Como se escreve nos jornais

Aos dois e aos três, e não chegam

      «Regressado a Inglaterra, [Tom Sharpe] deu aulas durante uma década no Cambridge College of Arts and Technology, experiência que lhe seria de grande utilidade para a futura série de romances protagonizados por Henry Wilt, um académico frustrado com os alunos e com os colegas, desejoso de se livrar de uma mulher deveras vinculativa, e com uma propensão quase sobrenatural para se envolver em graves sarilhos com as autoridades, geralmente baseados em divertidos equívocos» («O romancista britânico Tom Sharpe, criador de Wilt, morreu ontem em Espanha», Luís Miguel Queirós, Público, 7.06.2013. p. 36).
      «Mulher vinculativa»? Que é isto? Não li, e por isso não sei. Lembrei-me logo, eu sei lá, de má tradução, péssima aliás, de vindictive, «vindicativo» ou «vingativo». Mas não há-de ser isto, mas maneira pseudoliterária de dizer que a mulher era agarradiça.
      Confrontar a mesma notícia em mais do que um jornal é sempre útil. Não, não é útil, é uma perda de tempo, mas serve para nos lembrarmos que nunca nos podemos fiar. Assim, se o Diário de Notícias nos afiança que Tom Sharpe vivia em Llafranc «há mais de uma década», o Público garante-nos que «habitava há mais de duas décadas» naquela localidade catalã.
[Texto 2938]

«Massais»

Perfeito

      «Entre os Ancolés, um homem pode ceder a mulher por um certo tempo aos seus camaradas de clã, como o fazem os Massais. E pseudopoliandria pode existir quando, em famílias pobres, vários irmãos não possuem mais de uma mulher» (Família Africana, Eduardo dos Santos. Lisboa: Oficinas Gráficas da Papelaria Fernandes, 1966, p. 32).
      É, acho eu, espantoso, mas não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, onde, se estão os Nueres, também faltam os Dincas e muitos outros gentílicos.

[Texto 2937]

«Sex-extremismo»!

Quase português

      «Assim também tem sido desprezada a força das Femen, feministas que dão o corpo ao manifesto. Começou por ser um grupo de ucranianas aproveitando o Europeu de futebol no seu país, em 2012, para denunciar o turismo sexual. Ao que elas fazem, chamam sex-extremismo, promovendo ações aparentadas à não-violência de Gandhi, mas mais estéticas (contradigo-me aqui, um pouco, com a primeira frase desta crónica, mas não sou um anjo): o extremismo das Femen é o topless. Destapando as mamas, delas, e a careca, deles» («Homenagem às melhores mamas», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.06.2013, p. 56).
[Texto 2936]

Vírus do papiloma humano (VPH)

Assim está bem

      «Depois de ter causado polémica ao dizer que a prática de sexo oral foi a causa do cancro que lhe foi diagnosticado na garganta há três anos, Michael Douglas veio a público justificar-se e garantiu que a sua intenção foi uma tentativa de fazer “serviço público” e alertar os jovens para o VPH (vírus do papiloma humano)» («Douglas quis “fazer serviço público”», Diário de Notícias, 7.06.2013, p. 53).

[Texto 2935]

«Colocar a rir»!

Era só o que faltava

      Na edição de hoje do Portugal em Directo, a repórter perguntou ao comediante Pedro Tochas, que estreia hoje no Teatro do Campo Alegre o seu novo espectáculo, se, neste momento de crise que estamos a viver, é mais difícil pôr as pessoas a rir. E a resposta foi: «Se é mais difícil ou não, para mim é sempre difícil. Eu acho é que se calhar é mais importante colocá-las a rir

[Texto 2934]

«Taxinomia/taxionomia»

Duplas, triplas e mais

      Acabei de ler aqui, num texto sobre educação e estratégias pedagógicas, «taxionomia de Bloom». Só trabalhando diariamente com a língua vamos sabendo como há inúmeras formas duplas e mesmo triplas. Em alguns casos, algumas variantes provieram de erros de imprensa, dos copistas ou de algum autor menos cuidadoso ou sabedor, que pôs a nova grafia em circulação. Não sei se «enxambrador», que ontem vimos, não provém desta última fonte.

[Texto 2933]

Esmirna, e não Izmir

Até os pastores

      A jornalista Alexandra Sofia Costa, da Antena 1, está na Turquia, de onde mandou ontem esta pérola: «Entretanto, esta madrugada, a polícia turca deteve pelo menos 25 pessoas na cidade de Izmir por terem publicado comentários no Twitter considerados difamatórios.»
      Há séculos que em português se escreve e diz Esmirna, mas agora uma amnésia quase colectiva obrigou os jornalistas a rebaptizarem-na em turco. «Podeis fazer que cresça de hora em hora/O nome Lusitano, e faça inveja/A Esmirna, que de Homero se engrandece», canta Camões na Écloga IV. («Que de Homero se engrandece». Pois é, mas foram sete as cidades que disputaram essa honra.) E, já agora, talvez seja prudente, tendo em conta o que por aí vai, lembrar que o gentílico é esmirneu.

[Texto 2932]

«Por cento/porcento»

Pensai, ó homens, pensai

      Hoje, numa prova de Português realizada numa escola deste lindo país, no cabeçalho via-se um espaço para a nota (ou cotação, como se diz na gíria académica) e, à frente, entre parênteses, isto: «porcento». Ou seja, os infelizes que fizeram a prova, professores de Português, pois com certeza, julgam que «por cento» e «porcento» são sinónimos. E não devia haver centros de reeducação para esta gente?

[Texto 2931]

Arquivo do blogue