Léxico: «gastrosquise»

Isso é a glosa da etimologia

 

      «El feto presentaba una gastrosquisis, una malformación congénita en la que los intestinos del bebé (y a veces otros órganos) se desarrollan fuera del cuerpo a través de un orificio en la pared abdominal, situada a la derecha del cordón umbilical, que no se cierra correctamente durante el embarazo. Al no estar protegidos, los intestinos quedan expuestos al líquido amniótico, se inflaman, pierden riego sanguíneo y pueden sufrir necrosis, con consecuencias muy graves para el bebé después del nacimiento» («Operan en el útero a un feto que tenía el intestino fuera de su cuerpo», Esther Armora, ABC, 29.05.2026, p. 58).
      Notícia que também apareceu nos nossos meios de comunicação, mas sem os pormenores deste artigo. Está no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, mas mal definido: «Fenda na parede abdominal.» Isto não passa da descrição da etimologia do termo, não a entidade médica. Se alguém ler essa definição sem conhecimentos prévios, não fica a saber o que é a gastrosquise. Assim, proponho  gastrosquise MEDICINA malformação congénita da parede abdominal em que os intestinos e, por vezes, outros órgãos do feto se desenvolvem fora da cavidade abdominal através de uma abertura situada geralmente à direita do cordão umbilical.
[Texto 23 110]

Léxico: «voto preferencial | voto duplo»

Preparemo-nos

 

      «Agregar círculos eleitorais do interior, dividir círculos maiores como Lisboa e Porto, criar um círculo nacional de compensação e tornar o voto mais personalizado através da criação do voto duplo ou preferencial em lista. Estas são as soluções para reformar o actual sistema eleitoral legislativo desenhadas pelo relatório “Reformar o sistema eleitoral: redesenhar os círculos e mudar o boletim de voto?” do think tank Reformar o Sistema Eleitoral — Renovar a Democracia, do Institute of Public Policy — Lisbon (IPP)» («Agregar círculos pequenos e dividir maiores, think tank quer reformar lei eleitoral», Maria Lopes, Público, 1.06.2026, p. 12). 
      Merecem entrada própria no dicionário. Não se trata de nada de novo, criado no contexto da actual discussão sobre a reforma eleitoral portuguesa, mas de uma designação consolidada na ciência política e no direito eleitoral comparado. Com efeito, sistemas de voto preferencial existem há muito tempo em países como a Irlanda, a Austrália e Malta, embora assumam modalidades distintas. Em todos os casos, a característica essencial consiste em permitir ao eleitor manifestar preferências por candidatos concretos, e não apenas por partidos ou listas. Quanto ao voto duplo, a expressão designa sistemas em que o eleitor dispõe de dois votos distintos, geralmente para escolher separadamente um candidato e um partido, encontrando-se igualmente atestada na literatura especializada.
      Assim, proponho  voto preferencial POLÍTICA sistema de votação em que o eleitor pode exprimir preferência por um ou mais candidatos, permitindo que essa preferência seja considerada na atribuição dos mandatos ou na determinação dos candidatos eleitos | voto duplo POLÍTICA sistema de votação em que o eleitor dispõe de dois votos distintos, geralmente para escolher separadamente um candidato e um partido ou lista.

[Texto 23 109]

 

Léxico: «tafua»

Esta até a desconhecíamos

 

      «Um dos grandes dilemas desta investigação tem sido ver-me como uma pessoa que vem da Europa para estudar uma manifestação cultural africana, a tafua, e ter tempo para pensar como é que essa relação pode não ser extractivista, mas sim de restituição e de preservação desses saberes. Ao mesmo tempo, consigo pensar numa investigação pós-tese: como esse resultado pode ser aplicado a uma espécie de publicação, ou de centro de pensamento, sobre a tafua e outras manifestações contemporâneas, que incluem a oratura e que decorrem do tempo da escravatura — por exemplo, a capoeira [afirma, em entrevista, a poetisa e activista Raquel Lima]» («Portugal começa a cristalizar um lugar conservador que nos atrasa a todos», Mariana Duarte, «Ípsilon»/Público, 8.05.2026, p. 11).
      Mais uma fora dos nossos dicionários, e que vamos definir assim ➠ tafua ETNOGRAFIA manifestação cultural de origem angolana praticada em São Tomé e Príncipe, que combina canto, música instrumental e dança, preservando a memória histórica das populações escravizadas e dos seus descendentes. 
      Desta vez sim, é mesmo de etimologia desconhecida; provavelmente de origem angolana.

[Texto 23 108]

 

Definição: «oratura»

É mais amplo

 

      «A sua investigação», perguntou Mariana Duarte, na Ípsilon de 8 de Maio («Portugal começa a cristalizar um lugar conservador que nos atrasa a todos», pp. 11-13), «centra-se no conceito de oratura. Em que medida é diferente da oralidade?» «A oratura é mais abrangente», respondeu a entrevistada, a poetisa e activista Raquel Lima, primeira intelectual portuguesa, com raízes angolo-santomenses, a receber o Prémio Emma Goldman. «É uma filosofia, uma forma de estar no mundo, que não só questiona o lugar do arquivo, da biblioteca e do museu como principais vectores de produção, acumulação e partilha de conhecimento, mas que propõe outras formas de pensar e ver o mundo, a partir de lengalengas, adivinhas, canções, rituais quotidianos. A oratura é transversal a um período histórico. É um mecanismo que sustenta sociedades inteiras. Vemos muito isso quando falamos de comunidades historicamente oprimidas: os saberes acabam por ser preservados graças à oratura. É um lugar para onde temos de olhar cada vez mais como fonte de conhecimento.» 
      O conceito desta estudiosa vai muito além da definição que se vê no dicionário da Porto Editora: «conjunto de manifestações de fundo literário (contos, lendas, provérbios, etc.) preservadas e difundidas através da oralidade; literatura oral».
      Assim, proponho ➠ oratura ANTROPOLOGIA, LITERATURA conjunto de narrativas, saberes, práticas culturais e formas de conhecimento preservados e transmitidos oralmente de geração em geração numa comunidade; literatura oral. 
      Uma nota etimológica mais completa diria que vem ➠ do inglês orature, termo cunhado pelo académico ugandês Pio Zirimu (1936-1977) na década de 1960 para substituir a expressão oral literature («literatura oral»), a partir de oral, «oral», + literature, «literatura».

[Texto 23 107]

 

P. S.: Como sou congenialmente contra actos desnecessários, faz-me impressão que registes, Porto Editora, corpus Christi e Corpus Christi, que dizem (ao menos isso) exactamente o mesmo. Ontem afirmei que aquilo não são aspas, o que mantenho, claro, mas hoje para acrescentar que não têm de estar ali aspas nenhumas. O nome de uma festividade entre aspas? Ná.
 

Definição: «mordomo-mor»

E vários outros

 

      Outros há, Porto Editora, que estão mal definidos, como «mordomo-mor», que afirmas ser o «despenseiro com funções de administração». Na realidade, era a primeira figura da casa real, à frente do camareiro-mor. Assim, proponho  mordomo-mor HISTÓRIA mais alto dignitário da casa real, responsável pela administração geral da casa do monarca e pela coordenação dos seus oficiais e serviços.

[Texto 23 106]

── ──

 

P. S.: Sim, e ainda outros, bem caracterizados e descritos ao longo da História, que, ou estão mal ou insuficientemente definidos no dicionário, como é o caso de «copeiro-mor», «estribeiro-mor», «chanceler-mor» e «capelão-mor», ou não estão dicionarizados, como é o caso de «trinchante-mor», «monteiro-mor», «armeiro-mor», «guarda-roupa-mor», «porteiro-mor», «alferes-mor» e «meirinho-mor».

Outro P. S.: Bem tentei descortinar a razão para sinemuriano estar dividido em dois verbetes e pliensbaquiano estar só num, mas em vão. Se me explicarem, tenho a certeza de que compreenderei.


Léxico: «resposteiro-mor»

Mais um

 

      Sim, também não tens, mas prometes, ➠ reposteiro-mor HISTÓRIA oficial da casa real encarregado do serviço da câmara do monarca, competindo-lhe assistir o rei em actos cerimoniais e supervisionar os reposteiros que serviam os aposentos régios.

[Texto 23 105]

 

Léxico: «camareiro-mor»

É a nossa História

 

      Numa tradução que estou a fazer (porque eu não pinto apenas tectos), vai aparecer trinta e sete vezes a palavra «camareiro-mor». É obra. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem uma, não aparece. Ora esta... Assim, preenchendo mais esta incompreensível lacuna, proponho ➠ camareiro-mor HISTÓRIA oficial superior da casa real encarregado da câmara do rei, com funções de assistência pessoal ao monarca, direcção dos homens da câmara e precedência sobre os demais oficiais da câmara régia.

[Texto 23 104] 

 

Léxico: «croqué»

Também queremos

 

      Numa tradução, descreve-se um jogo de croquet. Quer dizer, não o deixei assim, mas aportuguesado, «croqué». As vantagens são muitas, e o atrevimento é nenhum, encontro-o assim em várias obras e no Houaiss. Como as definições que encontro não referem tudo o que caracteriza o jogo, proponho assim  croqué DESPORTO jogo praticado geralmente sobre relva, em que os jogadores utilizam um malho para impulsionar bolas através de uma série de arcos dispostos segundo um percurso predefinido, procurando completar o circuito de acordo com as regras estabelecidas. 
[Texto 23 103]
 

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