decreto real penaliza proprietários ribeirinhos», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21). 
      Aqui, o adjectivo «real» tem um peso que não tem em Real Funerária, Real Colégio, Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, entre outros. Mas continuemos a ler: «Até 2005, os proprietário [sic] podiam fazer prova por via administrativa. A partir daí, passou a ser feita por via judicial, onde [sic] a prova na grande maioria dos casos afigura-se [sic] impossível. Não foi assim com uma médica de Gaia que conseguiu provar, após vários meses de pesquisa nos arquivos distritais do Porto e na Torre do Tombo, que o imóvel que detinha estava construído sob propriedade privada.» Porquê «sob», que aparece outra vez mais à frente?
[Texto 1784]

Sobre «rocket»

Nem pensar

      «Homens encapuzados a disparar rockets de fabrico artesanal. Barricadas com pneus, contentores ou troncos de árvores a arder, agentes da Polícia Nacional e da Guardia Civil armados até aos dentes e a tentarem proteger-se dos projéteis» («‘Rockets’ artesanais e cargas policiais no conflito das Astúrias», P. V., Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 7).
      Ia lá sair do bestunto de algum português palavra que traduzisse, melhor ou pior, o conceito expresso por «rocket». Não há nem nunca houve nada de remotamente aparentado. Com quanta mais razão os jornalistas — e não Vieira — diriam «conheci que não sei falar português». «As autoridades», continua o jornalista, «estão atentas, para que o cenário de confronto asturiano não se translade para Madrid.» É claro que o livro de estilo que aconselha a preferir-se «trasladar» e «trasladação» a «transladar» e «transladação» não é o do Diário de Notícias. Fúnebre.
[Texto 1781]

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