«Adesão/aderência»

Vida e linguagem

      «Ora, recentemente, o celebrado economista norte-americano afirmou que “a febre do ouro acabou” e tudo indica que tem razão. Primeiro, as cotações do metal precioso não param de cair. Depois, as bases teóricas que explicam esse movimento parecem ter uma aderência à realidade que é incontestável» («Num cenário de cotações em queda, Roubini diz que febre do ouro acabou», José Manuel Rocha, Público, 30.06.2013, p. 20).
      Há muitas confusões no uso destas palavras, parcialmente sinónimas: adesão e aderência. Neste caso concretamente, não é de ligação de superfícies que falamos. Desta preciso em dois tacos que estive esta manhã a colar com UHU, «fixação sem pregos de sancas e rodapés». «Agora com 300 g», que comprei por 4,60 nas Ferragens e Drogaria da Torre, ali na Joaquim Ereira.
      «A felicidade possível ou, o que é mais exacto, os momentos de felicidade na vida humana, só podem encontrar-se, também, nessa absorção do imediato, na adesão à realidade próxima» (Vida e Literatura, Pedro de Moura e Sá. Lisboa: Livraria Bertrand, 1960, p. 346).
[Texto 3036]

«Tevê» e «TV»

Ora esta

      Apesar de ver a palavra de norte a sul do País inscrita nas portas de casas de banho, não estranho nem me rala nada que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe a abreviatura WC (ou W. C.). Acho é estranho que não acolha TV nem tevê.
[Texto 3035]

E «buenairense»?

Estamos pois

      «A lembrança do autor não se esgota nestas assoalhadas, espraiando-se além do programa traçado pela Associação Amigos da Casa de Ernesto Sabato, que tem contado com o apoio do Instituto da Cultura bonaerense, encarregue de organizar as visitas» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 19).
      Não seria melhor «buenairense», mais próximo do próprio topónimo? É a única forma registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E não estamos fartos de saber que «encarregado» e «empregado» são os particípios passados dos verbos «encarregar» e «empregar»?

[Texto 3034]

Tampas e alçapões

E o rés-do-chão?

      «Segundo os herdeiros do escritor, Valle nunca viu inconveniente em dividir o edifício com Ernesto e a respectiva família. E quem diz edifício diz até o telefone. Não raras vezes, os convidados eram surpreendidos por um homenzinho que abria uma tampa e aparecia de auscultador em riste a anunciar que a chamada era para “os de cima”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 19).
      Já um dia andámos aqui às voltas com a tradução de bulkhead door. Neste caso, a tampa é mesmo rente ao chão, porque se trata de um alçapão. Claro que Maria Ramos Silva podia usar a palavra «alçapão», que significa simultaneamente a abertura no soalho com tampa levadiça e a própria tampa. No intertítulo do texto, lê-se: «Entre a cave e o primeiro andar». Ora, por cima da cave temos o rés-do-chão, não o primeiro andar. Não me digam que também há dúvidas sobre isto.
[Texto 3033]

«Endereço»?

Parecido, e por isso

      «A alma de reminescências como esta mora entre paredes. Uma das curiosidades é comprovar a obsessiva organização de Sabato, bastando para isso seguir as etiquetas dos caixotes dispersos pelo endereço, como “Cartas e documentos sobre a minha conduta e os meus fundos monetários”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 18).
      Hã? «Endereço» a significar «morada» ou «casa»? Há-de ser — afinal Maria Ramos Silva está na Argentina — castelhano, e de forma ínvia. Em português, «endereço» é somente a indicação da morada, não a própria morada. E como «endereço» se pode dizer em castelhano «dirección», que significa tanto a indicação da morada como a própria morada, creio que está explicada a confusão.

[Texto 3032]

«Corretor/corrector»

Confusão total

      Está consumada a confusão total: «De acordo com a polícia, monsenhor Scarano foi o cérebro do plano com a ajuda de um corrector, Giovanni Carenzio, e de um agente dos serviços secretos, Giovanni Maria Zito, que foi suspenso há três meses da AISI, os serviços secretos domésticos italianos. A operação falhou porque Carenzio, o corrector, renegou o acordo, segundo os advogados» («Vaticano. O Monsenhor, o banqueiro e o espião presos por lavagem de dinheiro», Sérgio Soares, i, 29.06.2013, p. 32).
      A imprensa em língua inglesa afirma que Giovanni Carenzio é broker ou financier. Será corretor, financeiro.
[Texto 3031]

Tradução: «hype»

O meu euro

      «Bird [director do Media Monitoring Africa] acrescentou que “o hype” em torno de Mandela não permite comparações com Thatcher, “a comparação é entre Mandela e a princesa Diana, e nesse caso houve a cobertura foi frenética [sic]. Naquela altura viram-se rumores semelhantes, não sobre a saúde de Diana mas sobre a forma como ela morreu”» («Obama dispensa “momento fotográfico” com Nelson Mandela», Diogo Vaz Pinto, i, 29.06.2013, p. 34).
      Para Diogo Vaz Pinto, está visto, o termo inglês «hype» é intraduzível. Inadmissível, é o que é. Tem de ser o leitor a completar o trabalho.
[Texto 3030]

Ortografia: «ioiô»

Pois enganam-se

      «Wimbledon. Um iô-iô chamado Michelle Brito» (Cátia Bruno, i, 29.06.2013, p. 51). Porque ora estava a ganhar, ora a perder. (Descrição numa legenda de uma fotografia da tenista: «irregularidade exibicional».) Pois é, mas é ioiô que se escreve. Em inglês é que se escreve com hífen, yo-yo. É muito raro ver a palavra bem escrita, talvez porque ninguém tem tempo para consultar um dicionário.
[Texto 3029]

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