«Quase», advérbio de?...

Para nada ficar de fora

 

      No sábado, em mais uma edição de Uma Noite em Forma de Assim, Jorge Afonso recebeu David Erlich, autor da novíssima obra 21 Lições de Filosofia (Planeta, 2026). «Vinte e Uma Lições de Filosofia para Viver Uma Vida quase Boa. Mas porque é que colocas o advérbio de modo “quase”?», perguntou o anfitrião. «É uma bela questão.» 

      Já vi que há por aí ciberdúvidas, e até notórios ciberdislates, sobre este advérbio. O modo seria expresso por palavras como «bem», «mal», «sabiamente», «intensamente», etc. Compare-se: viver bem uma vida / viver mal uma vida / viver sabiamente uma vida. De acordo com o Dicionário Terminológico, podemos encaixá-lo entre os advérbios de inclusão e exclusão. Afinal, o que caracteriza os advérbios de inclusão e exclusão é precisamente a sua relação com fronteiras categoriais e conjuntos. Veja-se: só o João veio → exclusão dos restantes; até o João veio → inclusão de um elemento inesperado; mesmo João veio → reforço da inclusão. Ora, em: quase bom; quase cem; quase morreu; quase um milagre; «quase» também opera sobre uma fronteira. A diferença é que não inclui nem exclui propriamente: situa a entidade imediatamente antes da inclusão. É justamente por esta razão que há autores que vão mais longe e o incluem num subgrupo a que chamam advérbios de aproximação.

[Texto 23 086]

 

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P. S.: Agora a definição de «quase» no dicionário da Porto Editora: «1. muito próximo; perto de; 2. com pouca diferença; 3. por um triz». Não cobre todas as situações. As definições do Houaiss e do Michaelis, por exemplo, são manifestamente melhores. A meu ver, porém, a solução não está em alargarmos o número de acepções, mas antes em reduzir para uma apenas abrangente, em que nada de relevante fique de fora. Assim, proponho ➠ quase advérbio indica aproximação a um estado, condição, quantidade, qualidade ou acontecimento sem o atingir plenamente.


Léxico: «spoofing»

Esta sim, faz lá falta

 

      «O Governo aprovou uma proposta de autorização legislativa que obriga as operadoras a bloquear ou anonimizar as mensagens fraudulentas e a identificar os utilizadores de cartões pré-pagos, segundo o comunicado do Conselho de Ministros. [...] Na segunda-feira, a presidente do regulador Anacom tinha afirmado que o regulador tem estado envolvido no desenho desta futura legislação de combate às fraudes digitais através da técnica do “spoofing”» («Mensagens fraudulentas têm os dias contados? Proposta força operadoras a bloquear “spoofing”», Rádio Renascença, 30.05.2026, 11h21).

      Temos de tratar do caso, Porto Editora. Tanto mais que fui visado — sem consequências, ou seja, não caí na esparrela, isto apesar de parecer muito, muito legítimo — na quinta-feira passada. Assim, proponho  spoofing INFORMÁTICA prática fraudulenta que consiste em falsificar ou mascarar a identidade de uma comunicação, de um utilizador, de um dispositivo ou de um serviço, fazendo-os parecer legítimos ou provenientes de fonte diferente da real, com o objectivo de enganar o destinatário, obter informações, aceder a sistemas ou praticar outras formas de fraude.

[Texto 23 085]

Definição: «democracia»

Estou no sítio certo

 

      Sabiam que Cascais é a Capital Europeia da Democracia neste ano de 2026? E que tal estamos de definições no dicionário da Porto Editora? Mal, assim-assim e bem: «1. sistema político em que a autoridade emana do conjunto dos cidadãos, baseando-se nos princípios de igualdade e liberdade; 2. nação democrata; 3. forma de organização em que todos os membros de um grupo participam em grau semelhante no processo de tomada de decisões sobre esse colectivo». 

      Não sofre dizer (como se exprimem os meus colegas juristas, sempre à cata de arcaísmos e inutilidades) que a democracia actual difere profundamente da democracia praticada nas cidades gregas da Antiguidade. Enquanto a primeira assenta na eleição de representantes pelos cidadãos, a segunda caracterizava-se pela participação directa destes na tomada das decisões políticas. Isto conduz necessariamente à conclusão de que um dicionário tem de ter duas acepções distintas: uma para o conceito político contemporâneo e outra para a realidade histórica que lhe deu origem. É o que faremos na nossa proposta. Quanto à actual 2.ª acepção, «democrata» pode designar tanto o partidário da democracia como, em alguns contextos, o membro de um partido chamado Democrata, logo, vamos evitá-lo. Da actual 3.ª acepção, apenas limpava o burocratês que a deslustra. 

      Tudo visto, proponho  democracia 1. POLÍTICA sistema de governo em que os governantes são escolhidos pelos cidadãos através de eleições livres e periódicas, assente nos princípios da liberdade e da igualdade políticas; 2. HISTÓRIA sistema de governo, especialmente característico de certas cidades da Grécia antiga, em que os cidadãos exerciam directamente o poder político e participavam na tomada das decisões colectivas; 3. POLÍTICA Estado ou país regido por um sistema democrático; 4. forma de organização em que os membros de um grupo participam em condições de igualdade na tomada das decisões colectivas.

[Texto 23 084]

Definição: «madalena»

Quer-me parecer que não

 

      Num romance, aparecem-me várias vezes madalenas, ou não decorresse todo ele em França. Mon cher époux, passez-moi donc une madeleine, je vous prie. Para a Porto Editora, a definição é esta: «CULINÁRIA pequeno bolo de forma rectangular, preparado com ovos, açúcar, manteiga e farinha». Assenta que nem uma luva... a dezenas de tipos de bolos. Vamos lá ver: o que distingue verdadeiramente uma madalena? Não precisamos de Proust, só de olhos. Até prescindimos dos ingredientes. O que salta à vista é a forma de concha estriada e a característica protuberância no topo. Mas a definição da Porto Editora consegue ignorar precisamente aquilo que torna uma madalena uma madalena. Eu sei, eu sei: é difícil. Mas vamos lá, proponho  madalena CULINÁRIA pequeno bolo individual de massa leve e fofa, tradicionalmente cozido em molde estriado que lhe confere forma de concha e caracterizado por uma saliência arredondada na superfície.

[Texto 23 083]

 

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P. S.: Ser «de forma rectangular» é, no mínimo, discutível. A madalena clássica é sobretudo reconhecida pela forma de concha estriada. Pode caber num rectângulo, como quase tudo — aliás, rectangulares somos nós próprios; até Portugal; não a França, que é l’Hexagone —, mas ninguém a identifica por ser rectangular.


Definição e etimologia: «volante»

Nem por milagre

 

      «A Ferrari lançou o seu primeiro carro totalmente elétrico e o novíssimo “Luce” já foi testado por um passageiro muito especial: o Papa. [...] Desta vez, no entanto, a Ferrari não ofereceu um automóvel, mas doou um volante do novo Luce (que significa “luz”, em italiano) ao Sumo Pontífice» («O primeiro Ferrari elétrico em imagens e vídeo. Ferrari acende “Luce” mas perde valor em bolsa», João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 26.05.2026, 13h51). 

      Oferecerem só o volante... que forretas. Bem, mas o carro também não tem grande graça, além de que o papamóvel é muito mais exclusivo. Volante... Os consulentes, os leitores, que consultem os dicionários para saber qual a etimologia também não levam grande coisa. Nem que se deitassem a adivinhar. Para começar, aquela que é agora a primeira acepção, «peça em forma de roda que comanda a direcção do automóvel» (no caso do dicionário da Porto Editora, que já precisa de ser redefinida, pois os volantes têm várias formas), é historicamente a segunda. A segunda do dicionário da Porto Editora, «MECÂNICA peça rotativa de grande massa relativa que regula o movimento de um maquinismo», foi a primeira a surgir nesta área automóvel. Na realidade, dá-se-lhe habitualmente o nome de «roda volante», que é, em mecânica, uma roda pesada que gira continuamente para armazenar energia cinética e regular o movimento de uma máquina, mais frequentemente designada «volante de inércia». Ora, estes sinónimos deviam fazer parte da definição. 

      Assim, também a nota etimológica devia ser mais completa, algo como ➠ do latim volans, volantis, «que voa; que se move rapidamente», particípio presente de volāre, «voar»; inicialmente aplicado, em mecânica, a peças rotativas («rodas volantes»), de onde derivou o actual sentido de «peça circular usada para comandar a direcção dos automóveis».

[Texto 23 082]

Léxico: «semenarca»

Mas menarca já conhecem

 

      «Un libro que pretende educar sin tabúes a niños y adolescentes en su despertar sexual y que está disponible en la sección infantil de muchas bibliotecas e institutos públicos de Cataluña ha causado polémica por sus “formas y planteamientos”. El manual ‘El semen mola’, de la editorial Montena, escrito por la psicóloga en educación y salud sexual Anna Salvia e ilustrado por Cristina Torrón, invita a los jóvenes a estar orgullosos de sus penes “pese al tamaño y forma que tenga” y a autoexplorar “cada semana [...] la bonita forma que tienen sus órganos sexuales externos”, “únicos y preciosos”. En el libro se alude también al semen como “un fluido corporal alucinante” y se instruye a los menores sobre su primera espermaquia o eyaculación» («Pega aquí una foto de tu primera eyaculación», Esther Armora y Jordi Martinez, ABC, 2.06.2026, p. 56).

      Lá está, de pequenino é que se torce o pepino. Em português é espermarca ou semenarca, mas a Porto Editora só regista o primeiro. Dos pepinos nada diz.

 

[Texto 23 081]

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P. S.: Manual (e nunca melhor dito, que isto é tudo feito à mão) que na FNAC custa 6,38 € e na Wook 16,26 €. Wook que se passa aqui? El Semen Mola (Pero Tienes Que Saber Como Funciona). Ainda não tem tradução portuguesa porque os tradutores empancam logo na mola.


Definição: «estrela»

Tempo que já passou

 

      «Un sujet que notre interlocutrice aborde en évoquant la prise de conscience de collectivités quant aux interférences de l’éclairage public, non seulement avec la vue sur les cieux, mais aussi avec la santé des citoyens. La scientifique milite à cet égard pour la multiplication de “réserves internationales de ciel étoilé”. Recensés par l’association Dark Sky, ces endroits d’où l’on peut observer la voûte céleste sans interférence lumineuse offrent une infinité de curiosités: “Entre 2000 et 3000 étoiles sont visibles à l’œil nu, on peut distinguer une planète d’une étoile ou d’un satellite...”» («Une conteuse d’étoiles pour rallumer notre regard», Flavienne Wahli Di Matteo, Le Temps, 20.05.2026, p. 9). 

      Embora contenha informação interessante, é mero pretexto para analisar a definição de «estrela». A Porto Editora ainda é do tempo em que se definia assim: «ASTRONOMIA astro aparentemente fixo que tem luz e calor próprios». O problema desta definição é conservar uma visão antiga da Astronomia, baseada apenas na observação do céu à vista desarmada. Durante séculos, as estrelas pareciam pontos fixos no firmamento, ao contrário dos planetas, os «astros errantes»; daí «aparentemente fixo». Hoje, porém, sabe-se que todas as estrelas se movem e que uma estrela se define não pelo aspecto visual, mas pela sua natureza física: um astro gasoso que produz energia por fusão nuclear e emite radiação própria. Também «luz e calor próprios» é uma formulação ultrapassada, pois a luz e o calor são apenas consequências desse processo. 

      Tudo visto, proponho  estrela ASTRONOMIA astro gasoso, constituído principalmente por plasma, que produz energia por fusão nuclear no seu interior e emite radiação electromagnética própria.

 

[Texto 23 080]

Léxico: «coco-das-maldivas | coco-das-seicheles»

Três nomes, o mesmo sabor

 

      «Há uma planta asiática que Camões refere que é o coco-das-maldivas. Chamam-lhe coco-das-maldivas, mas é nativo das ilhas Seicheles. Como nunca tinham visto este coqueiro, que é uma palmeira, e como o coco ia pelas correntes do mar, das Seicheles às Maldivas, julgavam que nascia no fundo do mar. Fui lá vê-lo [afirma o biólogo Jorge Paiva]» («Jorge Paiva: “A flor que Camões mais cita são as rosas. Não é a que ele mais gosta”», Teresa Firmino, Público, 6.12.2025, 7h15).

[Texto 23 079]

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