Locução «dar direito»

Assim fala o ti’ Zé das Couves

      Joana de Sousa Dias, no noticiário das 6 da manhã na TSF, informou que o Ministério da Educação enviou para as escolas um despacho com uma clarificação sobre o regime de faltas. Acrescentou ainda, repetindo de forma desastrosa o que o entrevistado dissera: «O secretário de Estado da Educação garante que as faltas não dão direito a sanções nem implicam chumbos.» Tolerável num caloiro de Direito, imperdoável numa jornalista. Terminologia jurídica à parte, a locução dar direito é sempre sentida pelos falantes como algo positivo, uma retribuição, um prémio. Uma sanção é precisamente o oposto.

Sílabas átonas

Pronúncia é poesia

Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, em mais uma emissão de O Amor É…, falaram de poliginia e poliandria. Mas não é disto que eu quero falar, mas sim sobre como algumas palavrinhas são maltratadas. Por exemplo, «aliás». Pequenina, mas trissílabo. Logo no início, Júlio Machado Vaz usou-a, mas abriu bem, mas mesmo bem o primeiro a, /àliás/. Como sempre faz. Como muita gente faz.
Escreveu, e com razão, João de Araújo Correia na obra que tenho citado: «Pronunciar bem uma sílaba átona é apenas animá-la para que se entenda. Não é preciso excitá-la, dando-lhe café ou óleo canforado» (p. 29). E na página a seguir: «Em caso de dúvida, emudece a vogal. Ainda que peques, sorrir-te-á comovido o anjo da tua língua.» «Pronúncia é poesia», escreveu este autor.

Democrata e democrático

Bem pensado

Realmente, mesmo sem hífen, isto não soa a português de lei. «Se houvesse língua portuguesa, não haveria Partido Social-Democrata. Poderia haver Partido Social Democrático» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 117). Razão tinham Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota, que em 6 de Maio de 1974 o fundaram com o nome de Partido Popular Democrático (PPD). Nem sempre as alterações vão no bom sentido.

Traduzir nomes próprios

Sim, não, talvez

Quem é que, actualmente, não escreve Júlio Verne? Ninguém, tanto quanto vejo. O meu autor desta semana, João de Araújo Correia, escreveu: «Nossos avós traduziam os nomes próprios. Diziam Emílio Zola e Júlio Verne em vez de Émile Zola e Jules Verne. Os próprios estrangeiros, residentes em Portugal, concordavam com a tradução. Houve, no Porto, o Emílio Biel, o Ernesto Chardron e, mais chegada ao nosso tempo, a ínclita Carolina Michaelis» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], pp. 104-5).

Família e familiares

Antes órfão

Acabo de ler que alguém considerava, numa carta à família, que seria melhor não ter nascido, «dado ser um fardo para os familiares». Logo me lembrei de Camilo ter zurzido em quem se referira à família como os «seus familiares». Ora, a palavra «familiar» designou durante muito tempo o oficial ao serviço da Inquisição. João de Araújo Correia, na obra que hoje já aqui citei, escreveu: «Nunca dizes família. Dizes sempre familiares, sem saber, bem ao certo, o que são familiares» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 115).

Ortografia: «Ganeixa»

Coincidências

      Isto é uma conjunção: ontem li a palavra Ganeixa na recensão de Pedro Mexia («Memória de elefante», Ípsilon/Público, p. 45) da última obra de José Saramago. Hoje revi um texto jornalístico, que nada tinha que ver com o livro de Saramago, em que aparecia Ganesha. Corrigi e, passados uns minutos, o autor do texto informa-me de que acabara de ler a palavra Ganeixa na página 258 (publicada pelo Diário de Notícias) de A Viagem do Elefante.

Pronomes referentes a Deus

Desde quando?

Isso se costuma fazer, cara Sara Costa, mas leia o que escreveu o grande João de Araújo Correia: «Ateu ou religioso, escreve Deus com maiúscula. Mas, não sejas hipócrita, escrevendo com maiúscula o ou lhe que se refiram a Deus. Esta palermice é moda nova. Não consta que se tenha usado no tempo em que Portugal foi místico» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 118).
Mas em inglês também há a mesma tradição, que nem sequer os cientistas enjeitam: «According to Newton, the universe is like a gigantic clock, wound up by God at the beginning of time, and ticking ever since according to His laws» (Michio Kaku, Physics of the Impossible. Nova Iorque: Doubleday, 2008, p. 276).

«Dislexia», palavra grave

A prosódia do avesso

Nos Dias do Avesso, na Antena 1, de ontem, Isabel Stilwell e Eduardo Sá falaram de dislexia. Isabel Stilwell começou por dizer que, segundo lera na revista inglesa Brain, há crianças bilingues que podem ser disléxicas numa língua mas não noutra. Um tema interessantíssimo, sem dúvida. O problema é que Isabel Stilwell, disléxica, pronunciou a palavra como se estivesse a falar em inglês: /disléxia/ (dyslexia). O acento tónico incide no i (penúltima sílaba, e por isso é paroxítona ou grave), e não na vogal anterior. Eduardo Sá pronunciou sempre correctamente a palavra. E uma silabada reiterada é grave, perguntam? É, se quem fala tem um microfone à frente e muitos ouvidos do outro lado.

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