«Posar/pousar»

Deixa-os pousar...

      «No centro histórico de Havana, velhas cubanas pousam para os turistas com os seus vestidos coloridos e um charuto junto à boca. Mas são poucas aquelas que os fumam verdadeiramente. E se o cenário é assim em Cuba, pior é no resto do mundo, onde a imagem de uma mulher a fumar charutos ainda é menos comum. Mas não por muito tempo, se os planos correrem bem à estatal Habanos S. A. que de olho no público feminino acaba de lançar os Julieta» («‘Julieta’, um charuto só para mulheres», Susana Salvador, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      Este é, para muitos, um caso menor, comezinho, desculpável, etc. Será, será. Contudo, se é assim tão insignificante, menos desculpa terão para tal deslize. Pousar, cara Susana Salvador, é diferente de posar. A não ser que objecte, à semelhança de certo professor universitário, que escreve assim para evitar o galicismo...

[Post 4534]

Pronúncia. Dissimilação

Afinal, é de mau gosto

      Comecemos por dizer, com Vasco Botelho de Amaral, que as disputas à volta da pronúncia são insensatas. E façamos como ele: falemos, mais uma vez, de pronúncia. No último Câmara Clara, com o tema «Gainsbourg e os outros franceses», uma das obras referidas foi Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro. Paula Moura Pinheiro, no que pode ter sido lapso, mas isso não interessa, pronunciou a palavra «príncipes» sem dissimilação. A pronúncia normal, como se sabe, é com dissimilação, tal como se faz com os vocábulos «vizinho», «ministro» e outros. Só refiro o caso porque ainda na semana que passou uma professora de Português me confessava que nunca tinha compreendido porque se havia de pronunciar dessa forma. Vou revelar-lhe um segredo, cara M.: não tem de pronunciar dessa forma. «Não quere isto dizer que os que pertençam a regiões, onde fique natural a manutenção dos ii, sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que me parece especioso é, sob color de gôsto de sonoridade, cair-se no mau gôsto de ajanotar a fala quotidiana» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 266).

[Post 4533]

«Herculano», pronúncia

Repita lá

      No programa Páginas de Português desta semana, que acabei de ouvir, alguém (um actor, decerto) leu a carta premiada do mês, na rubrica «Uma Carta É Uma Alegria da Terra». O texto referia Alexandre Herculano. «Olha o Hérculano...», ouviu-se. Leiam e digam-lhe, por caridade.

[Post 4532]


Ortografia

Um pouco de severidade

      «O Parlamento açoriano, através do PS, rejeitou a proposta do CDS-PP que visava a criação de um pacote “atractivo” de viagens a São Jorge, destinado aos caçadores das outras ilhas do arquipélago e do Continente, para incentivar o abate do coelho bravo, que tem vindo a causar severos danos à agricultura local» («O coelho que aflige a ilha de São Jorge», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 44).
      Às vezes, também lhes chamam, neste mesmo jornal, coelhos-bravos: «Dissimulado entre a erva alta, bem camuflado na sua pelagem castanho-acinzentada, um coelho-bravo pasta calmamente, mas sempre atento aos predadores» («A fuga aos ziguezagues da extinção», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 60). Mas esquecem-se, coitados.
      E os «severos danos» são, logo seis linhas mais à frente, «sérios prejuízos».

[Post 4531]

«De forma a/por forma a»

Sendo assim

      «Por forma a» ou «de forma a»? Responde Sara Leite: «O problema — que não é um verdadeiro problema — está na escolha entre uma e outra, quando o objectivo é usar correctamente a nossa língua: é que a locução de forma a é desaconselhada pelos puristas, que a consideram um galicismo desnecessário (ver Ciberdúvidas) mas, por outro lado, a expressão por forma a ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos.»
      Ai isso é assim? «Não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta»? Para sermos rigorosos, cara Sara Leite, há outras formas de dizer o mesmo.

[Post 4530]


Léxico: «recuperador»

Por um triz

      «Numa pequena sala da base aérea militar do Montijo, três homens vestem-se para entrarem em acção. Fatos de neoprene, capacetes, coletes de salvamento, faca na perna. Na manga salta à vista o emblema da Esquadra 751 com o respectivo lema: “Para que outros vivam”. São recuperadores da Força Aérea Portuguesa (FAP), pescadores de vidas em mares revoltos. Foi graças a estes homens, que trabalham pendurados por cabos presos a helicópteros, que 2520 vidas foram salvas pela Força Aérea Portuguesa ao longo dos últimos 33 anos» («Homens que salvam vidas pendurados em helicópteros», Luís Fontes, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 22).
      O príncipe William (ou direi melhor Guilherme, como se lê na Infopédia?) é co-piloto de um helicóptero de resgate. Os colegas serão recuperadores. A acepção ainda não chegou aos dicionários. Felizmente, ninguém se lembrou (e até eu devia estar caladinho, mas os meus leitores são sensatos) de dizer que são rescuers.
[Post 4529]

«Mandado/mandato»

N.º tal, mas ordem

      «Renato Seabra pode ser extraditado para Portugal? Embora penda já sobre o ex-manequim um mandato para deportação [n.º 88441941], tal só terá efeito quando for libertado» («Dúvidas jurídicas ensombram o futuro de Renato Seabra», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 69).
      Só não aprende quem não quer, e alguns jornalistas recusam-se a aprender. Julgam que aprenderão fazendo. Tudo o que outros já pensaram é-lhes irrelevante. Quantas vezes já aqui falei da confusão entre «mandato» e «mandado»? E mais: não deveria ser ordem de deportação?


[Post 4528]

Linguagem

Estágio na primária

      Alberto Gonçalves conseguiu ver a última emissão do programa Prós e Contras, e sobreviveu para nos contar alguns momentos: «Por regra, as criaturas em questão [os jovens convidados] comunicavam através de lugares-comuns do género “O futuro é nosso!”, ou de puros disparates, de que a insistência na palavra (?) “proactividade” era um dos mais irritantes. Não vi os infelizes que, na tese dos Deolinda, estudaram para ser escravos. Vi meninos estragados pelos pais e pelo ensino indigente a reclamar os privilégios que supõem beneficiar as gerações anteriores e que, a julgar pela retórica pedestre, estudaram pouco. Um deles evocou a queda de Mubarak. Outro proclamou solene: “Não ‘deiem’ estágios mal remunerados.” É improvável que lhes ‘deiem’ estágio algum» («Basta de realidade», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 71).
      É também a tese de João Pereira Coutinho: esta geração quer a vida que os pais e os avós tiveram, a mesma segurança e certeza. Não há-de é haver divergência sobre a ignorância com que falam e escrevem. «Deiem» existe — mas em catalão: deia, deies, deia, dèiem, dèieu, deien. Logo, em catalão todos dirão, e bem, «dèiem», em português só os ignorantes. E não apenas dizem, senão que escrevem, é ver por essa Internet fora. Da evolução do latim para o português sim, a epêntese, o fenómeno fonético que consiste no acrescentamento de fonema ou sílaba no meio de palavra, foi crucial.

[Post 4527]


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