Aspas

A importância das aspas

      «De acordo com Ferreira de Oliveira, que falava durante a apresentação de resultados semestrais da companhia, as estações que encerraram eram de pequena dimensão e não conseguiram atingir a rentabilidade necessária para continuar a operar. Uma realidade que está a preocupar o presidente da Galp. “Há estações de serviço a morrer em Portugal”, conclui» («Galp já encerrou 17 ‘bombas’ este ano por causa da crise», Ana Baptista, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 33).
      A jornalista teve receio de que o pobre e ignorante leitor supusesse, pela leitura do título, que se tratava de engenhos explosivos, pelo que, ad cautelam, usou as aspas. Com as aspas, a acepção mudou logo, não é?

[Texto 359]

Aspas e maiúscula

Águias, Leões, Dragões

      «FC Porto e Benfica decidem hoje quem conquista o título de campeão nacional de basquetebol. O sétimo e derradeiro encontro da final do play-off realiza-se esta noite (20h30, SPTV1), no terreno dos “dragões”. “Está tudo nas mãos do FC Porto e há muito tempo que não perdemos um jogo no Dragão Caixa”, sublinhou o treinador dos “azuis e brancos”, Moncho López, referindo-se à invencibilidade caseira da equipa nesta época. […] Por seu lado, o técnico do Benfica acredita que a maior experiência dos “encarnados” em jogos decisivos poderá desequilibrar a eliminatória» («Dragão Caixa recebe hoje a “negra” que decide o título», T. P., Público, 2.06.2011, p. 36).
      Um leitor pergunta-me se as aspas em «negra» se justificam. Não justificam. O termo pertence à gíria desportiva e está dicionarizado, o que, de qualquer modo, não é condição para se usar sem aspas. Como não se justificam em «dragões», «azuis e brancos» e «encarnados». Estes nomes, aliás, deviam ser grafados com maiúscula inicial: Dragões, Leões, Águias...

[Texto 94]

Aspas

Seu esquizóforo

      «Uma referência para identificar o presumível criminoso era uma “mosca” no queixo» («Duas pessoas mortas a tiro de caçadeira em casa de alterne de Vila Nova de Cacela», Idálio Revez, Público, 25.05.2011, p. 25).
      Somente as aspas e dizer que é no queixo é que põem o leitor — ignorante e desatento — na pista certa: olha, não é o insecto díptero esquizóforo da subordem dos ciclórrafos, com cerca de 80 mil spp. descritas, que se dividem em caliptrados e acaliptrados e numerosas famílias. Porra!

[Texto 54]

Como se escreve nos jornais

Ficamos sem saber

      «No discurso de abertura desta reunião ‘magna’ dos bispos portugueses, D. Jorge Ortiga exortou os políticos a debater “o estado da sociedade portuguesa com ideias claras e propostas autênticas”» («Bispos pedem campanha eleitoral com “transparência e honestidade”», P. C., Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 24).
      Mas a reunião foi magna ou não? Rápido, que eu tenho de ir tomar o pequeno-almoço. Magna: que, pela importância, se sobrepõe a tudo o que lhe é congénere; de grande relevância, como o define o Dicionário Houaiss.
      «Realisou-se essa reunião magna na sala principal do palacete situado na rua da Atalaia, onde annos depois vieram a estabelecer-se as officinas do jornal O Economista, do conselheiro Antonio Maria Pereira Carrilho» (Factos e Homens do Meu Tempo, Pedro Wenceslau de Brito Aranha. Lisboa: A. M. Pereira, 1908, p. 225).
[Post 4743]

Linguagem

Há esperança

      Não sei se sou lido no Olimpo ou não, mas na sua crónica de hoje no Público Vasco Pulido Valente usa — santíssimo Senhor! — o mesmo número de aspas que eu usaria para escrever o mesmo. Temos homem. Temos génio. Para quem está afeito a zurzir em todos, muitas vezes por causa da linguagem, é, porém, um feito menor. Hoje desanca Pedro Passos Coelho e, a propósito dos «pilares», como no islão, escreve: «E, para ir abrindo o apetite à populaça, aprovou por unanimidade no PSD um documento em que definia “pilares” (“pilares”?) num calão indigno do 12.º ano, que não houve português que percebesse ou levasse a sério. De qualquer maneira, a unanimidade agradou a Passos Coelho, que desde pequeno não gosta de conflitos» («Retrato de um chefe», Vasco Pulido Valente, Público, 3.04.2010, p. 36).

[Post 4648]

Uso das aspas

Coma irreversível

      Vasco Pulido Valente será, como afirma Montexto, uma das penas mais bem aparadas do português moribundo de hoje, mas tem algumas manias difíceis de tolerar. Uma delas, e, a meu ver, a pior, é o uso inconsiderado de aspas. No fundo, é como se estivesse a dizer ao leitor que nenhuma daquelas são expressões que ele use. Muito estranho. Um exemplo da sua crónica de hoje, porém, vem demonstrar outro erro já aqui denunciado por mim em relação a outros autores: o uso de comas em sentidos secundários de certos vocábulos. Ei-lo: «O dinheiro não sobrava. Desde a escola que usei fatos virados do meu pai (que ficavam com as “casas”, cerzidas, do lado errado). Os sapatos só se mudavam depois de muitas meias solas. Como, antes do nylon, as camisas, depois de muitos colarinhos de substituição e de uma dezena de punhos novos» («Velhas contas», Vasco Pulido Valente, Público, 27.03.2011, p. 36).
      Para que são as aspas em «casas»? Imagino que, se tivesse usado o termo «botoeira», dispensaria as aspas... Ridículo. Que alguém lhe diga, por favor, conduzindo assim o homem à sua maior grandeza.

[Post 4619]

Aspas

Reflictam

      «Entre agentes da CIA e da segurança pessoal que já se deslocaram para Portugal há várias semanas, as equipas de análise de informações que têm estado a trabalhar com as “secretas” portuguesas e os elementos das equipas de guarda-costas que vão estar mais próximos de Barack Obama, chega às duas centenas o número de pessoas envolvidas na protecção do Presidente norte-americano» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Já aqui perguntei uma vez, mas, paciente, pergunto de novo: para quê as aspas em «secretas»? Trata-se de algum uso metalinguístico? E «presidente» merecerá inicial maiúscula?

[Post 4101]

Castelhanismos

Imagem daqui.

Tapas e gringos


      «A cidade mais violenta do mundo, actualmente, é Ciudad Juárez (191 homicídios por 100 mil habitantes em 2009). De Juárez aos Estados Unidos são cinco minutos a pé, pela ponte sobre o rio Bravo (ou rio Grande, como lhe chamam os “gringos”)» («A violência no México não passa para os Estados Unidos», Alexandra Lucas Coelho, Público, 29.07.2010, p. 6). «No programa do concurso é também definido que produtos deverão ser “preferencialmente” comercializados em cada um dos espaços: no primeiro chocolates, gelados, crepes, chás e cafés, no segundo saladas, frutas e sumos naturais, no terceiro vinhos, queijos e enchidos, no quarto cervejas e petiscos, no quinto tapas e o sexto tem “tema livre”» («Crepes, frutas, queijos e enchidos chegam à Av. da Liberdade em 2011», Inês Boaventura, Público, 29.07.2010, p. 25).
      Daria que pensar este critério de grafar «gringo» entre aspas e «tapas» sem aspas. Daria, se não se soubesse que nos jornais não há muito tempo para pensar — nem sequer sobre o que se fez de mal na edição da véspera. O primeiro uso do vocábulo gringo na língua portuguesa regista-se ainda no século XIX. Tapa tem entre nós um currículo de uma década. Ambos castelhanismos, ambos registados nos mais vulgares dicionários da língua portuguesa. Levado aos limites, seria precisamente ao contrário: «tapas» com aspas e «gringo» sem aspas.

[Post 3742]

Acontecimentos históricos

Invencionice


       «O “Domingo Sangrento” que incendiou a Irlanda do Norte foi há 38 anos. Mas, ontem, as emoções foram vividas como se o tempo tivesse parado» («Acções do Exército no “Domingo Sangrento” foram “injustificadas” e “injustificáveis”», Ana Fonseca Pereira, Público, 16.06.2010, p. 24).
      Desde quando é que o nome de acontecimentos históricos é grafado entre aspas? Nunca, é pura invencionice da jornalista e desmazelo dos copidesques.

[Post 3614]

Uso das aspas

Para rir


      «Alguns dias depois, estava a examinar um dos sinistrados do descarrilamento de um “americano” quando um servente o interrompeu» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 135).
      A regra, para quem usa as aspas nestas circunstâncias, parece ser a de que, a partir da primeira acepção de qualquer vocábulo, se tem de grafar sempre os vocábulos entre aspas. Neste caso, as aspas em «americano» (carro que se desloca sobre carris de ferro, movido por tracção animal ou eléctrica) são como que os pára-choques do veículo. (Mas se estivermos a reproduzir um diálogo de dois bêbados que falam dos pára-choques de uma mulher, já se tem de usar as aspas.) É assim? Não sejam ridículos.

[Post 3510]

Uso das aspas

Outra triste vez


      «Ainda assim, o correspondente [Peter Wise] acaba por levar um pouco de Portugal ao mundo de cada vez que escreve no Financial Times — conhecido por ser das melhores fontes de informação em assuntos relativos à União Europeia, por ser a leitura de referência dos grandes líderes empresariais e por vir cuidadosamente impresso em folhas cor de rosa [sic] salmão que fazem dele um “periódico superior do Reino Unido” — e na The Economist — revista semanal inglesa que no Verão de 2007 teve uma circulação média superior a 1,2 milhões de cópias semanais (metade da qual na América do Norte). Duas verdadeiras “bíblias” que não deixam ninguém indiferente à informação que veiculam» («As ‘bíblias’ da economia», Ana Pago, Global Notícias, 19.4.2010, p. 8).
      Por qualquer razão, este facto não entra na cabeça de muitos jornalistas: quando se usa uma acepção de um vocábulo que não seja a primeira, aquela em que logo se pensa, não é necessário usar aspas. Com minúscula, bíblia é uma obra que se consulta frequentemente, uma obra fundamental. Mas sem aspas.

[Post 3360]

Uso das aspas

Imagem do jornal Público

Não perdem mesmo a pancada


      «Foi ao som forte de palmas e do barulho ensurdecedor de motos a acelerar que a urna de Nuno Rodrigues — o cantor rap ‘MC Snake’ morto a tiro pela PSP na madrugada de segunda-feira — chegou ontem ao Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa» («“Snake, estaremos contigo eternamente”», Helder Almeida, Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 18). Agora, até já os pseudónimos merecem aspas! Mas não são todos os pseudónimos, atenção. «Boss AC e Sam The Kid foram apenas dois dos cantores de rap mais conhecidos a acompanhar o cortejo fúnebre de ‘MC Snake’.» Como são conhecidos, não ficam de quarentena entalados nas aspas.

[Post 3265]

Uso das aspas

Não perdem a pancada


      Um espanhol de 40 anos foi detido pela Polícia Judiciária no Aeroporto de Faro com 800 gramas de cocaína no estômago. Título do Correio da Manhã? «Trazia ‘coca’ no estômago» (R. P. G., Correio da Manhã, 19.3.2010, p. 13). Só uma perguntinha: para que servem as aspas? Sim, senhor: é uma redução do vocábulo «cocaína» de uso informal. E depois? As aspas não estão lá a fazer nada.

[Post 3263]

Arquivo do blogue