Léxico: «vintil»

Ora, parece-me que sim

      Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o termo «centil» — aliás muito mal explicado: «denominam-se decis 0, 1, 2, ... 10 os valores da variável estatística, tais que 0%, 10%, 20% ... 100% das observações lhe são inferiores» —, não devia acolher também o termo «vintil»? O mais próximo que regista, porém, é «vinil»...
[Texto 2099]
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Sobre «saibro»

É difícil explicar...

      «Foi durante a remoção de quatro altares barrocos da capela de Santa Comba, em Baião, que se descobriu um verdadeiro tesouro: uma pintura do final do século XV numa delicada película sobre o saibro da parede» («Pintura mural de valor incalculável achada em capela», Ana Carla Rosário, Jornal de Notícias, 17.09.2012, p. 22).
      Parece-me, a avaliar pela amostra de meia dúzia que consultei, que os dicionários não se põem inteiramente de acordo sobre o que é saibro.
[Texto 2098]
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Gerúndio

Viajando no Alentejo

      Anteontem, ao passar na serra do Cercal, no Alentejo, viam-se muitos trabalhadores à beira da estrada e um sinal em que se podia ler: «Máquinas pintando». E lá vi, alguns quilómetros mais adiante, máquinas pintando.
[Texto 2097]
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Léxico: «Queruscos»

Vão desaparecendo

      Se alguém quiser saber o que significa Queruscos (acabei de ler numa obra que estou a rever), vai ter de recorrer a uma enciclopédia. Se não tiver acesso à internet, claro. Os dicionários gerais da língua não o registam. Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: «Antigo povo da Germânia» (Vol. 24, p. 15).

[Texto 2096]
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«Interpor recurso para ou a»?

Já que a língua é a mesma

      Jornalista Olga Tancredo, na emissão das 6 da tarde do Rádio Jornal, na Rádio Nacional de Angola: «No final do encontro, o porta-voz da CASA-CE [Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral], Lindo Bernardo Tito, afirmou que aquela coligação vai interpor recurso ao Tribunal Constitucional dentro dos prazos previstos por lei.» O mais habitual é usar-se a construção «interpor recurso para».
[Texto 2095]
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Perifrástica

Logo os dois?

      «A primeira aula de Carlos Fiolhais foi em 1962. “Já lá vai meio século!”, exclama o catedrático de Coimbra, que haveria de doutorar-se em Física Teórica, vinte anos depois do primeiro dia de escola, na Alemanha. [...] Olhando para o seu percurso, é curiosa a confissão: “A minha meta era o exame da 4.ª classe.” Fiolhais é responsável pelo passo em frente da Física em Portugal, mas diz: “Não fazia ideia de que haveria de passar na escola os próximos 20 anos da minha vida. E não podia imaginar que os 30 anos seguintes também os ia passar na escola.”» («“Chorei baba e ranho no primeiro dia”», Jornal de Notícias, 13.09.2012, p. 9).
      Já vimos que a perifrástica, no condicional, se constrói com o auxiliar no pretérito imperfeito do indicativo (havia de) e com o verbo principal no infinitivo (doutorar-se e passar).

[Texto 2094]
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«Chefiar» reabilitado

Um pouco, pelo menos

      «Ana Cristina Jorge inspetora superior do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), vai chefiar a unidade de operações da agência europeia Frontex, a Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia, a partir de do dia 1 de novembro» («Portuguesa vai chefiar agência europeia», Jornal de Notícias, 13.09.2012, p. 6).
      Ena, ena, até já estão a esquecer-se um pouco do tal verbo.
[Texto 2093]
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Tradução: «fiscal anticorrupción»

Traduziram mal

      «Segundo o El País, nos últimos meses o juiz e o fiscal anticorrupção que tem conduzido este caso têm defendido que o estatuto de organização não governamental do Instituto Nóos era “aproveitado” para realizarem negócios lucrativos com o governo regional de Valência, organizando assim eventos para os quais cobravam taxas muito elevadas, envolvendo o dobro ou até o triplo do preço real do serviço prestado» («Genro do Rei acusado de desviar três milhões», João Moço, Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 26).
      Continuam a traduzir, erroneamente, fiscal anticorrupción por «fiscal anticorrupção», o que já tínhamos visto aqui. Também temos fiscais, mas exercem outras funções.
[Texto 2092]
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Tradução: «con»

Traduziram bem

      «Na primeira página do jornal, o magnata aparece com uma mala de viagem e um sorriso na cara, uma imagem que critica a sua possível fuga ao fisco francês. “Vai-te lixar, rico estúpido!” [Casse-toi, riche con!], pode ler-se no título da manchete da publicação» («‘Libération’ critica dono da Louis Vuitton», Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 53).
      É um mero pretexto para trazer para aqui a língua francesa. Quem não estiver farto do inglês levante a mão. Ah, ninguém...
[Texto 2091]
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Roth não é fonte credível

Então quem é?

      «Segundo o diário espanhol ABC, o escritor Philip Roth fez um pedido à enciclopédia online Wikipedia para que corrigisse uma informação relacionada com o seu último romance, A Mancha Humana. Todavia, de acordo com uma carta que o escritor publicou na revista New Yorker, os responsáveis pela Wikipedia não consideraram o próprio autor uma “fonte credível”, pedindo por isso mais fontes» («Escritor não é “fonte credível”», Diário de Notícias, 11.09.2012, p. 49).
[Texto 2090]
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Tradução: «contactless»

Difícil, não haja dúvida

      «Esta teoria está cada vez mais perto de se tornar numa realidade: os primeiros cartões contactless chegam a Portugal já no próximo mês» («Cartão sem código chega a Portugal em outubro», Tiago Figueiredo Silva, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 31).
      É palavra com que iremos topar com frequência nos próximos tempos. Como se fosse impossível traduzi-la.
[Texto 2089]
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Com maiúsculas, pois claro

Para os teimosos

      «Desde Tucídides, pelo menos, que a grande História é também grande literatura. Mas não precisamos de recuar até aos Gregos e Romanos da Antiguidade Clássica. Temos excelentes exemplos intramuros, de Fernão Lopes, João de Barros e D. Francisco Manuel de Melo, a Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Magalhães Godinho, isto para não falar dos vivos. Eu gostaria de aproximar a clareza da exposição e a limpidez do estilo conseguidas nesta obra desse exigente nível literário que gera no espírito do leitor o encantamento pela qualidade da prosa e uma equivalente avidez da leitura para saber, não como é que a história “acaba”, mas sim como é que ela continua...» («Uma ‘História de Portugal’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 54).
[Texto 2088]
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«Bomba de extracção de água/motobomba»

Mas entretanto

      «O monóxido de carbono é um gás altamente letal e pode ter sido libertado por uma bomba de extração de água, que, soube o JN junto de fonte próxima das equipas de socorro, existe no poço. O qual, sublinhe-se, tapado com uma placa de betão, com uma pequena abertura onde cabe um homem e, também ela, com tampa de ferro, o que dificulta a ventilação. Aquele gás é um veneno silencioso, não detetável pelos sentidos. Uma vez inalado, entra na corrente sanguínea, chega às células e inativa os órgãos» («Autópsias confirmam morte por intoxicação», Eduardo Pinto e Margarida Luzio, Jornal de Notícias, 12.09.2012, p. 30).
      Cá está: neste jornal, não se fala em motobomba, mas em bomba de extracção de água. Entretanto, ainda não veio nenhum entendido esclarecer-nos sobre o funcionamento de uma motobomba, de que falei aqui.
[Texto 2087]
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«Dominava 33 línguas»

Hipérboles jornalísticas

      «Ernesto de la Peña. O pensador mexicano que morreu aos 84 anos recebeu, no dia 7, o Prémio Internacional Méndez [sic] Pelayo 2012. Dominava 33 línguas e era conhecido pelo seu humanismo. Foi escritor, filólogo, tradutor e difusor cultural do México» («Ernesto de la Peña», Diário de Notícias, 12.09.2012, p. 30).
      Andamos aqui nós a estudar diuturnamente uma, a nossa, e mal a arranhamos. Este prodígio dominava 33 línguas. Só não desisto porque até aos 84 anos ainda falta muito.
[Texto 2086]
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Léxico: «à jeira»

Esta escapou

      «A morte de cinco pessoas que trabalhavam à jeira no interior de um poço de betão armado onde desemboca uma antiga mina continua um mistério para a população de Vilela Seca» («“Se ficava mais um minuto no poço morria”», Margarida Luzio, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      À jeira, isto é, a dias. Extraordinário, vendo bem, é que ainda não tenha desaparecido dos dicionários.

[Texto 2085]


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Harry, monarca

Não digam disparates

      «Um porta-voz do movimento insurgente afirmou que a chegada do monarca ao Afeganistão é puramente simbólica e prevê que Harry não sairá da base de Camp Bastion» («Talibãs dizem que ida do príncipe Harry é apenas ato de propaganda», Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 30).
[Texto 2084]
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«Grupeta»?

O Facebook é uma maravilha

      «Apaixonada pelo hipismo desde que gravou “Feitiço de Amor” (TVI) onde dava vida à tratadora de cavalos Alice, Rita Pereira aproveitou o fim de semana para matar saudades. “Vim até ao Concurso de Saltos do Vimeiro com uma grupeta de atores. Vamos lá ver quem ganha”, contou a jovem aos fãs no Facebook» («Rita Pereira caiu do cavalo», Filomena Araújo, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 44).
      Nunca li nem ouvi. Só grupeto: «conjunto de três ou quatro notas musicais, ornamentais, que se executam com muita rapidez», segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2083]
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Uso de termos estrangeiros

O leitor é inteligente

      «Em sinal de boas-vindas, receberam-na com uma lei havaiana, cordão que rapidamente Mio pôs ao pescoço» («Conhecer novas culturas sem sair de Portugal», Gina Pereira, Jornal de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Uma adolescente japonesa de 15 anos, num programa de intercâmbio, recebida com uma lei havaiana... Ora esta! Se o desgraçado do leitor não souber que na língua havaiana lei é o colar ou grinalda de flores que se oferece aos visitantes na chegada e na partida, como símbolo de afeição, não vai perceber patavina. Só o uso do itálico ou das aspas já despertaria a atenção do leitor, precaução mínima para obviar equívocos.
[Texto 2082]
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Léxico: «fanfar»

Mas este está

      «Claro que é e veja que ainda hoje há o jogo do pau. Mas mesmo com o monumento distante do tribunal, com Fafe ninguém fanfe, como diz a inscrição na estátua. É por isso que lhe queremos dar mais dignidade, porque o pau é muito típico por cá. No século passado era muito utilizado pelos agricultores nas feiras. Uns para conduzir o gado, outros para se apoiarem, até quando já estavam com os copos e outros como arma de defesa. As discussões acabavam muitas vezes à paulada entre as pessoas. Sempre era melhor do que as pistolas usadas hoje» (presidente da Câmara Municipal de Fafe, José Ribeiro, em entrevista a Roberto Dores. «“Mesmo com o monumento distante do tribunal, com Fafe ninguém fanfe”», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o verbo fanfar: fanfarrear; bazofiar; gabar-se; bater. No Glossário Sucinto para Melhor Compreensão de Aquilino Ribeiro, de Elviro da Rocha Gomes, também o encontramos: «responder insolentemente, fanfarrear».
[Texto 2081]
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Léxico: «rusga»

Nada de polícias

      «A organização das Feiras Novas, que hoje terminam e encerram o ciclo das grandes romarias do Alto Minho, estima que cerca de meio milhão de forasteiros tenha passado por Ponte de Lima. Rusgas com mais de 400 cantadores ao desafio e tocadores de concertina foi um dos pontos de destaque, desde a noite de sábado até ao nascer do sol de ontem, juntando cantadores e tocadores profissionais a muitos outros que vão aderindo à festa de uma forma espontânea. A Feira do Gado e os concursos pecuários são também “números” obrigatórios da festa, envolvendo mais de meio milhar de cabeças de gado e dezenas de produtores. Hoje será a procissão e outras cerimónias religiosas. As Feiras Novas foram criadas pelo Rei D. Pedro IV, por provisão de 5 de maio de 1826, há 181 anos» («Feiras Novas encerram ciclo de romarias», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Neste caso, como é óbvio, não é a operação policial ou militar, antes sinónimo de tocata.

[Texto 2080]
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O desgraçado verbo «haver»

Nem os ministros sabem

      «O ministro dos Negócios Estrangeiros português anunciou ontem que o Governo venezuelano desbloqueou o equivalente a 50 milhões de euros para pagar dívidas a empresas portuguesas. Paulo Portas, citado pela Lusa, falava no fim da 7. ª reunião da Comissão de Acompanhamento Bilateral Portugal/Venezuela. “Havia cerca de 50 milhões de euros que estavam pendentes e foram desbloqueados” para pagamentos a empresas lusas, nomeadamente das “áreas agroalimentar, conservas e medicamentos”, indicou Portas, adiantando: “Para as empresas portuguesas que fazem vendas para a Venezuela é muito importante neste momento não haverem muitos atrasos nos pagamentos.” “Estes pagamentos ficaram, graças a Deus, resolvidos com muito espírito entre as duas partes”, acrescentou» («Chávez paga 50 milhões a empresas portuguesas», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 13).
      Erro é erro, mas ainda bem que Paulo Portas não é ministro da Educação. Pelo menos isso.

[Texto 2079]
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Panoias

Alguém lhes explica?

      «Cinco pessoas sofreram ontem ferimentos ligeiros na sequência de um choque em cadeia que envolveu cinco viaturas ligeiras no IC1, na zona de Ourique. O acidente ocorreu às 15.39, junto à localidade de Panoias. Os cinco feridos receberam tratamento no local, uma vez que apresentavam apenas “escoriações”, acrescentou fonte dos bombeiros» («Choque em cadeia causa cinco feridos», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 23).
      Era bom que percebessem que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, que adoptaram, também se passou a escrever Saboia. Mas não há meio.
[Texto 2078]
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Os Ianomâmis

Erros e ausências

      «Segundo um grupo de representantes dos yanomami, o massacre terá sido levada [sic] a cabo por garimpeiros brasileiros, que utilizaram um helicóptero para passar a fronteira e investir contra os índios» («Massacre de índios», Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 10).
      Em alguma imprensa brasileira, podemos ler «os ianomâmis». Cá, vai-se quase sempre pelo caminho errado. E os nossos dicionários também não ajudam. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o termo. Já o Dicionário Houaiss, por sua vez, diz que Ianomâmis é um substantivo masculino plural.
[Texto 2077]
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Vladivostoque

Um retrocesso

      «“Não faz sentido passar uma resolução sem consequências porque, como já vimos muitas vezes, Bachar al-Assad vai ignorar e continuar a atacar o seu próprio povo”, afirmou ontem a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, à margem do Fórum de Cooperação Económico Ásia-Pacífico, que decorreu durante o fim de semana na cidade russa de Vladivostok» («Proposta russa para a Síria vetada por Clinton», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 24).
      Um retrocesso, evidentemente, já que de quando em quando escrevem Vladivostoque: «Se Alexandre III promoveu a construção do expresso Transiberiano (em 1981, para ligar os 9289 km que separam Moscovo de Vladivostoque), já Estaline aproximou a Sibéria de Moscovo, deportando milhões de cidadãos em vagões de carga» («Rússia cresce depois de erupção vulcânica», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 34).
[Texto 2076]
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Ortografia: «motobomba»

A persistência do erro

      «Na noite da tragédia, as informações prestadas pelas autoridades e por populares indicavam terem sido informados pelo proprietário da quinta de que os trabalhadores teriam levado para o poço uma moto-bomba, que teria provocado a intoxicação. “Mentira”, afirma Manuel Martins, garantindo que “no fundo do poço não estava qualquer motor ou bomba e o gás tóxico vinha da mina, lateral, ao fundo do poço”» («“Ainda estou em choque, não sei como saí dali vivo”», José António Cardoso, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 19).
[Texto 2075]
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«Espoletar»

Não é necessário

      «O visconde, deputado nas Cortes, ter-se-á atrasado para um sessão do órgão monárquico, tendo sido censurado por um marquês, que lhe chamou “cão tinhoso”. Irritado com a situação, o visconde foi tirar satisfações com o marquês. Este último não gostou da atitude e atirou-lhe as luvas ao rosto. A reação provocatória e a ausência de desculpas espolotou um duelo» («Mudança da estátua da Justiça de Fafe não reúne consenso», Cynthia Valente, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      Abstraindo do erro ortográfico — é linguagem bélica, mesmo que em sentido figurado, escusada. Há alternativas.
[Texto 2074]
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Jórgia, de novo

Não a inventei

      «South, cujo nome verdadeiro era Joseph Souter, morreu com um ataque cardíaco na sua casa em Buford, no Estado norte-americano da Jórgia» («Morreu o compositor de ‘Games people play’», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 43).
      É a terceira vez que estamos a ver, aqui no Linguagista, esta forma de nos referirmos ao Estado norte-americano. (Ah, a propósito: Rebelo Gonçalves, na página 611 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «linguagista». Não, não é a minha profissão: é o nome do blogue. Não a inventei, mas também trata de ruínas.)
[Texto 2073]
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Conselho

Devia servir para toda a gente

      «Num livro escrito por Paul Fletcher, antigo dirigente do Burnley, o autor conta que o clube da II Liga inglesa, e que em 2010 jogou no escalão principal, esteve perto de ser treinado por André Villas-Boas. “O seu [de Villas-Boas] currículo e apresentação em powerpoint eram incríveis. Até pelos padrões de exigência atuais, tinha algumas coisas complicadas que eu não percebia”, refere Paul Fletcher, que tinha referências do então treinador da Académica como tendo grande potencial, embora o vocabulário que usava fosse complexo. “Tommy Docherty [antigo jogador e treinador escocês] explicava que não dizia nada aos seus jogadores que o leiteiro não percebesse. Será que os jogadores o teriam entendido se ele lhes dissesse para ‘solidificarem’, ou algo parecido?”, pergunta-se Fletcher, que ainda especula se o clube se teria mantido na Premier League ao comando do português, que acabou por rumar ao Dragão» («Vilas-Boas e o leiteiro», O. M., Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 35).
[Texto 2072]
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Sobre a Wikipedia

Um novo paradigma

      «O escritor Philip Roth criticou a enciclopédia online Wikipedia por não lhe ter permitido efetuar uma emenda numa entrada sobre A Culpa Humana, um livro seu. Numa carta aberta que publicou na New Yorker, explicou que a informação na Wikipedia era baseada num texto crítico e continha informação errada» («Escritor critica Wikipedia», Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 50).
      Só me espanta — e não devia, porque já vi muita coisa — que esta enciclopédia seja citada até em trabalhos académicos, dissertações, teses.
[Texto 2071]
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Ortografia: «motobomba»

Alguém nos explica?

      «O poço, onde se encontrava a nascente, tem cerca de quatro metros de profundidade e estava tapado com uma tampa em cimento, com uma abertura no meio de chapa de 70 por 70 cm. Ainda segundo a testemunha, “quando puseram a moto-bomba a trabalhar esta libertou monóxido de carbono que os vitimou de imediato”» («Limpeza de poço de água acaba com cinco mortos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 16).
      Sim, um das centenas de vocábulos que escrevem com erros. Mas pode haver aqui outro problema. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, motobomba é a «bomba eléctrica que activa a circulação de fluidos de refrigeração em máquinas e motores». Ora, uma motobomba não liberta monóxido de carbono.
[Texto 2070]
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Como se escreve nos jornais

Ora, ora

      «Posteriormente foram retirados sete homens, cinco dos quais já sem vida. Outros dois, por apresentarem sinais graves de inalação de gás, foram transferidos pelo helicóptero do INEM para o hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, onde foram colocados a câmara hiperbárica» («Limpeza de poço de água acaba com cinco mortos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 16).
      Quase como quem diz «postos a oxigénio». E o verbo, enfim, é agora sempre «colocar», seja qual for a frase e o sentido. Acabou-se a variedade.
[Texto 2069]
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Ortografia: «asa-delta»

Não se percebe

      «Vladimir Putin irá voar de asa delta para orientar cegonhas que partem do Norte da Rússia para a Ásia Central para invernarem. A notícia foi avançada pelo diário Vedomosti e confirmada por Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, que acrescentou que o Presidente aprendeu de propósito a pilotar asa delta para participar na operação. Putin vai assim ajudar, na operação “Voo da Esperança”, as cegonhas raras a encontrarem o rumo certo» («Putin vai voar com as cegonhas», Diário de Notícias, 6.09.2012, p. 27). «Desta vez, Putin voou de asa delta para orientar bandos de cegonhas que partem do norte da Rússia para a Ásia Central para invernarem» («Putin orientou cegonhas», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 6).
      Com a adopção do Acordo Ortográfico, o Diário de Notícias passou a deixar de usar o hífen em palavras que continuam a ter hífen. O jornal não tem, como repetidamente se tem dito, ninguém que zele por estas e outras questões linguísticas. Falta de dinheiro?
[Texto 2068]
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Alta Saboia

Segundo o AO, também

      «Tudo está assim em aberto na investigação de um crime que chocou franceses e ingleses desde que foi descoberto, na tarde de quarta-feira. Três pessoas da mesma família – pai, mãe e avó materna –, residentes num bairro de Claygate, a 30 quilómetros de Londres, estavam mortas, assassinadas a tiro, num carro de matrícula britânica, num parque de estacionamento florestal na aldeia francesa de Chevaline, perto do lago Annecy, na região da Alta Sabóia» («Pista do dinheiro seguida no massacre dos Alpes», Albano Matos, Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 26).
      A regra é precisamente a citada no texto anterior. Só me espanta que não se aproveitem os meios de que se dispõe hoje em dia para corrigir estes erros.
[Texto 2067]
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Ortografia: «tabloide»

Segundo o AO, claro

      «Esta semana foi noticiado que o ator norte-americano Bruce Willis teria a intenção de processar a empresa Apple uma vez que, segundo publicou o tablóide britânico The Sun, esta não lhe possibilitava transferir a coleção de canções que comprou na loja digital iTunes para as filhas em herança» («Música digital comprada pode ser dada em herança», João Moço, Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 40).
      Nem numa década estes erros se deixarão de ver — e em profissionais da escrita. Na população em geral, vai demorar mais. A regra, caro João Moço, está na Base IX, n.º 3, do Acordo Ortográfico de 1990: «Não se acentuam graficamente os ditongos representados por ei e oi da sílaba tónica/tônica das palavras paroxítonas, dado que existe oscilação em muitos casos entre o fechamento e a abertura na sua articulação: assembleia, boleia, ideia, tal como aldeia, baleia, cadeia, cheia, meia; coreico, epopeico, onomatopeico, proteico; alcaloide, apoio (do verbo apoiar), tal como apoio (subst.), Azoia, boia, boina, comboio (subst.), tal como comboio, comboias, etc. (do verbo comboiar), dezoito, estroina, heroico, introito, jiboia, moina, paranoico, zoina
[Texto 2066]
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Léxico: «poliamor»

Ainda é o amor livre

      «Poliamor é uma prática, mas também pode ser interpretado como uma filosofia, que passa pela aceitação de se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com o consentimento de todos os envolvidos. Na poligamia e na poliandria, quando um marido possui mais de uma esposa, ou quando a esposa possui mais de um marido, o casamento é uma condição» («Poliamor, poligamia e poliandria», Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 28).
[Texto 2065]
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Alta Sabóia

Já está melhor

      «O carro, de matrícula britânica, foi encontrado quarta-feira à tarde por um ciclista, britânico, na localidade de Chevaline, na zona do lago de Annecy, Alta Sabóia, centro este de França. Lá dentro, um homem e duas mulheres, mortos com disparos na cabeça» («Menina de 4 anos viva entre família chacinada», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 25).
      Até agora, era sempre Haute-Savoie que se lia em toda a imprensa — até no DN. Contudo, tendo este jornal adoptado as regras do Acordo Ortográfico de 1990, devia ter grafado Alta Saboia. E centro-este precisa de um hífen, sinal gráfico que este jornal está, erradamente, a deixar de usar quando devia.

[Texto 2064]
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Léxico: «hantavírus»

Bunyaviridae

      «Dezassete portugueses estiveram no Parque Yosemite, nos EUA, durante o surto de infeção por hantavírus que matou dois americanos. Os cidadãos nacionais foram submetidos a exames de despiste da doença, e os resultados revelaram-se negativos» («Surto apanha 17 portugueses em Yosemite», André Rito, Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 15).
      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «género de vírus que infecta vários roedores e que pode provocar uma doença grave no homem, caracterizada por febre e atingimento pulmonar e renal».
[Texto 2063]
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Mais crimes

Vejam lá isso

      «O alerta para o crime foi dado às 20.15 quando o homem se entregou no posto da GNR da Guia. Ao que o DN apurou, o indivíduo entrou muito nervoso e exaltado, confessando aos guardas que tinha acabado de matar o irmão e a cunhada. De imediato foi accionado a PJ, já que se trata de um caso de homicídio com arma de fogo» («Mata irmão e cunhada com tiros de caçadeira», Diário de Notícias, 6.09.2012, p. 19).
      Se a arma do crime tivesse sido uma faca de cozinha, por exemplo, já não seria assim? E se o desfecho não tivesse sido a morte da vítima? «O jovem foi detido pelos militares da GNR junto da sua residência, tendo a Polícia Judiciária sido chamada ao local para investigar a ocorrência, dado que envolveu uma arma [faca] e se trata de um crime de homicídio» («Jovem de 18 anos detido após esfaquear o pai», Diário de Notícias, 6.09.2012, p. 20).
[Texto 2062]
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Crime semipúblico

Que avancem os juristas

      «O presidente do Governo Regional já formalizou a queixa no próprio domingo, apesar de ser um crime semipúblico» («Desespero de um desempregado motivou agressão a Jardim», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 4.09.2012, p. 12).
      «Apesar de ser um crime semipúblico»... Mas este tipo de crime não exige que o ofendido apresente queixa? E hoje no mesmo jornal: «Um receio que pode ser partilhado pela vítima e pode, aliás, ser a explicação para o facto de José Manuel ter abdicado do direito de apresentar queixa. “Pode ser por receio ou pode ser por qualquer outra razão. Dizer o que quer que seja é especular. A vítima abdicou do direito de apurar a verdade e não deu qualquer explicação para o fazer. É um direito que lhe assiste e tendo em conta que o crime é semipúblico, ou seja, para ser investigado depende de queixa, não se pode fazer mais nada”, disse ao DN fonte ligada à investigação» («Homem sodomizado com pau abdica de queixa à PJ», Catarina Canotilho, Diário de Notícias, 6.09.2012, p. 19).
[Texto 2061]
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«Paleta/palete»

Menos artístico

      «Mesmo assim, a investigação da GNR de Elvas veio a encontrar a aeronave cerca de 24 horas depois de ter sido furtada, detendo também os sete autores do furto, incluindo o empresário, ligado à produção de paletas, com empresa em Arranhó (Arruda dos Vinhos). [...] Três residem em Elvas, e o outro era o condutor e sócio da empresa proprietária do pesado que procedeu ao transporte e que foi contratado pelo empresário de paletas para o efeito» («Empresário roubou avião por encomenda», Carlos Varela e Teixeira Correia, Jornal de Notícias, 5.09.2012, p. 8).
      Sem mais informação, bem podem ser as pequenas tábuas com um orifício para se meter o polegar, onde o pintor dispõe e combina as tintas, mas algo me diz que são antes as plataformas de madeira sobre as quais se empilha carga a fim de ser transportada em grandes blocos — ou seja, paletes.

[Texto 2060]
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«Eminentemente prática»

Sem fórmula

      «Voltemos ao exemplo do estado do tempo. A previsão a longo prazo é impossibilitada por duas ordens de factores. Uma é iminentemente prática» (A Fórmula de Deus, José Rodrigues dos Santos. Lisboa: Gradiva, 2006, p. 282).
      Como acabei de ver o mesmo erro noutro texto, aproveito para o expor aqui. É «eminentemente», isto é, no mais alto grau, muito, sobremaneira. É curioso, e talvez significativo, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só registe o advérbio «eminentemente».
[Texto 2059]
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