Léxico: «pegada hídrica»

Afinal, já são três


      «Os números projectados para 2030 são de uma escala enorme. A procura de electricidade dos centros de dados deverá atingir os 945 TWh, quase três vezes o consumo combinado do Paquistão, Bangladesh e Nigéria, nota o documento. Em paralelo, a pegada hídrica deverá duplicar, dos actuais 4,5 biliões de litros anuais para 9,3 biliões de litros — água suficiente para satisfazer as necessidades domésticas de todos os 1,3 mil milhões de pessoas que habitam na África Subsariana. A ocupação territorial ultrapassará os 14.500 quilómetros quadrados, uma área equivalente a mais do dobro da região metropolitana de Jacarta» («Centros de dados para IA trazem custos elevados de água e uso do solo», Aline Flor, Público, 6.06.2026, p. 25).
      Talvez valha a pena começar por dizer que a expressão foi popularizada pelo investigador neerlandês Arjen Hoekstra (1967-2019) no início deste século, por analogia, evidentemente, com «pegada ecológica» e «pegada de carbono». Então, vamos lá ➠ pegada hídrica AMBIENTE indicador que mede o volume total de água doce utilizado ou contaminado, de forma directa ou indirecta, por uma pessoa, actividade, produto, organização ou país, incluindo a água consumida em todas as fases da produção de bens e serviços.

[Texto 23 102]

 

Léxico: «eufonista»

Tens o instrumento


      No dia 28 de Maio, uma quinta-feira, o músico Mauro Martins foi o convidado de Jorge Afonso no programa Uma Noite em Forma de Assim, na Antena 1. Ele e a namorada são eufonistas. Sabias, Porto Editora?

[Texto 23 101]

 

Definição: «bolo de Ançã»

Pouco doce

 

      Recebi um pacote postal (com uma dissertação de mestrado encadernada, se querem saber) e vinha com três selos: um de 1 euro com dois retratos de Mário Cesariny, e dois, iguais, de um cêntimo ilustrados com uma imagem do bolo de Ançã, cujo dicionarização, lembro-me muito bem, eu sugeri à Porto Editora há vários anos. E lá está: «bolo típico da vila de Ançã (Beira Litoral), seco e doce, de formato esférico e com pequenas cristas douradas na parte superior, feito à base de farinha, açúcar, ovos e manteiga e cozido em forno de lenha». A imagem do selo parece desmentir a esfericidade, mas faltam características na definição que não se vêem. No portal da Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, aparece uma definição com duas outras características que eu trocava pela suposta esfericidade: a pertença à família dos folares doces e ser pouco doce. Ou, vá, trocava pela primeira, porque a segunda é demasiado subjectiva. Assim, proponho ➠ bolo de Ançã CULINÁRIA bolo doce tradicional da vila de Ançã (Beira Litoral), enquadrado na família dos folares doces, de textura leve e macia e superfície caracterizada por pequenas cristas douradas, confeccionado à base de farinha, açúcar, ovos, manteiga e fermento e tradicionalmente cozido em forno de lenha.

[Texto 23 100]

 

Léxico: «hidrazinação»

Ficam a saber como se faz      


      «Researchers have found a way to use rice paper to recover gold from electronic waste. They modified the starch-based food material using a chemical process called hydrazination, which created a porous structure on the paper that quickly and selectively pulled gold from complex liquids, including dissolved CPU waste. It works by attracting gold ions and reducing them into solid gold nanoparticles on the paper’s surface. Finally, the paper can be burnt to retrieve pure metallic gold» («Rice paper can be modified to recover e-waste gold», The Hindu, 31.05.2026, p. 12).
      Alguém se esqueceu de a dicionarizar, já que se usa em língua portuguesa, portanto, aqui segue  hidrazinação QUÍMICA modificação química de uma substância ou material por incorporação de grupos hidrazina, de modo a alterar as suas propriedades estruturais, reactividade ou capacidade de ligação a outras substâncias.
[Texto 23 099] 
 
 

Léxico: «sinemuriano | pliensbaquiano»

Falta sempre alguma coisa


      «As arribas costeiras de São Pedro de Moel, no concelho da Marinha Grande, e das Astúrias, em Espanha, são jurássicas e conservam o registo geológico mais completo conhecido a nível mundial de um período crítico da história do planeta Terra: a transição entre os andares Sinemuriano e o Pliensbaquiano, que ocorreu há cerca de 193 milhões de anos, durante o período Jurássico Inferior» («Arribas costeiras de São Pedro de Moel são jurássicas», Maria Saraiva Brandão, Jornal de Notícias, 4.06.2026, p. 17).
      Ora, Porto Editora, é muito simples: «sinemuriano» também é adjectivo. Mas não apenas isso: o busílis está na segunda acepção. Os valores «199,3 milhões de anos» e «190,8 milhões de anos» correspondem a uma escala cronostratigráfica mais antiga, ainda reproduzida por algumas obras de referência. A Comissão Internacional de Estratigrafia indica actualmente 199,5 ± 0,3 Ma para a base do Sinemuriano e 192,9 ± 0,3 Ma para o seu topo. E depois não acolhes ➠ pliensbaquiano 1. GEOLOGIA relativo ao Pliensbaquiano; 2. GEOLOGIA andar do Jurássico Inferior, antecedido pelo Sinemuriano e sucedido pelo Toarciano; 3. GEOLOGIA idade correspondente a esse andar, que teve o seu início há, aproximadamente, 192,9 milhões de anos e o seu termo há, aproximadamente, 184,2 milhões de anos.
      No respeitante à etimologia, vem do topónimo alemão Pliensbach, localidade de Bade-Vurtemberga, +-iano.

[Texto 23 098]

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P. S.: Mais hoje, mais amanhã, Martim Madeira, da Rádio Observador, tem de ficar a saber que «coacção» e «coação» não se lêem da mesma maneira. O problema — ou a porra, se quiserem — é que onde antes tínhamos três verbetes bem distintos nos dicionários, coação, coacção e co-acção, temos agora somente um: coação (/kuá), coação (/kuâ/), coação (/kôá/). Na oralidade, porém, nada mudou. Isto é capaz de fazer confusão a certas cabeças.


Léxico: «lóri | lóri-de-testa-azul»

Com acento, assente 


      «Parecia ter desaparecido da face da Terra, mas um dos papagaios mais raros e enigmáticos da Indonésia voltou a dar sinais de vida numa remota floresta montanhosa da ilha de Buru, surpreendendo cientistas e renovando a esperança na sobrevivência da espécie. O lori-de-testa-azul, um pequeno papagaio endémico desta ilha indonésia, foi encontrado em abril por uma expedição de montanhistas e observadores de aves. A descoberta permitiu obter novas fotografias da espécie, as primeiras em 12 anos, e captar pela primeira vez gravações dos seus chamamentos» («Mistério de quase um século chega ao fim: papagaio raro reaparece na Indonésia», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 3.06.2026, 16h30).
      Só ficou a faltar o acento, Olímpia Mairos, como se vê, e bem, em vocabulários e dicionários brasileiros. Este lóri é uma espécie concreta, mas temos a designação comum. Assim, proponho ➠ lóri ORNITOLOGIA designação comum de diversas aves da família dos Psitaculídeos e da subfamília dos Loriíneos, próprias da Australásia e ilhas vizinhas, de plumagem geralmente muito colorida e língua adaptada à recolha de néctar e pólen | lóri-de-testa-azul ORNITOLOGIA (Charmosyna toxopei) espécie rara de lóri da família dos Psitaculídeos e da subfamília dos Loriíneos, endémica da ilha de Buru, na Indonésia, de plumagem predominantemente verde, com mancha azul na testa e bico alaranjado.
[Texto 23 097]

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P. S.: A Porto Editora define tribo, em Biologia, como categoria sistemática «correspondente, para muitos autores, à subfamília». Pelo que vejo, contudo, trata-se de uma concepção hoje desactualizada. Na taxonomia moderna, a tribo é uma categoria distinta da subfamília, situada geralmente abaixo desta e acima do género. Assim, proponho: tribo BIOLOGIA categoria taxonómica que reúne géneros aparentados, situada geralmente abaixo da subfamília e acima do género.

 

Léxico: «Corpo de Deus»

Pro fidelibus latine loquentibus

      «Esta quinta-feira, a Igreja celebra a Solenidade do Corpo de Deus. Uma celebração com origem na Idade Média que, segundo D. José Cordeiro, presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade, pretende sublinhar a centralidade da Eucaristia na Igreja» («Qual é a origem e o significado da Solenidade do Corpo de Deus?», Henrique Cunha, Rádio Renascença, 4.06.2026, 9h00).
      E não é que a Porto Editora só regista «corpus Christi»? Assim: «1. RELIGIÃO nome litúrgico da festa do "Corpo de Deus"; 2. RELIGIÃO o corpo místico de Cristo, formado pelos fiéis». Tenho dúvidas sobre a necessidade de uma segunda acepção. (Sim, também: aquilo ali não são aspas.)
      Assim, proponho ➠ Corpo de Deus RELIGIÃO nome tradicional, em Portugal, da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, celebrada pela Igreja Católica na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade; Corpus Christi.
[Texto 23 096]

Léxico: «foca-da-sibéria | nerpa»

Da terra do tio Vladimir

      «O lago Baical, na Sibéria (Rússia), tem 25 milhões de anos é o mais antigo da Terra. É também o mais profundo, com 1642 metros de profundidade. Acolhe cerca de 20 % da água doce líquida da Terra. E é rico em biodiversidade: é habitado por mais de 1700 espécies de plantas e animais endémicos, como a nerpa, ou foca-da-sibéria, a única foca de água doce do mundo» («Ásia – Rússia: O lago mais antigo do mundo», Audácia, Julho de 2026, p. 7).
      Se até os miúdos agora ficam a conhecer esta foca numa revista infanto-juvenil, não podemos ficar quietos, pelo que ➠ foca-da-sibéria ZOOLOGIA (Pusa sibirica) espécie de foca da família dos Focídeos, endémica do lago Baical, na Sibéria, caracterizada pelo corpo fusiforme, pelagem cinzenta a acastanhada e adaptação exclusiva à vida em água doce; alimenta-se sobretudo de peixes e constitui a única espécie de foca exclusivamente dulciaquícola do mundo. Isso mesmo, também conhecida por ➠ nerpa ZOOLOGIA designação comum da foca-da-sibéria.
      Quanto à etimologia, vem do russo nerpa, «foca», provavelmente por intermédio de uma língua fino-báltica aparentada do finlandês norppa, «foca-anelada».
[Texto 23 095]

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P. S.: Isso de o finlandês ser a «língua falada na Finlândia», Porto Editora, ora obrigadinho... Para dizermos alguma coisa mesmo útil, deve andar à volta disto ➠ finlandês LINGUÍSTICA língua urálica do ramo fino-úgrico, pertencente ao grupo fínico, falada sobretudo na Finlândia, onde tem estatuto de língua oficial, e também por comunidades finlandesas na Suécia, na Rússia, na Estónia e noutros países; é escrita com alfabeto latino.

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