Léxico: «snowboardista»

Primeiro passo

      «Equipada a rigor com luvas, óculos, cachecol e fato de neve cor-de-rosa a condizer com as botas próprias para fazer snowboard, Maria de Matos Costa faz a prancha deslizar pela neve de forma admirável. Não fosse o tamanho da criança e facilmente se poderia pensar que aquela “snowboardista” tem larga experiência» («Pistas da serra da Estrela servem para “enganar o vício” da neve», Catarina Canotilho, Diário de Notícias, 10.02.2013, p. 20).
      Por enquanto ainda envolta em aspas assépticas, não tardará a seguir o caminho de outras, como «icebergue», por exemplo, e a trazer o mesmo tipo de problemas.
[Texto 2576]

«Edredão/edredom»

É o que se ouve

      «Quem, ontem, passou junto ao prédio onde vivia o estilista ainda podia ver penduradas numa corda na marquise do apartamento várias peças de roupa, nomeadamente calças e uma blusa, além de uma toalha e de um edredom» («PJ detém fotógrafo por homicídio de estilista», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 8.02.2013, p. 20).
      Também está aportuguesada em edredão, mas a verdade é que quase sempre se usa «edredom». Cócedra, cúlcita ou cúlcitra já nem aparecem em todos os dicionários.
[Texto 2575]

«A meia voz» ou «a meia-voz»?

Isto é uma república

      Continuamos a contribuir, se nos deixarem, para melhorar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porque não há reis (nem rainhas) das palavras. No verbete «sangue-frio», temos a locução a sangue-frio. Contudo, no verbete «meia-voz», não temos a locução a meia-voz, que encontramos — sem hífen — no verbete «voz». Alguém entende isto? Que se apresente.
[Texto 2534]

«Alguém» ou «ninguém»?

Será mesmo exigido pela língua?

      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213). Já tratei desta questão vai para sete anos. Outro Araújo, o excelso João de Araújo Correia, na obra Enfermaria do Idioma, afirma que uma das cismas de Camilo era, em certas frases, «substituir o alguém da sua cachimónia ao ninguém exigido pela sua e nossa língua» (p. 188). Se antes me pareceu que Araújo Correia tinha razão, hoje já tenho dúvidas.

[Texto 2514]

O audacioso «acordo ortográfico»

O pouco e mal que escrevem

      «Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual» («Histórias portuguesas», Vasco Pulido Valente, Público, 11.01.2013, p. 52).
[Texto 2499]

Podem escrever: «subestrutura»

Ora, está mal

      Querem então mais uma incoerência (lacuna, erro...) encontrada nos dicionários? Seja no de sempre. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «substrutura», mas não «subestrutura», ao passo que acolhe o par «superestrutura/superstrutura».
[Texto 2498]

Acordo Ortográfico II

Alguém com juízo

      «A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai continuar a redigir os seus documentos e a sua comunicação de acordo com a norma ortográfica antiga, recusando-se a implementar já as disposições do Acordo Ortográfico (AO). [...] Este polémico dossier teve, esta semana, mais um desenvolvimento na AR, com a aprovação, por unanimidade, na terça-feira, da criação de um Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do AO, sob proposta do deputado comunista Miguel Tiago» («SPA não adoptará o Acordo Ortográfico», Sérgio C. Andrade, Público, 10.01.2013, p. 27).
[Texto 2497]

Acordo Ortográfico

Corrijamos a monstruosidade

      Eis o último parágrafo do texto de Maria Alzira Seixo hoje no Público a propósito do Acordo Ortográfico de 1990: «É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor... Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política — pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” — em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir» («O Acordo Obscurantista», Maria Alzira Seixo, Público, 10.01.2013, p. 47).

[Texto 2496]

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