AO90 na prática

Calma, isto vai demorar


      «Responsáveis curdos refrearam ontem os rumores sobre uma ofensiva terrestre iminente no Oeste do Irão, afirmando que isso não será possível enquanto os EUA e Israel não controlarem totalmente o espaço aéreo iraniano» («Curdos aguardam “céus limpos” para avançar», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 6.03.2026, p. 5). 

      O jornalista ainda não chegou a esta parte do articulado do Acordo Ortográfico de 1990. Nos últimos quinze anos teve outras prioridades. Temos de ter paciência.

[Texto 22 575]

Léxico: «policultural»

Faltava o adjectivo


      «O ringfencing da PAC não é suficiente por si só para mitigar os efeitos das profundas alterações apresentadas, como: o fim dos dois pilares (apoio ao rendimento e gestão de mercados, no primeiro, e apoio ao investimento, às zonas desfavorecidas ou às medidas agroambientais, no segundo); o fim dos direitos históricos nos pagamentos diretos, ampliando-se as elegibilidades a outras superfícies para além daquelas que dispunham destes direitos; o fim do pagamento base e do pagamento redistributivo e a instituição de um único pagamento degressivo, diferenciado em função do rendimento da atividade agrícola, privilegiando os que mais precisam, especialmente os jovens, as mulheres, as explorações familiares, os sistemas agrícolas policulturais ou as zonas com condicionantes naturais; o fim das medidas agroambientais e dos ecorregimes, substituídos por ações ambientais e climáticas» («A PAC e o território: é tempo de descentralizar!», Arlindo Cunha [economista, agricultor e ex-ministro da Agricultura], Público, 6.03.2026, 00h15).

[Texto 22 574]

Definição e etimologia: «feminicídio»

Muito incompleto


      «No caso das vítimas mulheres, em muitos países do mundo este crime tem um nome específico e está tipificado na lei: feminicídio ou femicídio. Em Portugal, os homens (que são a esmagadora maioria dos autores destes crimes) são julgados por homicídio com agravantes, mas não existe o crime de feminicídio» («Portugal não segue tendência da Europa e recusa crime de femicídio», Amanda Lima, Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 16). 

      Fazer-se equivaler «femicídio» a «feminicídio» é um grande disparate linguístico, originalmente dos dicionários, não da jornalista. Sim, o mal está feito, mas pode voltar-se atrás. A definição da Porto Editora («assassínio de mulher ou rapariga, em razão do seu sexo») apresenta um grande senão: não será compreendida por qualquer Zé taxista. Tem de ser uma formulação mais elaborada, e ao mesmo tempo mais explicativa. Assim, proponho ➔ feminicídio assassínio de mulher ou rapariga motivado por razões de género, isto é, por discriminação, ódio, estereótipos ou relações de poder desiguais associadas ao facto de a vítima ser mulher. 

      Quanto à etimologia, vem do castelhano feminicidio, difundido na literatura jurídica e sociológica latino-americana, formado de femin- (do latim femina, «mulher») + -cídio (do latim -cidium, «acto de matar»), sob influência do inglês femicide, termo popularizado na década de 1970 pela criminóloga Diana Russell para designar o homicídio de mulheres motivado pelo facto de serem mulheres.

[Texto 22 573]

Léxico: «pastor-polaco-da-planície»

Sempre a piorar


      «Todos os meios servem para os participantes na exposição canina que, por estes dias, tem lugar em Birmingham (Inglaterra) chegarem ao evento, como mostra este cão de raça pastor polonês da planície. De acordo com a BBC devem participar na exposição que terá lugar no centro nacional de exposições mais de 18.600 animais que até domingo vão participar em provas de várias categorias» («Olhar», Diário de Notícias, 6.03.2026, p. 4).

      Podia ser o estagiário brasileiro deixado à solta a fazer isto, mas bem sabemos que foi um jornalista português menos competente. E se se escreve «pastor-alemão» e «pastor-belga», porque se escreveria este sem hífenes? 

[Texto 22 572]

Léxico: «pistáchio | verde-pistácio»

Para completar o trio


      «E a situação deixou também os fabricantes de chocolate em apuros: até a gigante suíça Lindt, que lançou uma opção com recheio de pistáchio, se está a ver incapaz de responder aos pedidos. A versão chegou a Portugal no final de março e rapidamente esgotou» («Chocolate do Dubai leva a escassez de pistácio e subida de preços», Diogo Camilo, Rádio Renascença, 20.04.2025, 8h00). 

      Bem, o jornalista não esgotou todas as variantes, mas parecia que era isso que pretendia. Quanto a pistáchio, porém, não é reconhecido por vocabulários e dicionários a par de outras variantes, e, contudo, é frequentíssimo em rótulos de produtos que contêm o fruto. O que devia ser motivo para os dicionaristas ponderarem. Seja como for, o que me trouxe aqui foi a estranheza por ver verde-pistácio somente em dicionários bilingues da Porto Editora.

[Texto 22 571]

Léxico: «bugio-ruivo»

Como temos de fazer com este


      Tem de ir com urgência para os dicionários, ou pela certa que algum tradutor lhe inventará um nome comum: «O Alouatta guariba clamitans (nome científico do bugio-ruivo) é endêmico da Mata Atlântica: no Sul e no Sudeste está a maior parte, mas também é visto na Bahia» («A volta dos bugios à Cantareira», Juliana Domingos de Lima e Glauco Lara, O Estado de S. Paulo, 20.04.2025, p. A18).

[Texto 22 570]

Léxico: «acalchinado»

Só se o importarmos da América do Sul


      «Mas bendita fosse a fantasia do escritor que tinha o poder de erguer os admiráveis palácios de beleza em que, doente, pobre, acalchinado, se fechava amiúde com a varinha de condão que lhe oferecera uma benigna, olvidosa e analgésica fada, tocando as realidades do presente e do pretérito e convertendo em oiro fúlgido o sórdido chumbo da vida quotidiana!» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 239-40).

[Texto 22 569]

Léxico: «preguiça | atafona»

Antes que seja tarde


      «A minha definição preferida da palavra “preguiça” no dicionário é, desde há uns minutos, “pau grosso em que estão pregadas as cangalhas da moega da atafona”. [...] Entretanto, dei-me ao trabalho de ir ao dicionário perceber o que são as cangalhas: são a “peça em que assenta a moega da atafona”. A moega é uma “peça de moinho, em forma de pirâmide invertida, onde se coloca o grão para ser moído”. E a atafona é um “moinho manual ou movido por força animal” ou uma “azenha”. Pode ser que isto um dia dê jeito se começar a fazer palavras cruzadas» («Cangalhas, moega e atafona», João Pedro Pereira, «P2»/Público, 6.07.2025, p. 22). 

      Só ficamos a saber que não consultou o dicionário da Porto Editora. Podemos deduzir, mas não ter a certeza, qual consultou, isto porque estou a ver quatro dicionários que, nessa acepção, dizem, quase ipsis verbis, o mesmo. Sim, tem de ir para o dicionário: já não vivemos no Portugal rural, atrasado, coitadinho, analfabeto, mas as palavras é para se manterem: porque são conhecimento e chave para compreender textos que lemos, escritos em qualquer época. Assim, proponho: preguiça peça de madeira robusta que sustenta as cangalhas da moega, numa atafona (pequeno moinho manual ou animal). 

      Uma adenda teria de explicar que a atafona é um tipo de moinho rudimentar, geralmente accionado por força humana ou animal, utilizado para moer cereais ou, nalgumas regiões, para ralar mandioca, accionar engenhos de açúcar, bombear água ou operar teares. O termo provém do árabe al-ṭāḥūna, que significa «moinho». Há ainda atafonas preservadas ou em funcionamento no interior de Portugal continental e nos arquipélagos, e com o equipamento subsiste o termo, mesmo que já pouco usado no falar comum. A moega é um recipiente em forma de pirâmide invertida, colocado sobre as mós, onde se deposita o grão a moer. É sustentada por cangalhas, fixas na preguiça.

[Texto 22 568]

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