Concordância

[Sem título]

      «Num daqueles filmes de merda que, tal como o cagar, são necessidades, sem as quais não se está bem (o Final Destination 5), um professor ignóbil pergunta retoricamente a um dos relutantes discípulos: “Qual é a coisa que jamais se consegue reciclar?” A resposta, claro, é o “tempo desperdiçado”. Só vi os primeiros dez minutos – não desperdicei a hora e tal que faltavam – mas foi o suficiente para absorver a mensagem» («O destino, entretanto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.08.2011, p. 33).
      Uma e tal não são dois. Isto precisa de um psiquiatra: «Agora já só um mês e tal nos separa, meu amor. Esperemos que irá passar o mais depressa possível! Só Deus sabe a vontade que tenho de te ver e de te abraçar! A falta que tu, meu amor, me fazes, não há palavras que a possam exprimir!» (D’Este Viver aqui Neste Papel Descripto: cartas da guerra, António Lobo Antunes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 262).
[Texto 410]

O Público errou

Não aquenta nem arrefenta

      Nem o pobre leitor compreenderia, se não o dissessem: «Na carta ontem aqui publicada, ”Enormidades à conta do anti-AO”, de José Mário Costa, a frase “Tão certo como 2+2 = 4, lá veio disparada, rápida e célere, a réplica anti-AO ao artigo pró-AO (...)” saiu truncada [“Tão certo como 2+24, lá veio disparada e célere, a réplica anti-AO ao artigo pró-AO (...)]” . As nossas desculpas ao autor e aos leitores» («O Público errou», Público, 18.08.2011, p. 30).

[Texto 408]

Léxico: «pirete»

Malcriados

      «If you look really closely you can see the outline of my friend ***’s middle finger flipping them all the bird.» «Se olhares com atenção, vê-se lá a silhueta do dedo do meio do meu amigo *** a fazer-lhes um pirete a todos.»
      Bem, é mais um termo que não conhecia. E o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não conhece. Aproxima-se: «pilrete», «um homem muito pequeno, homúnculo; criança vivaz». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista-o: «Gesto obsceno que consiste em esticar o dedo médio da mão e encolher os outros.» É termo popular (do Norte?).
      «Faço-lhe um adeus com a mãozinha e na mãozinha um pirete como mandam as regras. Agora percebeu, o sacana, percebeu, o filho de um grande comboio de xandras — lá está ele a fazer-me um adeus igual ao meu, mãozinha e tudo, e pirete!» (Walt ou o Frio e o Quente, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Bertrand Editora, 1979, p. 30).
[Texto 402]

«Pôr em causa»

Mudança de paradigma

      Jornalista Nuno Rodrigues, no noticiário das 8 da manhã na Antena 1: «Tudo isto numa altura em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fala da necessidade de combater a dívida, mas sem colocar em causa o crescimento económico, Teresa Correia.»
      «Não obstante as liberdades concedidas pelo Decreto, era exigido ao matador deixar o chão bem limpo e sem sinais de violência, tanto quanto o necessário para não pôr em causa a moral ou a aparência de alguns costumes» (Entre Pássaro e Anjo, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1993, p. 18).
[Texto 400]

Sul do Sudão/Sudão do Sul

Do Sul

      A propósito de tio Google: este senhor, com uma memória prodigiosa mas um pouco desatinado, diz-me que Sul do Sudão é quase tão usado como Sudão do Sul. Ora, tendo em conta que boa parte das ocorrências (somente páginas de Portugal) dirá respeito à independência deste território do Sudão, pergunto a mim mesmo se esta polarização não é enganadora. Explico-me. Na minha ideia, devia usar-se Sul do Sudão apenas quando nos referimos ao território como parte integrante do Estado sudanês. Quando nos referimos ao novo Estado, usaremos Sudão do Sul – à semelhança de Coreia do Sul, Dacota do Sul, Carolina do Sul, Ossétia do Sul...
[Texto 399]

Entre 20 e 40 mil

Duas grandes verdades

      Jornalista Nuno Felício, no noticiário das 2 da tarde de hoje na Antena 1: «Numa visita a Gouveia, esta manhã, o ministro [Nuno Crato] reconheceu que entre 20 a 40 mil professores não vão ser avaliados, e adiantou ainda que, mais do que computadores ou quadros interactivos, o que faz falta nas escolas é empenho.»
      «É a base; é a basezinha!», disse o abade sobre o latim, o latinzinho, mas saber português ainda faz mais falta.
[Texto 398]

Colocação do pronome

Saberão os taxistas

      «Entre as coisas que desaparecem e fazem falta, muitas não têm importância nenhuma. Mas o efeito cumulativo de todas elas – que é sísmico – faz com que valha a pena mencionar cada uma. Desde os meus 25 anos que ando à caça de copos de vidro fininhos. Na Rua de São Bento, em Lisboa, no encalço dos restos das fábricas condenadas da Marinha Grande – imaginando-me o anjo vingador dos irmãos Stephens –, dei por duas vezes com a Amália Rodrigues, incandescente e espirituosa, que morava e continua a morar naquela rua, como todos os taxistas de Lisboa sabem e orgulham-se de saber. Disse-me coisas que nunca mais esqueci. Era incapaz de dizer uma coisa que se pudesse esquecer» («Escrito no vidro», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.08.2011, p. 31).
      Pode ter que ver com o ouvido, mas eu anteporia o pronome ao verbo, pela atracção exercida ainda, pese embora o afastamento, pelo pronome indefinido: «como todos os taxistas de Lisboa sabem e se orgulham de saber».
[Texto 397]

Palavras para o tempo

É um avanço

      Sabemos bem como a noção do tempo, que não é inata, nas crianças é confusa e imprecisa. Agora, porém, a minha filha (que resolveu, depois de saber fazê-lo em inglês, aprender a contar até dez em português e em italiano), inesperadamente, sentiu necessidade de ser mais precisa e passou a usar a palavra «trasantontem», que jamais me ouviu. Vá lá, podia dizer, como se ouve em algumas zonas do País, «ontesdonte(m)».
[Texto 396]

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