Cores (I)

Quase catálogo

«Não senti raspas de contrariedade quando se aproximou um rapaz, todo de amarelo-torrado, que deduzi ser o namoradinho em exercício» (Primeiro as Senhoras, Mário Zambujal, p. 30).
«Os seus quadros, cuja boina original era castanha, usam agora uma de cor verde-seco» («Forças Armadas portuguesas têm quatro forças especiais», Diário de Notícias, 18.4.2008, p. 7).
«Caminhamos seis horas por trilhos intocados. Atravessamos pontes suspensas, a mais alta a setenta metros do rio, um rio azul-cobalto, o maior e mais caudaloso do Nepal, que serpenteia o vale e agarra a cordilheira num longo abraço» («Nos Himalaias com João Garcia», Tiago Salazar, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 19).
«A noite estava macia e o céu era de um escuro azul-safira sobre os reflexos opalinos do mar de Cascais que marulhava preguiçosamente» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, pp. 46-47).
«Aproximando o cigarro da chama, ela pôs em concha as mãos de dedos longos e unhas pintadas de um vermelho-vivo» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, p. 56).
«Marcou a gola alta com uma larga pincelada vermelho-escura» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, p. 238).
«São grenás, já o dissemos, e têm bordadas a coroa e uma pomba branca» («Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também», Sandra Silva Costa, Público/P2, 7.06.2009, p. 5).
«Uma colcha azul-damasco com franjas, a primeira fronha e a roupa que usou em bebé, bordados pela mãe, testemunham a infância» («Espólio antecipa regresso de Jorge de Sena», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 18.06.2009, p. 29).
«Não daqueles em que o mamilo é como uma teta, mas sim grande, rosa-acastanhado-claro, que é tão excitante» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 32).
«Parava à frente de uma pessoa, pequena como era, com as pernas ligeiramente afastadas, especada, cheia de sardas, o cabelo louro curto, sem qualquer maquilhagem a não ser bâton vermelho-vivo, e o seu grande sorriso confessional: é isto que eu sou, é isto que eu faço, se não gostas, paciência» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 48).
«Carolyn ainda era bonita, com feições radiantemente grandes, embora, por baixo dos olhos cinzento-claros, as órbitas a puxar para o grande parecessem diáfanas e fatigadas, não tanto, achei, por causa da sua insónia crónica, mas sim devido àquela mistura de decepções que não é rara nas biografias de mulheres profissionais bem-sucedidas na casa dos quarenta, cujas refeições nocturnas lhes são com frequência entregues à porta dos seus apartamentos em Manhattan, numa embalagem de plástico, por um imigrante» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 47).
«Dissimulado entre a erva alta, bem camuflado na sua pelagem castanho-acinzentada, um coelho-bravo pasta calmamente, mas sempre atento aos predadores» («A fuga aos ziguezagues da extinção», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 60).

Género de «Festschrift»


Sem ofensa

Caro M. C.: tanto quanto tenho visto, o mais habitual é atribuir-se o género masculino à palavra alemã «Festschrift»: o Festschrift. À letra significa, como saberá, «publicação de celebração». É uma obra, geralmente editada por instituições do ensino superior, em que se homenageia um académico reputado. Logo, deveria ser «a Festschrift». Ou, mais rebuscadamente, terá em mente, quem assim escreve, a tradução «documento escrito comemorativo»? Ou nada disto — saindo o que calha?

«O suficiente»

Pormenores

      «Também são sólidos o suficiente para afastarem a maioria dos visitantes, amigos e aliados» (Quente, Plano e Cheio, Thomas L. Friedman. Tradução de Carla Pedro e revisão de Marta Pereira da Silva e Almerinda Romeira. Lisboa: Actual Editora, 2008, p. 12). Embora, sem se distinguir pela vernaculidade, actualmente seja forma admitida (e o que não o é?), não é a mim que me apanham a escrever assim. Prefiro sempre: «Também são suficientemente sólidos para afastarem a maioria dos visitantes, amigos e aliados.»

Iliteracia

Imagem: http://www.diariodetrasosmontes.com/

E esse ensino primário?

No noticiário das 9 da manhã na Antena 1, Eduarda Maio falou da inauguração da ponte internacional de Quintanilha, sobre o rio Maçãs, em Bragança, prevista para hoje. No local estava o repórter Virgílio Cavaco, que, depois de ter dito que o atraso na abertura da ponte se deveu ao facto de os acessos do lado espanhol só agora terem sido concluídos, disse «como tu referistes». Ainda que uma tratadora de cães fale assim, vá que não vá — mas um jornalista? Como disse a propósito dos professores, é uma absoluta, completa e irremissível vergonha. Na televisão, na escola, na rádio… estamos bem entregues.

Relativas cortadoras (III)

Indesculpável

«Tinawi disse que, apesar de discordar de algumas das colunas de opinião que escrevi, em especial sobre o Médio Oriente, tinha lido um texto que gostava particularmente e que ainda guardava consigo» (Quente, Plano e Cheio, Thomas L. Friedman. Tradução de Carla Pedro e revisão de Marta Pereira da Silva e Almerinda Romeira. Lisboa: Actual Editora, 2008, p. 11). Já aqui abordei duas vezes a questão das relativas cortadoras. Se é, de alguma maneira, compreensível na oralidade, é indesculpável na escrita, e ainda mais numa obra em que trabalharam duas revisoras.

Como se fala na televisão

Não é assim?

Já aqui dei conta, várias vezes, dos erros em séries infantis e programas de animação. Ultimamente, tornou-se-me evidente um facto: já ninguém pergunta, como qualquer português medianamente alfabetizado fazia outrora, se «está bem» ou «não é assim», mas se está «certo», tradução atamancada do «right» inglês. Nas dobragens de desenhos animados, ouve-se todos os dias. De maneira que, se não estamos todos, como o provedor do Público, risivelmente, queria, a dizer OK, não andamos longe disso. Ainda ontem estive toda a manhã com 30 crianças e ouvi várias vezes o «certo?». Daqui a pouco mais de uma dúzia de anos, alguns deles poderão ser professores, e o que vão ensinar?

Tradução: «boutique»

E agora?

«O Maréchal de Cour de Frederico disse que a boutique inteira se considerava sob a protecção de Grumbkow» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 47). Perante o contexto, até o leitor mais inexperiente e falho de cultura sabe que não se trata de uma loja ou armazém. Contudo, uma consulta ao Dicionário Francês-Português da Porto Editora não o deixa com maiores certezas, pois todas as acepções deste vocábulo andam à volta deste núcleo. Uma consulta a um dicionário unilingue diz-nos que boutique significa, em particular, o «groupe restreint pratiquant l’esprit de corps dans les affaires qui le concernent» (in TLFI).

«A cargo de»

Parecido, sem dúvida

«Apesar do ódio e do desprezo que Frederico Guilherme nutria pelos súbditos de sua Majestade Cristã, deixou o filho pequeno ao encargo de dois protestantes franceses» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 22). Vejo este erro com alguma frequência. Na realidade, a locução preposicional é a cargo de, que significa «à responsabilidade de, por conta de». Em espanhol também se diz «a cargo de», e em francês, «être à la charge de». «Los tribunales han dado la puntilla definitiva a la denuncia del Grupo Popular de Elche por el supuesto pago de facturas de actos electorales del PSPV a cargo de las arcas municipales» («La juez no ve delito en las facturas que pagó Avilés», Cristina Medina, El País, 16.07.2009). «La première phase correspond aux rites de guérison de la possession (cf. supra). L’initiée est à la charge de sa marraine et sous la férule d’un ngan» (Le peuple du fleuve : sociologie de la conversion chez les Douala, René Bureau. Paris: Édtions Karthala, 1996, p. 66).

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