Léxico: «nautismo»

E esta nunca

      «Uma vez por semana, estas turmas passam a ter 90 minutos – metade da carga horária total da disciplina de Educação Física – consagrados ao surf, canoagem, remo ou vela. O repto do pelouro do Desporto da autarquia para se começar bem cedo a promover a “cultura do nautismo” foi dirigido aos agrupamentos escolares» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
[Texto 3290]

Léxico: «extralectivo»

Muito poucas vezes

      «Este ano lectivo arranca com uma novidade em Viana do Castelo: mais de 650 alunos de sete escolas do concelho vão ter, por decisão dos respectivos agrupamentos, os desportos náuticos incluídos no plano curricular ou disponíveis como actividade extralectiva» («Mais de 650 alunos de escolas de Viana vão ter aulas de desportos náuticos», Andrea Cruz, Público, 13.09.2013, p. 16).
      Lê-se, é verdade, aqui e ali, mas muito poucas vezes, ao contrário de «extracurricular», só parcialmente sinónimo. E os dicionários ainda não a registam.
[Texto 3289]

Tradução: «enjeu»

Impressionante

      Quem é que não ouviu já falar nas implicações filosóficas (ou outras) disto ou daquilo? É por isso com estranheza que se vê, num tradutor experiente, enjeux philosophiques duas vezes vertido por «paradas filosóficas». Tudo originado por aquela pecha, mais vista nos novatos e nos medíocres, de se ficarem pela primeira acepção dos dicionários. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora, por exemplo, enjeu é «(jogo) parada»; (competição) o que está em jogo; figurado: implicação».
      «Não pretendendo focar as implicações filosóficas ou estritamente linguísticas do problema, tentarei apenas colocar-me, através da dúvida essencial e eficaz do fantástico, na complexa convergência da literariedade» (Metamorfoses do Fantástico na Obra de José Régio, Duarte Faria. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p. 21).
[Texto 3288]

«Tampa/tampo»

A ser assim, indiferente

      «Caetano Alves bateu com a cara em cheio na tampa do caixão cintado de ferro» (A Filha do Doutor Negro, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livrarias de Campos, Júnior, 2.ª ed., s/d, p. 203). É assim que sempre ouvi e li, mas o tradutor verteu couvercle du cercueil por «tampo do caixão». No entanto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tampa é a «peça móvel com que se tapa ou cobre um recipiente ou caixa», e tampo a «cobertura de recipientes grandes (arca, mala, etc.)». Ora, a ser assim, facilmente podíamos incluir neste etc. «caixão».
[Texto 3287]

Tradução: «globetrotter»

Com destino e sem destino

      «João Paulo II foi um papa globetrotter», dizia o texto. Bem, não é mentira, mas é triste ter de usar um termo inglês para dizer coisa tão comezinha. Na língua castelhana ficou bem resolvido: trotamundos: «persona aficionada a viajar y recorrer países». Perfeito. Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e que vemos? «viajante incansável». E «vagamundo», serve? Bem, quase: «que ou o que corre o mundo sem finalidade determinada». Enfim, vagabundo. Mas o papa, pelo menos ele, corre o mundo com uma finalidade determinada. Não é muito raro ver a palavra «trota-mundo(s)» em autores brasileiros. «“Sou um trota-mundo” — disse. “Calhou de ser a Irlanda, então, Irlanda! Você vai comigo, Aninha? Antes, quero acabar o seu retrato.” Falava muito nesse retrato, que já tinha começado. E nas viagens que faríamos montados na sua moto» (Os Filhos Pródigos, Lygia Fagundes Telles. São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1978, p. 56). Contudo, consultamos o Dicionário Aulete, que regista «trota-mundos», e a definição não é diferente da de «vagamundo»: «indivíduo que anda sem destino, vagueando; andarilho; vagabundo».
[Texto 3286]

Tradução: «bleu de travail»

Ora, não custava nada

      É em França, e os funcionários do cemitério estavam vestidos de bleu de travail. Correu tudo bem, mas é preciso dizer que o Dicionário Francês-Português da Porto Editora ignora a expressão. O Dicionário Português-Francês regista, é verdade, para fato-macaco, bleu; salopette; combinaison. Contudo, todos os cuidados são poucos.
[Texto 3285]

Tradução: «Je suis désolé»

Sem desculpa

      Um pequeno desaire, e é logo: «Je suis désolé, je suis vraiment désolé.» A torto e a direito. Exagero melodramático dos Franceses. O tradutor experimentado é que não pode usar a palavra «desolado», porque não é assim que nós falamos. Também o I’m afraid not inglês aparece muitas vezes mal traduzido. Vá lá, um pouco mais de esforço.
[Texto 3284]

Léxico: «copa»

Copa C 18

      A miúda estava na praia. Aqui este mariola enfiou a mão «por dentro do boné, descobrindo-lhe o peito». A culpa é dos dicionaristas, pois claro. No Dicionário Francês-Português da Porto Editora lemos que bonnet é «cada uma das duas partes ou bolsas do soutien». Os tradutores não dedicam mais tempo à questão: são os «bonés». Mas há outro problema: o vocábulo copa, na acepção de cada uma das partes ocas ou bolsas que cobrem os seios, não está registado nos dicionários. E usa-se todos os dias, a toda a hora, por homens e mulheres.

[Texto 3283]

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