Formas de tratamento. Publicidade

Você é (foi?) estrebaria

A propósito de marqueteiros, há agora aí um anúncio mais insistente do que todos que diz: «Se calhar tu ainda te achas nova, mas já está na altura de começares a poupar para a reforma. Não tarda nada, já estou a tratá-la por você. E nessa altura, o melhor é você já ter algum de parte. É a melhor maneira de prevenir que, quando a senhora começar a ser tratada por senhora, terá um nível de vida a que estava habituada quando era tratada por você ou por tu, minha senhora. No BES, há soluções de reforma que mudam contigo, aliás, consigo, perdão, com a senhora. Não é por acaso que somos líderes. Soluções de reforma BES. Quem sabe, sabe. E tu, você ou a senhora é que sabem.»
Deixem-me adivinhar: tratam por tu a jovenzinha que chega ao balcão (excepto se trouxer uma pistola na mão, suponho), por você uma pessoa com indícios exteriores de ser emigrante de Leste (vejam lá não se enganem) ou porteira num prédio e, por fim, por senhora… uma senhora. Uma pessoa idosa ou que indicia pertencer a certa classe social, digamos. É isso? Podem dominar as formas de tratamento no português contemporâneo (se calhar até leram Sobre “Formas de Tratamento” na Língua Portuguesa, de Lindley Cintra, à mesa de um McDonald’s), mas são uns hipócritas. E a quarta frase foi mal lida.
Se há questões complexas na língua portuguesa, a das formas de tratamento é uma delas. Há verdadeiras teses sobre o tema. Você é igualitário ou denota um pretendido distanciamento social? Senhor(a) é sempre tratamento cerimonioso, formal, sem distinções de classe, ou não? Vou voltar brevemente a este tema.

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A sério


      As pessoas já sabem pouco, como se prova a cada passo, mas com campanhas em prol da ignorância, a coisa piora. Agora um pouco por todo o lado os toldos de cafés e pastelarias com o patrocínio da Olá têm a inscrição «Diverte-te à séria». São os senhores marqueteiros a martelarem a língua. Já alguém me dirá, talvez com erros, que não faz mal, a língua evolui, etc.

Selecção vocabular

Controla-te

Uma equipa de arqueólogos belgas e turcos descobriu partes de uma estátua que se supõe representar o imperador romano Marco Aurélio. O Público de ontem trazia uma chamada na primeira página. No Diário de Notícias, no artigo sobre o mesmo achado, da autoria de Luís Filipe Rodrigues, lia-se, entre outras coisas: «Marco Aurélio controlou Roma entre 161 e 180, sucedendo a Antonino Pio. Este membro da dinastia Antonina, foi o último dos “Cinco Bons Imperadores”, que entre 96 e 180 levaram a paz e a prosperidade (política, mas também militar e económica) ao Império, estabelecendo a célebre Pax Romana» («Estátua colossal de Marco Aurélio achada na Turquia», 27.08.2008, p. 48). Marco Aurélio «controlou» Roma? E a rainha Vitória, o que fez? E Cavaco Silva, o que faz?

Tradução do inglês


Parafuso com anel

Ficámos a saber: foi Arabella Tanios, sobrinha de Emily Arundell (e nas legendas da RTP Memória apareceu sempre «Arundel»), quem estendeu um arame no topo das escadas, entre o rodapé e um balaústre, para que Mrs Arundell caísse. E onde é que Arabella prendeu o arame? Florinda Lopes, a tradutora, quis que fosse a uma aselha, mas o que vimos é exactamente o que está na imagem acima. No original é nail. «“The thread which you merely deduce from a nail in the skirting board!” I interrupted.» Sempre conheci por camarão fechado. No Brasil, é conhecido por pitão. «Aselha», ma chère amie, é uma laçada, um nó corredio ou uma presilha, tira de pano que tem, numa extremidade, uma casa onde entra um botão para prender. Aselha.

Tradução

Tradução automática

Se eu volar sobre el cordón de la vereda porque vem lá um qualquer veículo que quase me atropela, onde estou eu? (Não vale: num sítio qualquer, falo é espanhol.) Estarei num país de fala castelhana, sim. Mas no campo ou na cidade? Pista: o veículo é um autocarro. Claro: voar sobre o lancil do passeio. Para certos tradutores, contudo, é voar sobre o cordão da vereda. O leitor mais proclive a enigmas que se desenrasque. ¡A la mierda!

Passagem ≠ passamento

De passagem

Confirmadíssimo: nenhuma das inúmeras acepções do termo «passagem» significa «morte». Confusão da tradutora, Florinda Lopes. Mas (re)começo do início, por complacência com os leitores. No episódio de ontem na RTP Memória, que tem hoje continuação, Poirot foi chamado a deslindar mais um assassínio. Trata-se do episódio Testemunha Muda (Dumb Witness), em referência ao fox terrier Bob, que assistiu ao crime. A determinada altura, uma das irmãs espíritas, não me perguntem qual, Isabel Tripp ou Julia Tripp, diz a Poirot, que aceitou um convite para as visitar: «A Emily [Arundell] sabe que se culpa pela sua passagem e acha uma tolice, M. Poirot.» Passage em inglês, sim. Em português, passamento. Morte. Falta de leitura. De dicionários e de obituários.

«Nelson» e «Nélson». «Triplo salto»


Vamos contá-los

Muito curioso: o Diário de Notícias, entre outros jornais, escreve sempre «Nélson Évora». O Record, «Nelson». No que se refere aos nomes próprios, já sabem, respeito sempre (até para que sempre me respeitem) a forma como os escrevem quem os tem. A fonte mais acessível é o sítio do atleta, em que se pode ler «Nelson Évora».
Estabelece a Instrução n.º 38 do Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (1947): «Para ressalvar de direitos, poderá ser mantida a grafia dos nomes próprios adoptada pelos seus possuidores na assinatura, bem como a grafia original de firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos inscritos em registo público.»
A primeira página do Record que ilustra este texto é paradigmática. Por um lado, grafa «Nelson Évora», por ser, estou convencido disso, o nome do atleta; por outro, grafa «Nélson», o lateral-direito do Benfica. Não, não é a minha influência a fazer-se sentir. Não concordo com tudo, de resto. Porquê «triplo-salto»? É, tanto quanto sei, o único jornal que escreve assim. O que é que o atleta faz? Dá três saltos: primeiro, segundo, terceiro. Triplo salto. Só há uma obra a registar a ortografia «triplo-salto»: o Novo Prontuário Ortográfico de José Manuel de Pinto Castro.

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