Sobre «estrado»

Símbolo de poder

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a primeira acepção de estrado é esta: «sobrado um tanto acima do chão ou de outro pavimento». Assim, ou a segunda acepção (que não encontramos, por exemplo, no Dicionário Houaiss) é desnecessária ou faltam outras acepções: «estrutura plana junto ao altar onde o sacerdote põe os pés enquanto celebra a missa». E então o estrado que havia dantes nas salas de aulas, alguns com meio metro de altura, que separavam simbólica e realmente a área reservada ao professor da área reservada aos alunos?
[Texto 3282]

Como se escreve nos jornais

«Liderar orações»!

      «O Governo do Egipto proibiu a actividade de 55 mil imãs não-licenciados, que foram classificados como “fundamentalistas” e “ameaças para a segurança nacional” e impedidos de liderar orações em mesquitas e outros centros religiosos» («Governo proíbe actividade de 55 mil imãs», Rita Siza, Público, 11.09.2013, p. 21).
[Texto 3281]

«À droite à gauche»

Numa rápida sucessão

      «On baise à droite à gauche», escreve Houellebecq: «fode-se a torto e a direito». Sem conjunção, ainda percebo; mas também sem vírgula? O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «à doite et à gauche», à direita e à esquerda; de todos os lados; em todo o lado. No Diário de Maria: «Já não sou acompanhante, embora continue a foder a torto e a direito» (Lisboa: Oficina do Livro, 2013).

[Texto 3280]

«Linha», uma acepção

Não há outro termo?

      «Numa das linhas de vinha, Armando e Palmira, um casal de emigrantes reformados, apanha uvas ao mesmo ritmo que as vai petiscando. [...] Nas 80 linhas de vinha o cheiro é o do campo, mas os sons os [sic] da cidade — para além do contínuo zumbido dos sistemas de rega automática que estarão algures, noutra zona da Tapada, ouvem-se buzinas, sirenes, o trânsito da Ajuda» («O senhor vindimou?», Catarina Moura, «Fugas»/Público, 7.09.2013, p. 18).
[Texto 3279]

«Misse»

Aprovado

      «Sou culpada e tem que ver com o meu início, quando era locutora tinha de ser simpática. Quando fui para informação pensei que como jornalista tinha de ser a antítese. Agora sou outra coisa, descolei-me dessa imagem simpática, não tenho de ser a misse simpatia. Adotei um estilo, mas continuo a ser a mesma pessoa», disse Manuela Moura Guedes em entrevista à Notícias TV (6 a 12 de Setembro de 2013, p. 12). É raríssimo ver este aportuguesamento, que até está registado em alguns dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3278]

Não é «triologia»!

Olhos e ouvidos bem abertos

      «“Ele [Rui Sinel de Cordes] joga muito FIFA, mas também gosta de jogos de estratégia e máfia. A mesma coisa no cinema. Aliás, em cima da mesa da sala de estar tem um grande livro da triologia do Padrinho”, conta o amigo Vasco Duarte, mais conhecido como Falâncio, dos Homens da Luta» («O ‘Don Juan’ vaidoso que cozinha pratos extravagantes», Marlene Rendeiro, Notícias TV, 6 a 12 de Setembro de 2013, p. 39).
      Alguém — ou Marlene Rendeiro ou Falâncio — falhou redondamente. Ao conjunto de três obras literárias unidas por um tema comum dá-se o nome de trilogia. Em último caso, de qualquer modo, o erro é da jornalista.
[Texto 3277]

Mude-se a gramática

Para quem é

      As vendas de bacalhau aumentaram cinco por cento nos primeiros seis meses deste ano. A Ribeiralves, por exemplo, que tem a maior fábrica do mundo de transformação de bacalhau, contratou mais 40 pessoas para poder satisfazer uma encomenda. Vai daí, João Alves, empolgado, dá um pontapé na gramática: «O bacalhau coloca-se em todos os países onde hajam portugueses. Se houver portugueses, o bacalhau consome-se. Se não houver portugueses, nem tanto.»
[Texto 3276]

Becas e togas

Mais uma vez

      «Se os deputados não sabem falar claro, frequentem os cafés. O cidadão comum que se chega ao balcão já sabe o “espírito” daquilo que quer. Então, pede uma bica cheia ou curta, um abatanado, garoto ou carioca. E o cidadão do outro lado entende-o. Aprendam, deputados. Quem passa a vida a discursar com pompa, não pode estar sempre a precisar de tipos de toga a traduzi-lo» («Os dinossauros podem emigrar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.09.2013, p. 56).
      Os «tipos de toga» são, para Ferreira Fernandes, os juízes do Palácio Ratton. É confusão já antiga, arreigada, de Ferreira Fernandes. Faz três anos na próxima quinta-feira que lho disse no Assim Mesmo, mas ou não leu, ou não concorda, ou esqueceu-se. Mais uma vez: os juízes do Tribunal Constitucional usam beca. E não é apenas o nome que difere — as próprias peças de vestuário são diferentes.

[Texto 3275]

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