Como se escreve nos jornais

É o jornalismo!

      «Acontece que o mercado é igualmente lesto a propor outros produtos ilícitos em resposta às novas proibições. Os fabricantes de drogas sintéticas, assinala o relatório, cujos dados são relativos a 2009, estão a empregar técnicas sofisticadas para contornar as proibições legais: as substâncias químicas precursoras utilizadas na produção de drogas como o ecstasy são, por exemplo, disfarçadas em “substâncias químicas não-controladas”. Há, também, vários casos de produção de comprimidos de ecstasy através dos denominados “pré-precursores”. Confuso? É química» («Consumo das velhas drogas desce, ameaça das novas drogas aumenta», Amílcar Correia, Público, 16.11.2011, p. 14).
      Nada confuso, caro Amílcar Correia — sobretudo porque nem sequer tentou explicar. Mas está bem.

[Texto 683]

«Mandato/mandado»

Caem sempre nos mesmos erros

      «A defesa, a cargo do advogado José Galamba, replicou que a esta lhe importava apenas a descoberta da verdade material e, num discurso que durou uma hora e meia, explorou as várias contradições entre as testemunhas e chegou mesmo a chamar “grandes mentirosos” a elementos da GNR, PSP e Polícia Judiciária que disseram que tinham esperado pelo mandato judicial antes de entrar na vivenda suspeita de Óbidos» («MP pede “pena elevada” para etarra de Óbidos», Carlos Cipriano, Público, 16.11.2011, p. 13).
      Mandato judicial. Também existe, é inegável, mas significa outra coisa: mandato que confere poderes de representação em juízo a um profissional do foro.
[Texto 682]

Léxico: «irracionável»

Ai Weiwei

      «Mas numa entrevista por telefone à Reuters, o artista diz-se pessimista quanto ao êxito do recurso. “Todo o procedimento, até agora, todos os passos, foram ilegais e irracionáveis”, afirmou já depois do pagamento. “Não recebemos nenhuma explica- ção, por isso é muito difícil para nós esperar que o nosso pedido para uma revisão administrativa obtenha uma resposta razoável.”» («Ai Weiwei paga 930 mil euros para contestar crime fiscal», Público, 16.11.2011, p. 22).
      «The whole procedure, up till today, every step has been illegal and unreasonable», lê-se no texto da Reuters. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «irracionável» significa que não tem fundamento, irracional. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e o velho Morais não atesta nada de muito diferente, contudo, irracionável é apenas o que é contrário à boa razão; desarrazoado; insensato, louco.
[Texto 681]

Como se fala na rádio

A lenda do Pátio da Morte

      «Mas D. Lopo não tinha morrido ainda, e reunindo todas as forças que ainda possuía, ergueu-se a custo do chão e, com a espada, deferiu um golpe mortal a D. Alvim» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 15.11.2011).
      Foi muita generosidade ter deferido, concedido um golpe mortal ao adversário, embora D. Alvim até preferisse, aposto, que o golpe fosse diferido. Está aqui o embrião de um exército invencível: Pedro Lomba a bramir o estandarte e Mafalda Lopes da Costa a deferir golpes.
[Texto 680]

Sobre «coevo»

E depois?

      Uma professora de História quis saber se podia usar o termo «coevo» (que, contudo, disse ser um «arcaísmo») numa construção como «estas pedras tumulares são coevas dos reis da nossa primeira dinastia». Quis saber — mas tinha as suas ideias. «Vendo bem», concluiu, «não, porque misturamos coisas com pessoas. Melhor será usar “contemporâneo”.» E depois?
      «Dominando sobre esses mesmos campos e olivais, coevos de tantas gerações anteriores, etc.», leio nas memórias de Luz Soriano. Está bem, Luz Soriano não é a melhor autoridade. Cá está: Alexandre Herculano nos Opúsculos: «Alli sempre os nossos bispos foram tidos em grande consideração: eram membros do tribunal de mathematica, um dos seis tribunaes coevos com a fundação da monarchia, empregados em altas commissões, etc.»
[Texto 679]

Tradução

Mito ou verdade?

      «Milhares de pessoas em traje de gala enchem cada um dos muitos clubes de Atenas. Os parques de estacionamento estão repletos de Porches [sic] e dentro dos recintos há empresários, financeiros, políticos. No fundo, segundo um taxista que espera à porta de um destes clubes, a actividade de todos eles é a mesma: lamoya. A palavra é intraduzível. Significa algo entre a economia paralela, negócios ilegais, criminalidade pura e uma atitude de promíscuo e arrogante desprezo perante os poderes públicos» («“O Governo grego dá grandes golpadas, nós damos pequenas”», Paulo Moura, Público, 13.11.2011, p. 14).
      Intraduzível, Paulo Moura? Veja lá, o nosso léxico não é assim tão pobre. Os anglo-saxónicos parece que não têm dúvidas em traduzir lamogio (λαμογιο) por «vigarista». E acresce que λαμόγια, ao que parece, tem origem no espanhol. Não ajudará a fazer luz?
[Texto 678]

«Revisora editorial»

Acontece que

      «Acontece que a revisora editorial do romance, a professora Teresa Toldy, fez no PÚBLICO declarações que não posso ignorar. Tenho o maior apreço pela professora Toldy, uma teóloga reputada que, com o seu olho clínico, muito me ajudou a afinar o romance. Mas temos um ponto de divergência relativamente a um conjunto de textos do Novo Testamento que eu considero fraudulentos e ela não» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
      Será que a Professora Teresa Toldy é mesmo revisora editorial? O que é um revisor editorial? Ou será antes revisora técnica? Por vezes, parece que o adjectivo que se lhe segue serve somente, ad cautelam, para distinguir de revisor da CP... Questões a debater.

[Texto 677]

Tradução: «high five»

Bate aí!

      E por ler agora aqui no Público a palavra agur [«adeus» em basco], lembrei-me de uma tradução do inglês. As personagens — que, é verdade, não eram dois compadres alentejanos — acabavam a despedir-se com «o high-five». Espremidos os miolos, não saiu nada português.
[Texto 676]

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