«Findado o psalmo»

Interditos e obrigatórios

      E a propósito do Sr. Alferes arcaizante, lembrei-me agora mesmo de uma frase de Arnaldo Gama. Ei-la: «Findado o psalmo, os cavaleiros e o povo ergueram-se e tudo ficou por alguns minutos em silêncio verdadeiramente sepulcral» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 165). Agora, dir-se-ia inevitavelmente «findo o salmo», nunca «findado». É este um tempo em que se prefere o irregular. E hoje também já não se pode dizer que o silêncio é sepulcral. Pelo menos num curso de escrita criativa. Excepto se este decorrer apenas em dois dias, como me disseram que um certo escritor está a publicitar. Escritor cujo nome não voltarei jamais a escrever, mas vejam.
[Texto 2594]

Tradução: «mime»

Assim fica

      «Recomeçaram a andar. Ivo, com o gesto, mimou um beijo que lhe atirou» (Direito Sagrado, Odette de Saint-Maurice. Lisboa: Editorial Presença, 1966, p. 176).
      Nesta acepção ­— dizer ou fazer por mímica; representar por gestos —, se o vi três ou quatro vezes na vida foi muito. Mas agora apareceu-me aqui alguém que «mimed a needle plunging», e não vejo melhor solução. Representou? Fingiu?
[Texto 2593]

Tradução: «back of ear»

Raramente

      Concha da orelha. Não se vê muito, mas aqui fica uma abonação: «Perdeu um para não ter que os usar; deixava nuas as bonitas orelhas e ganhou o costume de afastar com os dedos o cabelo para mostrar a concha das orelhas» (Os Espaços em Branco, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 41).
[Texto 2592]

«Veio até os primeiros degraus»

Nada disso

      Vai para um mês, o leitor B. P. deixou-nos aqui alguns exemplos de «picuinhices, bizarrias e questões opinativas» de João de Araújo Correia. «Aqui está um: A.C. dizia sempre ‘até o’ em vez de ‘até ao’, que censurava. Fui até o caminho, em lugar de fui até ao caminho.» Nada de novo. Não é o único escritor que assim fazia — e, segundo o prisma que já apresento, devia assim fazer. No epítome de gramática portuguesa do dicionário de Morais, pode ler-se o seguinte: «Igual erro é juntar a a até; v. g. até ao muro; deve ser até o muro, até o campo, até as estrelas.» Com o lastro de incontáveis exemplos clássicos e autoridades da valia de Morais, onde está a picuinhice ou a bizarria ou a questão opinativa?
      «Levantou-se então, e veio até os primeiros degraus do tablado» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 207).
[Texto 2590]

«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]

O audacioso «acordo ortográfico»

O pouco e mal que escrevem

      «Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual» («Histórias portuguesas», Vasco Pulido Valente, Público, 11.01.2013, p. 52).
[Texto 2499]

Podem escrever: «subestrutura»

Ora, está mal

      Querem então mais uma incoerência (lacuna, erro...) encontrada nos dicionários? Seja no de sempre. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «substrutura», mas não «subestrutura», ao passo que acolhe o par «superestrutura/superstrutura».
[Texto 2498]

Arquivo do blogue