Tradução: «back of ear»

Raramente

      Concha da orelha. Não se vê muito, mas aqui fica uma abonação: «Perdeu um para não ter que os usar; deixava nuas as bonitas orelhas e ganhou o costume de afastar com os dedos o cabelo para mostrar a concha das orelhas» (Os Espaços em Branco, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 41).
[Texto 2592]

«Veio até os primeiros degraus»

Nada disso

      Vai para um mês, o leitor B. P. deixou-nos aqui alguns exemplos de «picuinhices, bizarrias e questões opinativas» de João de Araújo Correia. «Aqui está um: A.C. dizia sempre ‘até o’ em vez de ‘até ao’, que censurava. Fui até o caminho, em lugar de fui até ao caminho.» Nada de novo. Não é o único escritor que assim fazia — e, segundo o prisma que já apresento, devia assim fazer. No epítome de gramática portuguesa do dicionário de Morais, pode ler-se o seguinte: «Igual erro é juntar a a até; v. g. até ao muro; deve ser até o muro, até o campo, até as estrelas.» Com o lastro de incontáveis exemplos clássicos e autoridades da valia de Morais, onde está a picuinhice ou a bizarria ou a questão opinativa?
      «Levantou-se então, e veio até os primeiros degraus do tablado» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 207).
[Texto 2590]

«A meia-voz»

No sítio certo e com hífen

      Por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora já regista a locução a meia-voz no sítio certo e com hífen, no verbete «meia-voz». Afinal, se registava a locução a sangue-frio no verbete «sangue-frio», impunha-se uniformizar, como argumentei aqui.
      Eis quatro exemplos da obra O Balio de Leça, de Arnaldo Gama. (Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, 217 pp.)
  • «Fr. Nuno tirou-o áparte e com êle esteve falando a meia-voz por mais de cinco minutos.» (p. 85)
  • «– Fr. Lopo, recordais bem o que vos disse? – balbuciou a meia-voz o lugar-tenente quási ao ouvido do companheiro.» (p. 86)
  • «– Sus, vós outros ­– disseram aqui a meia-voz alguns cavaleiros mancebos, sorrindo-se – ora vêde a carranca que vai já fazendo o ainda futuro balio! Cuidado!» (p. 101)
  • «As vozes roucas dos vélhos cavaleiros acompanharam a meia-voz o canto funerário, dando-lhe assim uma entoação que tinha de-veras alguma coisa do outro mundo.» (p. 175)
[Texto 2589]

Léxico: «governança»

Quem disse que era moderno?

      «– Sentemos-nos aqui, fr. Nuno – disse então por entre sorrisos – nós, os vélhos, já não podemos aguentar de pé com o pêso dos anos; e muito, muito é o que temos que conversar, meu leal e esforçado companheiro de trabalhos e de pelejas. Sobrinho, achegai-vos; fr. Nuno, êste é Álvaro, o filho de minha irmã. Abençoai um dos bons cavaleiros da Ordem, aquele que quererá Deus que breve me suceda nesta pesada carga da governança do priorado de Portugal» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 69).
[Texto 2588]

«Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa»

Que surpresa

      Só hoje é que soube que existia e vi o Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa. É uma edição de Novembro de 2012 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda e custa 40 euros. Só quis confirmar algumas entradas. Assim, na página 221, podemos ler «caráter» (pl. carateres), e a indicação de que no Brasil é «carácter». Vão agora vendo como se escreve por aí. Na mesma página, está registado «caraterística». Na página 374, está «dia a dia» — locução adverbial e nome masculino. Na página 447, está «espetador» — e que outra coisa podia estar?
[Texto 2587]

«Vinho do Porto/porto»

Sabem, mas esquecem-se

      «A cevada é importada da Europa, a água vem das correntes que descem da Montanha da Neve e alguns dos cascos de carvalho até já serviram para envelhecer Porto» («E se um ‘whisky’ falasse mandarim?», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.02.2013, p. 26).
     Na legenda está correcto, mas quase de certeza que não foi o jornalista que a redigiu. Não, não: para designar o vinho do Porto numa só palavra, é porto que se escreve, com minúscula. É o fenómeno da derivação imprópria, que já vimos diversas, mas não, ao que parece, as vezes suficientes.
[Texto 2586]

Léxico: «basismo»

Da política e da Igreja

      «Alterações estatutárias travam o basismo» (João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 6).
      Bem, o Aulete regista-o: «1. Pol. Prática de consultar as bases antes de qualquer tomada de decisão. 2. Política que emana das bases. 3. Rel. Movimento relacionado com ou associado às comunidades eclesiais de base.» E também regista «basista».
[Texto 2585]

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