Definição e etimologia: «estivação»

Não estão mortos


      «Mercedes Creus se ha fijado cómo los caracoles trepan a las plantas para alejarse del cálido suelo, que en verano alcanza temperaturas muy altas. Este comportamiento se conoce como estivación» («La estivación de los caracoles en Roses», La Vanguardia, 15.08.2026, p. 15). A ilustrar o texto, uma imagem de caracóis, como tantas vezes vemos, num arbusto, como mortos. 
      Mas não: é a estivação. O texto, porém, induz em erro, pois poderá pensar-se que os caracóis subirem para as plantas constitui a estivação. Mas não,  é o estado fisiológico de dormência em que se encontram. Infelizmente, nos nossos dicionários também não está totalmente correcto. Lê-se no dicionário da Porto Editora: «BIOLOGIA estado de inactividade, com metabolismo reduzido ou suspenso, em que entram diversas espécies animais de forma a conseguirem sobreviver quando as condições climáticas se tornam muito quentes e secas». Com metabolismo suspenso é manifesto exagero, não pode ser. E não é meramente pelo calor. 
      Assim, proponho ➠ estivação BIOLOGIA estado de inactividade, com acentuada redução da actividade metabólica, em que certos animais entram para sobreviver a condições ambientais adversas, sobretudo de escassez de água, frequentemente associada a temperaturas elevadas.  
      Quanto à etimologia, vem de estivar + -ção, a partir do latim aestivāre, «passar o Verão», provavelmente por influência do francês estivation, «idem».

[Texto 23 420]

Definição: «burca»

E já que falámos dela ontem


      A publicação da chamada lei das burcas obriga-nos a olhar de novo para a definição nos dicionários. Diz a Porto Editora: «veste comprida que envolve todo o corpo, dos pés à cabeça, com uma abertura rendilhada à altura dos olhos, usada em público por algumas mulheres muçulmanas». Deduz-se, claro, mas deve dizer-se expressamente que cobre o rosto. Assim como deve explicar-se correctamente o que acontece à altura dos olhos. E, por fim, como se trata de uma peça exterior envolvente, usada sobre a roupa habitual, deve ficar claro. Assim, proponho ➠ burca veste exterior ampla, usada em público por algumas mulheres muçulmanas, que cobre o corpo da cabeça aos pés, incluindo o rosto, tendo à altura dos olhos uma pequena zona de tecido em rede ou perfurado que permite a visão.

[Texto 23 419]

Ortografia: «menino bem»

Ora sobra, ora falta


      «Tudo ia calmo no pátio, mais calmo do que o habitual, não havia gritaria nem serenata, só se ouviam as vozes e os gatos a miarem pelos cantos, uma vez por outra um carro que passava lá fora na Avenida de Ceuta, o tio Artur puxou a conversa, temos de levar o rapaz ao Atlético, e logo o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes respondeu, quando vier o Belém, quando vier o Belém, e riu-se, riram-se todos, o Victor não percebeu do que se riam eles, que mal tinha o Belenenses?, o Belém, e o tio explicou, quando vem o Belém há sempre sarrabulho, e o Victor perguntou porquê, e o Lúcio respondeu, ora, operários contra meninos-bem já se sabe que não pode acabar aos abraços, depois verás, depois verás» (Pés de Barro, Nuno Duarte. Revisão de Madalena Escourido. Alfragide: Leya, 2025, 3.ª ed., pp. 36-37). 
      Há-de ser confusão com «menino-bonito». Nunca vi o adjectivo invariável «bem» ligado por hífen neste caso. Mais valia ter guardado o hífen para outros casos em que é necessário e não o usou, como em «um tipo mal encarado» (p. 27), «passadeiras de madeira mal amanhadas» (p. 33), «o cardeal patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira» (p. 38), por exemplo.

[Texto 23 418]

Como se traduz por aí

A dor é toda nossa


      «— Pode, Edward, se assim desejar — respondeu Julian com uma gargalhada perplexa e uma pontada de curiosidade que disfarçou o melhor que conseguiu» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 84).
      Como se fosse uma dor. Ando agora a encontrar com frequência este erro incompreensível, este disparate. O que se lê no original? Lê-se «a surge of curiosity»; logo, vaga ou onda de curiosidade. E, contudo, na página 149 já a tradutora soube ver, vá lá, que surge of affection era «onda de afeição».

[Texto 23 417]

Um exemplo: «burca»

Não devia ser assim


      «O Presidente da República, António José Seguro, promulgou ontem a chamada “lei das burqas”, considerando tratar-se de uma “matéria de grande sensibilidade social e cultural, em que é de extrema dificuldade definir fronteiras e valorizar de forma equilibrada direitos e deveres”» («Seguro promulga lei das burqas. Rosto destapado é ‘confiança social’», José Volta e Pinto, Público, 19.08.2026, p. 39). 
      Nisto, o Público continua a prestar-nos um péssimo serviço. Então a própria lei escreve burca, aportuguesamento já aceite e devidamente dicionarizado, e um jornal que, por outro lado, é um precioso, louvável e até abençoado bastião contra a porcaria do Acordo Ortográfico de 1990 resolve impingir-nos a abstrusa grafia burqa? Para quê este estrangeirismo perfeitamente escusado, quando temos uma palavra portuguesa estabelecida, transparente e sem nenhuma ambiguidade? 

[Texto 23 416]

Definição: «siciliano»

Quase romance: sicilianos, peixeiros e uma louca


      As personagens, ou pelo menos uma, um peixeiro, aqui de certo romance falam siciliano. Infelizmente, para os nossos dicionários, é tão-somente o «dialecto da Sicília», nem mais uma palavra. Na realidade, podia dizer-se assim ➠ siciliano LINGUÍSTICA sistema de dialectos ítalo-românicos falados na Sicília e nas ilhas adjacentes, pertencente ao grupo dos dialectos meridionais extremos. 
      (E, com isto, lembrei-me do peixeiro da minha infância, o Lau, cuja mãe era louca e me assustava. Hoje em dia já nenhuma criança conhece peixeiros. Loucos ainda há.)

[Texto 23 415]

Como se traduz por aí

Nada disso


      «A intimação da morte de Deborah ao próprio Julian chegou com um toque imperioso da sineta da loja às seis da manhã. Vestindo apressadamente o roupão, correu escadas abaixo e deu com Lily, de olhos vermelhos, expressão infeliz e sem palavras, à entrada» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 182). Eh lá... Aqui temos pelo menos três erros, sendo que o maior, o mais crasso, é o primeiro. Intimação? E com aquela construção arrevesada, ainda para mais. 
      Mas vamos ao original: «Julian’s own intimation of Deborah’s death came with an imperious ring of the shop bell at six in the morning. Throwing on his dressing gown, he hurried downstairs to find Lily, dry-eyed, grim-jawed and speechless, standing on the doorstep.» Dry-eyed significa precisamente «de olhos secos», «sem lágrimas». Le Carré está a caracterizar a maneira como Lily contém o sofrimento: não está a chorar. «Olhos vermelhos» não só não consta do original como pode sugerir justamente que estivera a chorar. E grim-jawed vertido por «expressão infeliz» também apaga uma imagem muito concreta. Jaw está lá por alguma razão: Lily tem a mandíbula/maxilares cerrados, sinal físico de tensão, sofrimento ou determinação. «Expressão infeliz» é simultaneamente mais vago e interpretativo. Logo, seria muito mais assim: «Julian teve o primeiro indício da morte de Deborah quando, às seis da manhã, a campainha da loja tocou imperiosamente. Enfiou à pressa o roupão e correu escadas abaixo, dando com Lily à porta, de olhos secos, maxilares cerrados e sem palavras.»

[Texto 23 414]

Léxico: «tapete»

Olhos nos olhos


      Podia ser a pedido do meu gato, mas não, a designação está documentada, inclusivamente em trabalhos portugueses de medicina veterinária da Universidade de Lisboa, pelo que temos de dicionarizar esta acepção de ➠ tapete ZOOLOGIA, ANATOMIA camada reflectora situada na retina ou por detrás desta, presente nos olhos de certos animais, nomeadamente dos gatos, que devolve a luz através da retina, aumentando a capacidade de visão em condições de fraca luminosidade; tapete lúcido; tapetum lucidum.

[Texto 23 413]

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