Infinitivo não flexionado


Experimente assim

«“Temos a obrigação de fazermos um investimento rápido na língua portuguesa”, disse José Sócrates na declaração final da IX Cimeira Brasil-Portugal, que decorreu no Museu Santa Casa de Misericórdia, em Salvador da Baía», escreve na edição de hoje o Meia Hora. Disse, e disse mal. Deveria ter dito: «Temos a obrigação de fazer um investimento rápido na língua portuguesa.» Nesta frase, devemos empregar o infinitivo não flexionado ou impessoal, porque ele não tem sujeito próprio: o sujeito de fazer é também o sujeito de ter.
Quanto à necessidade de fazer um investimento rápido na língua portuguesa, concordo.

Por que razão


Simples, mas…

É espantoso que um jornalista, alguém cuja ferramenta de trabalho é a língua, erre em algo tão simples. Erro, de resto, que vejo todos os dias em traduções e artigos jornalísticos. Cara Rute Coelho, as orações interrogativas directas e indirectas com nomes expressos como motivo, causa, razão, diabo, diacho, carga de água são introduzidas pela preposição por seguida do determinante interrogativo que. Logo, deveria ter escrito: «Adelina — Ele disse-me que vinha a tribunal e depois disse-me que tinha sido detido [na primeira sessão, em Dezembro de 2006). Até Janeiro [de 2007] não soube por que razão tinha sido preso.» E o revisor, está lá a fazer o quê?

Passar a tocha?


Passar-se

«We’re not going to let George Bush pass the torch to John McCain», disse Barack Obama num comício anteontem em Denver, Colorado. Toda a imprensa de língua portuguesa traduziu aquele «pass the torch» como «passar o testemunho». Bem, não foi toda. No 24 Horas, podia ler-se: «Falando a 150 mil apoiantes, em Denver, Colorado, Obama incitou-os a não permitirem que Bush “passe a tocha” a McCain» («É um clone de Bush…», 28.10.2008, p. 23).
Na Grécia antiga, uma prova de atletismo incluía a lampadodromia ou corrida das tochas. Cada equipa, formada por quarenta atletas, passava de mão em mão uma tocha acesa, vencendo a equipa que conseguisse acender uma fogueira na chegada. Nas universidades norte-americanas disputa-se ainda hoje uma prova em tudo igual. Quanto a torch, tem como étimo o latim vulgar torca, alteração de torques, exactamente o mesmo do vocábulo português «tocha».
A expressão «passar o testemunho», que pertence à linguagem desportiva, é correntemente usada em sentido figurado, especialmente no domínio da política. Talvez nem todos os leitores percebam a expressão «passar a tocha».

Prefixo neo-


Neografia, hein?

Como me dizia uma aluna, lá por serem gratuitos não estão isentos de respeitar a ortografia. O prefixo neo- só conserva o hífen quando o segundo elemento da palavra tem vida à parte e começa por h, r, s ou vogal. Quando lêem as notícias em língua inglesa, têm de adaptar um pouco, não desconhecem isso, espero. Leram, por exemplo, no Washington Post: «In court records unsealed Monday, federal agents said they disrupted plans to rob a gun store and target a predominantly African-American high school by two neo-Nazi skinheads» («Assassination plot targeting Obama disrupted», Lara Jakes Jordan, 27.10.2008). Neo-Nazi. São as regras do inglês. Em português é neonazi.

Grafia dos nomes próprios

Fácil e gentil

A propósito da grafia dos nomes próprios, matéria várias vezes aqui abordada, escreve o Prof. Carmo Vaz: «Em todo o caso, o acordo ortográfico [de 1945] permite o uso de outras consoantes duplas, por razões de ordem etimológica, nobiliárquica ou decorativa, em nomes próprios pelo portador do nome, supõe-se que por isso, ilustre. Assim “Marcello”, “Telles”, etc. É um caso curioso e único de dupla escrita, pois o próprio pode grafar o seu nome com dupla consoante, enquanto os outros terão de grafá-lo apenas com uma consoante, por obediência ao código de escrita, ou por delicadeza, com dupla, como o próprio faz. Por extensão, há casos pessoais de grafias como “Thiago”, “Mathias”, “Ayres”, “Ruy”, etc., que hoje não surpreendem, considerando o leque cada vez mais largo da antroponímia luso-brasileira, originária das línguas mais longinquamente aparentadas, como o árabe, o chinês, alemão, etc., razão por que ainda o mais seguro é escrever o nome dos outros tal como os outros os usam nos seus cartões de visita. É fácil e socialmente gentil» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, pp. 127-28).

Palavrões

In Os meus livros, n.º 68, 7.10.2008, p. 7

Tabus e transgressões


Não é de surpreender que dizer palavrões seja o tabu desde sempre mais transgredido, pois as alusões hipócritas são constantes. Lembrem-se do infeliz «phone-ix». Os eufemismos (e, por vezes, também disfemismos) são mais que muitos. Reparem: na banda desenhada, um conjunto de sinais está em vez dos palavrões ou os palavrões são efectivamente escritos mas na fase de impressão é colocada uma faixa negra sobre as palavras. Contudo, como os erros acontecem, eis que alguém se esquece — ou deverei escrever se «esquece»? — de pôr a faixa. «Os coleccionadores, por seu lado, correram a comprar o número proscrito.» É um jogo, claro.

Notas tironianas

Imagem: http://aedilis.irht.cnrs.fr/

Notarii &c


«E se Cícero ficou na história pela obra portentosa que nos legou, o seu ex-escravo Tiron [ou Tiro] também ficou por se lhe atribuir o primeiro sistema de notação gráfica abreviada, conhecido como Notas Tirónias (Fr. notes tironiennes) que foi usado até à Idade Média. O sistema é simples, pois consistia em fazer corresponder a uma palavra uma breve sinalefa, embora obrigasse os “estenógrafos”, chamados notarii (funcionários que tomavam as “notas”) a bem conhecerem todas as sinalefas, o que ainda mais se complica, quando Séneca elevou estes signos a cinco mil» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. 2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, pp. 141-42).
A designação mais corrente entre nós é notas tironianas ou notação tironiana. É uma matéria amplamente estudada e de grande interesse para os amantes da língua.

Nome das letras

Então, se é assim…

Bem sei que Rebelo Gonçalves tinha outra opinião sobre a matéria, mas todos nos podemos enganar: «Portanto, quando os mestres, animados de boas intenções, insistem em chamar a um c quê e a um g guê (o mais corrente e quase geral até no ensino secundário), para que os seus meninos e meninas leiam bem cama, cola, cuba, gato e gume, esquecem-se de que as crianças, muito mais racionalistas do que possamos imaginar, se amolam a ler cera, cimo, gema e giro» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. 2.ª edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 118).

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