Estrangeirismos na rádio

Língua rápida

      Ouvi e não queria acreditar: Adelino Gomes, provedor do ouvinte da RDP, defende que se usem estrangeirismos, porque «toda a gente diz isso, hoje, na Academia…». Estou mesmo a ver um «académico» desses que andam com uma enxada nas mãos e penduram um radiozinho na cerca enquanto cavam entender must e case study… Mas — preparem-se! — o provedor tem um argumento que ele julga imbatível: «o must é mais rápido» de pronunciar e «mais impactante». Bem, se quisermos uma língua sintética, o melhor é regressarmos ao latim, não ao inglês. Mas isto não ficou assim. O provedor, que debatia a questão do uso dos estrangeirismos com a linguista Regina Rocha, contra-atacou: «Mas deixe-me fazer aqui uma adversativa. E esta adversativa que eu queria trazer é a seguinte: quando nós dizemos must — “é um must” — toda a gente pode utilizar essa palavra e toda a gente compreenderá rapidamente o que se diz…» Tem um vasto programa: quer pôr-nos a todos a falar inglês, porque a língua portuguesa é manifestamente insuficiente para nos exprimirmos. Em suma, para o provedor, os jornalistas só pecam por defeito, deviam usar mais estrangeirismos. «Culpam excusare altera culpa est» (desculpar uma culpa é outra culpa), já diziam os Romanos. No próximo programa, ameaçou, vai voltar aos estrangeirismos. Ai, ai...

[Post 2796]

«Africano» e «anos atrás»

Há excepções

      Miguel Esteves Cardoso também escreve, ai de mim!, «há 20 anos atrás». Na crónica de hoje no Público, na página 39, «Não há excepções», escreve: «Um em cada três portugueses não aceitaria ter como chefe um imigrante. Por outro lado, dois em cada três aceitariam. Há 20 anos atrás seria ao contrário.» Umas linhas à frente, labora (é a primeira vez que uso a expressão) noutro erro: «Depois, à medida que se vai conhecendo mais africanos, as excepções começam a ser tantas e envolvem tantas variáveis (as nacionalidades, as tribos) que acaba por desabar todo o estúpido edifício do racismo.» Talvez, como eu, conheça pessoalmente mais africanos brancos que negros. São todos, brancos e negros, discriminados?

[Post 2795]

Uso do hífen com o prefixo contra-

Ai que medo!

      José António Saraiva também escreve «contra-propaganda». Em qualquer caso, é sempre lamentável ver erros ortográficos, mas ainda será mais lamentável se se tratar de mero temor reverencial do revisor. Só se eu não tivesse trabalhado num jornal é que não sabia que «nos textos do director não se mexe». «Ou melhor, só se percebe tendo em conta que o PS dispõe hoje de uma grande e eficaz máquina de propaganda e contra-propaganda. […] A história de Cavaco e das escutas também mostrou a eficácia da máquina de contra-propaganda socialista — que, como sempre acontece nestas situações, conta depois com alguns idiotas úteis» («Está tudo doido em Portugal?», José António Saraiva, Tabu, 9.10.2009, pp. 64-65).
      Com o prefixo contra-, só devemos usar hífen se a palavra seguinte começar por h, r, s ou vogal: contra-haste, contra-reacção, contra-senha, contra-almirante, contra-espião, contra-indicação, contra-ordem... E assim: contrabaixo, contraceptivo, contracheque, contradança, contradizer, contrafilé, contragolpe, contramão, contrapartida, contrapeso, contraponto, contrapropaganda, contraproposta, contraprova, contraveneno…

[Post 2794]

«Primus super pares»

Argumento jurídico ou linguístico?

      «Os advogados de Berlusconi, por seu lado, centraram a defesa em dois pontos. Primeiro, a lei Alfano não dá imunidade vitalícia, mas apenas a suspensão temporária enquanto a pessoa estiver no cargo. Segundo, Berlusconi distingue-se dos restantes cidadãos pela importância das suas funções, que não pode exercer serenamente se estiver a preparar a sua defesa em tribunal. "O primeiro-ministro não pode ser tratado como um parlamentar comum, deve ser tratado como o primus super pares, o primeiro acima dos pares”, alegou Gaetano Pecorella» («Berlusconi de novo na mira da justiça», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 7.10.2009, p. 25). O primus inter pares da tradição liberal passou, congeminado pelos advogados de Berlusconi, a primus super pares. Aqui, contudo, o latim não sai maltratado, pois apenas se substituiu uma preposição por outra, e ambas são regidas por acusativo.

[Post 2793]

Latim macarrónico

E mal agradecidos

      «Populares durante anos, os carros tornaram-se viaturas non gratas entre os condutores a favor do tom prateado, a cor que ainda domina as estradas, a par do preto. Até ganharam a alcunha de “frigoríficos”» («Carros brancos já não são frigoríficos pirosos», L. S., Diário de Notícias, 7.10.2009, p. 51). Não sei como é que os jornalistas se atrevem a escrever numa língua que não dominam. O latim é uma língua declinável — o plural não se obtém da forma como se obtém em português. Gratas, em latim, é acusativo plural. O nominativo plural é gratae, logo, o jornalista deveria ter escrito non gratae.

[Post 2792]

Bíblia. Uso do itálico

Só em inglês

      «Uma Bíblia “sem aditivos”. Foi assim que Timóteo Cavaco, da Sociedade Bíblica Portuguesa, se referiu à nova tradução da Bíblia ontem apresentada em Lisboa» («Apresentada edição da Bíblia “sem aditivos” com Samuel Úria a cantar “Saramago é bom”», António Marujo, Público, 21.10.2009, p. 10). É preciso consultarmos obras de referência anglo-saxónicas para saber que, com o nome de livros religiosos ou sacros, não se usa itálico: Bíblia, Alcorão. É uma excepção, pois, como sabemos, o itálico usa-se para realçar os títulos de obras literárias jornais, revistas e outras publicações de natureza semelhante. Tal como os livros da Bíblia também não são grafados entre aspas.

[Post 2791]

Judeu/judaico, de novo

É pena

      «Um ou dois deputados judaicos do Knesset tentaram ajudar — na sua maioria, os deputados mais liberais» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 108). Numa legenda de um mapa do Plano de partilha de ONU (1947), na página 11, por seu lado, podia ler-se: «Estado judeu». Ninguém viu que estava incorrecto. (Ou, para ser prudente e justo, talvez até alguém tenha visto, mas quem manda achou que não — como sucede também comigo…)

[Post 2790]

Tradução: «volatile»

Ainda explode

      De uma maneira geral, volátil é vocábulo que só vejo em traduções. E tenho sérias dúvidas sobre a propriedade com que é usado. Valha este exemplo: «O Médio Oriente talvez seja a mais volátil região do mundo e aquela cuja instabilidade é a ameaça mais persistente à paz global» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 23). O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de volatile «volátil», sim, mas, no âmbito da química, referido a um líquido. Referido à economia, ao mercado, a uma situação traduz por — instável. Referido, por fim, a uma pessoa, «volúvel», «inconstante». Volátil deve então ser por causa de a região ser rica em petróleo…

[Post 2789]

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