Léxico: «patusca»

E não é por ser novo

      «Isso mesmo se constata ao dar uma volta na Net: em vários fóruns e blogues, conversas sobre cloches e patuscas (com várias pessoas a perguntar o que é) e as memórias que convocam mais a delícia das iguarias nelas confecionadas são comuns» («O regresso da patusca e outras histórias», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 6.09.2013, p. 29).
      Sempre conheci pelo nome de patusca, provavelmente nome comercial que, por derivação imprópria, se tornou nome comum. Pode ser designação patusca, mas é nossa, ao passo que «cloche» (campânula; redoma; queijeira — pela semelhança?) é francês. Os dicionários, de qualquer maneira, desconhecem ambos os termos nesta acepção.
[Texto 3274]

«Pre-eminent», logo...

É só copiar, rapazes

      «The experimental elaboration of Hess’s concepts, and their application to clinical problems, has been undertaken by many workers, among whom Gellhorn is pre-eminent

[Texto 3273]

«Os Gibbses»

No prelo

      «Foi há mais de trinta anos que os Gibbses estudaram pela primeira vez o EEG de pacientes com enxaqueca (cf. Gibbs e Gibbs, 1941), e a literatura sobre o tema é hoje muito vasta e inconclusiva.» Este tradutor não ignora a regra na língua portuguesa. Para mais, basta copiar o original. Há coisa mais fácil? Um dia todos saberão, não é, Teresa?
[Texto 3272]

«Farrobodó» ou «forrobodó»?

Nada de novo

      Alguém me disse que Shyznogud, no Jugular, chamou por mim. Como foi ontem à noite, ainda não correu muito sangue. A questão é simples: «Há cerca de um mês, aquando da instalação de Paulo Portas no Palácio dos Condes de Farrobo, vi surgir na imprensa uma palavra para mim desconhecida: farrobodó. Toda a minha vida disse – e escrevi – forrobodó e estranhei a grafia que foi, amiúde, acompanhada de uma explicação similar à surgida na Visão [...] Não tenho outros dicionários à mão para verificar se esta ausência de “farrobodó” é geral e se há outra etimologia proposta.»
      Comecemos pelo fim: não percamos tempo com a etimologia, matéria não poucas vezes do domínio das suposições e da fantasia. O que se sabe ao certo é que a palavra não era conhecida antes do fim do século XIX. Conheço apenas um dicionário de sinónimos que regista a variante «farrobodó». No entanto, na larga maioria das vezes, foi esta forma que ouvi na boca do falante comum e não faltam exemplos na literatura. Aquilino, por exemplo, talvez não use nunca a variante «forrobodó», mas apenas «farrobodó». Para mim, são verdadeiras variantes, que uso indiferentemente.
[Texto 3271]

Léxico: «hemianopia/hemianopsia»

Nunca como agora

      Pascal de vez em quando pensava que um precipício se lhe abria ali mesmo ao lado da sua mão esquerda, e então puxava uma peça de mobiliário para esse lado. Os contemporâneos brincavam: é l’abîme de Pascal. Tratava-se de uma hemianopia passageira do lado esquerdo. Se consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que só regista a variante hemianopsia. Ora, nunca foi tão fácil enriquecer, corrigir e melhorar os dicionários como no presente.
[Texto 3270]

Tradução: «watered silk»

A terceira língua

      O cúmulo da abdicação, no que respeita à língua e à tradução, é traduzir uma palavra ou uma expressão — watered silk, por hipótese —, não por uma palavra ou expressão portuguesa — ainda no mesmo exemplo, «seda ondeada» —, mas por uma expressão ou palavra de uma terceira língua: «seda moirée». Mas já alguém dirá que não é bem, bem o mesmo, e por isso...
      «Deus concedeu às mulheres de Londres o privilégio duns lindíssimos cabelos, fartos, todos feitos de delicados fios de fina seda ondeada, que, soltos, se adamascam de mordentes reflexos» (Londres Maravilhosa e Outras Páginas Dispersas, Manuel Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 21).
[Texto 3269]

«Quemose, quemótico...»

E muitos outros

      Assim de repente, vejo que hoppy, waterbrash, chemotic, epiphora, laryngospasm, neurogenic, scotomatous, hypnagogic, diencephalon não estão no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora.
      E, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não vejo «mesomórfico», «neurogénico», «escotomatoso»... E também não via «quemose» e «quemótico» — que, todavia, encontro na magnífica Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira —, mas sugeri hoje de manhã a sua inclusão e já estão dicionarizados.
[Texto 3268]

Tradução: «liverish»

Está doente

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?
[Texto 3267]

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