«Em linha»

Está quase

      «A página original, reproduzida na Vanity Fair, dizia: “Esta é a terceira nomeação de Sharen Davis, que tinha sido anteriormente nomeada por Dreamgirls (2006) e Ray (2004)”. A página esteve pouco tempo em linha (na sexta-feira, dia 4) e foi substituída por um inócuo anúncio a lembrar que “as nomeações serão anunciadas no dia 10 de Janeiro de 2013”. [...] Se não parece haver dúvidas de que a página que chamou a atenção da Vanity Fair foi colocada em linha por erro, é já bastante menos claro que se deva concluir que Davis será mesmo nomeada. Uma fonte da Academia de Hollywood citada pela revista online Atlantic Wire explica que são criadas páginas para “todos os possíveis nomeados”, e que o aconteceu [sic] é que uma delas foi colocada em linha por engano. E há um bom argumento em favor desta explicação: problemas no sistema informático usado na recolha de votos para as nomeações levaram a Academia a prolongar o prazo de votação, que só terminou no dia 5, ou seja, já depois de a suposta fuga de informação ter estado em linha» («Academia de Hollywood deixou escapar nomeação de estilista?», Público, 7.01.2013, p. 48).
[Texto 2487]

«Arriar a bandeira»

Só calhou a vez ao calhau

      No dia 10 do mês passado, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora que no verbete «arriar» incluísse a locução arriar a bandeira. É que o Dicionário da Língua Portuguesa acolhe outra locução — e menos usada, convenhamos: arriar o calhau. Até agora, nada. Entretanto, continuo a ver todas as semanas a calinada «arrear a bandeira». Todas as semanas, há meses.
[Texto 2486]

Léxico: «panilas»

Se fosse do quimbundo...

      «A mulher soltou-me o braço com um sonoro muxoxo: “Panilas! Todos os pulas são panilas.” Estalaram gargalhadas. Havia mais gente ali. Vultos encostados às paredes» (Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009).
      São assim os nossos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «muxoxo» – do quimbundo, note-se –, mas não «panilas». Ah, sim, e «pula» na acepção do texto, pessoa de raça branca, até pode derivar do verbo «pular», mas é termo angolano.
[Texto 2485]

Léxico: «yé-yé»

Ora não sei porquê

      Ou yeyé, ou ieié... Enfim. Não está em nenhum dos dicionários que consultei. Vem do francês e há-de ser, como chachachá, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe, de origem onomatopeica.
[Texto 2484]

Palavra de 2012

Venceu a insensatez

      «É o estado de espírito do país que durante 2012 andou às voltas com a troika. Não será por isso de estranhar que “entroikado” tenha sido eleita a palavra do ano numa votação organizada pela Porto Editora. O adjectivo não terá sido usado com muita frequência, mas é a palavra que parece representar melhor o ano que acabou agora» (“Entroikado” é a palavra num ano de crise, cortes, impostos e desemprego», Cláudia Carvalho, Público, 5.01.2013, p. 26).
      E não, não terá sido usado com muita frequência, se é que alguma vez se usou. Nunca esteve na presença dos meus ouvidos ou dos meus olhos.
[Texto 2483]

Como se fala nos tribunais

Assim mesmo

      «João Aibéo aproveitou ainda as alegações finais para deixar um lamento: “O Ministério Público aguentou estoicamente ao longo destes oito anos [de julgamentos] afirmações absolutamente inadmissíveis”, afirmou, recordando o dia em que Sá Fernandes lhe lançou um shame on you — assim mesmo, em inglês e em plena audiência» («Carlos Silvino tem “complexos de homossexualidade”, acusa procurador em julgamento», Ana Henriques, Público, 4.01.2013, p. 8).
      Assim mesmo – sim, porque em português não há, como é sabido, palavras que cheguem para exprimir tal coisa.
[Texto 2482]

«Quando muito»

Ainda não

      «Antigamente, as “crises” da economia e das finanças do Estado afectavam pouco mais do que a classe média e a pequena burguesia de Lisboa e do Porto, que por causa da fraqueza da moeda deixavam de poder importar “produtos de qualidade” (a moda francesa, por exemplo) e, coitadinhas, viajavam menos. Por isso, as “crises” do liberalismo não provocavam revoluções; provocavam, quanto muito, “uniões nacionais”, que a certa altura os levaram juntinhos para o governo (sem faltar um único), pendurados numa gerigonça chamada “A Fusão” (que tanta gente, ainda em 2013, incita o dr. Cavaco a fabricar)» («Quem não sabe?», Vasco Pulido Valente, Público, 4.01.2012, p. 48).
      Quem sabe, talvez venha a ser assim, mas, por enquanto – e neste caso os dicionários portam-se bem­ –, é quando muito, isto é, no máximo, se tanto, que se diz e escreve.
[Texto 2481]

Léxico: «assistencialismo»

É isso mesmo: só todos juntos

      Parece sempre mentira, mas é sempre verdade: faltam nos dicionários termos corriqueiros e outros que, embora mais incomuns, há muito, porém, são usados. Seja hoje «assistencialismo». É a tal doutrina que manda dar o peixe em vez de ensinar a pescar — para apaziguar a sociedade e a classe dominante continuar a ter boa consciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece. Por isso não é de estranhar que também não registe «oblomovismo», não é assim?
[Texto 2480]

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