Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]

Léxico: «carne verde»

Talvez devesse estar

      «No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc.» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Naturalmente que os dicionários não podem registar todos os termos e expressões da língua, mas as que vão aparecendo nos meios de comunicação não deviam lá faltar. Carne verde é o nome que se dá à carne de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação.
[Texto 2451]

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]

«Disco duro»

E é mesmo

      «As fotografias e vídeos estavam catalogados por temas mas também com os nomes pelos quais as vítimas são conhecidas nas redes de pedofilia internacionais. Armazenava os filmes em pen drives de grande capacidade ou em discos duros de computador» («Juíza recusa que pedófilo cumpra pena suspensa», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 20).
      Raramente se vê, agora, «disco duro». Amílcar Caffé, no Ciberdúvidas, afirmou que é tradução infeliz do inglês hard disk.
[Texto 2431]

Desgraçadíssimo verbo «haver»

É o fim do mundo

      Apesar do prometido fim do mundo anunciado para hoje (a que horas?), continua tudo mais ou menos na mesma. Os erros crassos com o verbo «haver», por exemplo: «Chegavam a haver professores em regime noturno, onde cada hora contava por hora e meia, a dar oito horas de aula semanais e a receber por horários completos» (Jorge Pedreira, ex-secretário de Estado adjunto e da Educação, em entrevista ao Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 5).
      Doze anos de escolaridade não chegam. Aponte aí, senhor ex-secretário de Estado adjunto e da Educação: quando o verbo «haver» exprime existência e vem acompanhado de auxiliares, a locução continua a ser impessoal. «Aos fins-de-semana gosta de acordar com o bulício das garotinhas (chegou a haver 13 em São Bento) a rirem, a tagarelarem» (Máscaras de Salazar, Fernando Dacosta. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 51).
[Texto 2418]

«Os Censos»

Alguém normal

      «No ano 2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. A projeção é retirada dos Censos 2011, que revela que o País pode estar a caminhar para o envelhecimento generalizado da sua população. Atualmente, por cada cem jovens Portugal tem 129 idosos, uma tendência que se pode agravar com a atual crise económica» («Portugal já tem cem jovens para 129 idosos», André Rito, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 14).
      Ainda ontem ouvi na Antena 1, e ouço e leio com alguma frequência, «o Censos». Também já tínhamos visto esta falta de concordância no Assim Mesmo.
[Texto 2406]

Ortografia: «sub-bacia»

Segundo o desacordo

      «As três novas espécies, a lampreia da costa de Prata (Lampreta alvariensis), a lampreia do Nabão (Lampreta auremensis) e a lampreia do Sado (Lampreta lusitanica) foram batizadas segundo o local de origem. Assim, a primeira é endémica das bacias hidrográficas do Esmoriz (Ovar) e do Vouga; a segunda só existe na subbacia afluente do Nabão, na margem direita do Tejo, e a do Sado não tem nada que enganar» («Três novas espécies de lampreia», Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 30).
      O jornalista julga que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, é assim que se escreve, com dois bb juntos. Não é assim segundo nenhum acordo.
      E o nome científico da lampreia não é Lampreta nem Lã Branca, é Lampetra. Para que conste.

[Texto 2403]

«Litigação/litigância»

Quem diria

      É inacreditável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «litigância», que é sinónimo, e porventura mais usado, de «litigação». Rebelo Gonçalves, valha a verdade, também não o regista.
[Texto 2399]

Arquivo do blogue