«Profeta» com minúscula

Maiores e menores

      Um nigeriano, Mohammed Bello Abubakar, professor e pregador, divorciou-se anteontem de 82 mulheres (ainda fica com quatro). Tem mais de 170 filhos. «A família de Abubakar não trabalha e ninguém sabe como se sustenta», lê-se na notícia publicada ontem no Diário de Notícias. Posso dar uma ajudinha: várias organizações «humanitárias» de países islâmicos (normalmente a Arábia Saudita, com os seus petrodólares) aproveitam-se da pobreza para converter: a quem usar o hijab, o véu islâmico, é dado dinheiro. Já se viu isso na Somália, na Bósnia, etc. Mas não era sobre isso que queria escrever, mas sobre isto: «Abubakar diz que fala pessoalmente com o profeta Maomé» («Nigeriano divorcia-se de 82 das 86 mulheres», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 31). Nada de novo por aqui, só para reforçar: Maomé é profeta como profetas são os da tradição cristã, e estes nunca mereceram maiúscula inicial. Está, pois, muito bem: profeta Maomé. Só se for por antonomásia, argumentam? Porquê? De qualquer modo, não ficaria junto do nome Maomé.

Recursos

Mui•to bem



      O que um simples dicionário de menos de 5 euros fazia, e muito bem, é feito agora também pela MorDebe, uma base de dados com palavras do português: informar sobre a partição das palavras na escrita. Utilíssimo.




Recursos

Leiam

Já aqui deixei hoje a indicação de uma obra — O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós — alojada no Arcos Digital, o portal de Arcos de Valdevez, que vale a pena explorar. Agora deixo a indicação da obra, que os leitores podem descarregar, A Língua Portuguesa no Alto Minho, da autoria de Victor Domingos.

Máfia ou mafia?

É o que vamos ver

«A notícia foi revelada pelo diário ABC na sua edição de ontem. De acordo com este jornal espanhol, Jurij Salikov, um dos elementos da Tambovskaya (mafia russa) que se encontra detido em Maiorca foi investigado por ter estado ligado a uma operação de venda de aviões de guerra russos para um país africano, presumivelmente Angola» («Mafia russa negociou aviões de guerra para Angola», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 27).
Máfia ou mafia? O Diário de Notícias grafa sempre «mafia». Nos últimos anos, porém, só se lê e ouve a primeira. Escreve, a propósito, o consultor do Ciberdúvidas F. V Peixoto da Fonseca: «Em italiano é Mafia, nome próprio, esdrúxula mas sem acento gráfico, conforme preceitua a ortografia da língua. E é assim que se deve também pronunciar em Portugal como no Brasil: /Máfia/. A pronúncia do vocábulo como grave (/Mafía/) é pois errada e causada pelo desconhecimento do italiano, que leva a querer sujeitar a palavra às regras de acentuação portuguesas.»
Será mesmo errada? Eu sempre disse e escrevi «mafia», porque será esdrúxula em italiano, mas em português é claramente grave, como muitas outras terminadas em –ia: biopsia, glicemia, hipocondria, leucemia, miopia, orgia, radioterapia, septicemia, tecnocracia, etc. (Podem pesquisar mais neste Rimário, muito útil, da autoria de Creusmar Pereira de Almeida.) Por analogia, então, mafia.

Derivação imprópria

Morno, morno

O Diário de Notícias publicou ontem um especial (pp. 32-33) sobre o furacão Gustav. «Talvez por isso, o mayor de St Paul, Chris Coleman, diga que Mineápolis é um Chablis — um vinho branco da região francesa da Borgonha — e St Paul é uma cerveja» («Que nome dar a esta convenção?», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 33).
Em português, já aqui o escrevi mais de uma vez, à mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria. A questão é que esta alteração também afecta — ao contrário do que muita gente defende, vá-se lá saber porquê — graficamente a palavra. No caso, teria de se escrever chablis, derivado de Chablis, localidade vinícola francesa. Uma abonação da obra (que pode descarregar integralmente aqui) O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós (1948-1919): «Não saíra, depois, dos seus aposentos, onde lhe foi servido um simples caldo, bocado de peito de galinhola, um pequeno copo de chablis...» (p. 13)

Evacuar e Luisiana

Mais evacuações

«Mais de meio milhão de pessoas evacuaram este fim-de-semana a cidade de Nova Orleães e outras áreas em risco no Estado da Louisiana (Estados Unidos) como medida de prevenção perante a aproximação do furacão “Gustav”, que deverá atingir hoje a costa norte-americana» («“Tempestade do século” leva ao êxodo», Cristina Espada, Meia Hora, 1.09.2009, p. 6).
Não há jornalista português que não saiba que há qualquer coisa relacionada com o verbo evacuar. Alguns não sabem é bem o quê. Muito bem, o começo está correcto: «Mais de meio milhão de pessoas evacuaram este fim-de-semana a cidade de Nova Orleães». Sim, mas evacuaram-na de quê? Praticam e sofrem a acção? E isso não é demasiado? Quanto a «Louisiana», vinte linhas depois lê-se «Luisiana».

Selecção vocabular


Uma coisa em forma de assim

      No programa 1001 Escolhas, de Madalena Balça, na Antena 1, que estou a ouvir de madrugada, a entrevistada é Margarida Pinto Correia. No perfil biográfico que inicia o programa, diz-se que Margarida Pinto Correia quando jovem era «boa aluna, inteligente e comunicadora». Comunicadora, contudo, como adjectivo significa «que comunica», e não era isso claramente que se pretendia dizer, mas sim «comunicativa», ou seja, «que comunica facilmente, expansiva», do latim tardio communicativus, a, um, com o mesmo significado.
      Para um insone atento (e não há insones desatentos, creio), estes erros irritam. Vou dormir.

«Mal-estar», não «mau estar»

Mau, mau

      Parece que pouco há a fazer: o cidadão comum, os jornalistas e os professores dizem e escrevem «mau estar». Esquecem-se de que mal é advérbio e se opõe a bem e mau é adjectivo e se opõe a bom. Se fossem coerentes, também diriam e escreveriam o antónimo assim: «bom estar». Mas na ignorância, tanto quanto tenho visto, não há coerência.


Actualização em 21.06.2010


      Mas há mais quem tenha escrito desta forma: «Isabela não tinha por hábito impressionar-se com facilidade, mas havia neste homem qualquer coisa que lhe causava mau-estar, acrescido ainda pela sensação de náusea proveniente do seu bafo avinhado, e que era quase insuportável» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, pp. 227-28).


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