«Litigação/litigância»

Quem diria

      É inacreditável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «litigância», que é sinónimo, e porventura mais usado, de «litigação». Rebelo Gonçalves, valha a verdade, também não o regista.
[Texto 2399]

«Zona do euro»

Já é tradição...

      Já muitas vezes tinha pensado que a expressão «Zona Euro» é pouco portuguesa. Hoje, voltei a pensar no assunto, agora a propósito da menos (ao que me parece) usada «área euro». Já aqui há matéria de reflexão: se a primeira é a maioria das vezes grafada com maiúsculas iniciais, a segunda é sempre grafada com minúsculas. Porquê a diferença de tratamento? O guia de estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors recomenda que se use a expressão «área do euro» para designar o conjunto de países que têm a moeda única. O Código Interinstitucional, a propósito de «área do euro», nota: «De observar, porém, que a expressão mais comummente usada em Portugal é “zona euro” ou “zona do euro”.»

[Texto 2398]

Léxico: «escudete»

Malandrim setecentista

      O antiquário garantiu-me que a cómoda-toucador com tampo de rebater era seguramente do século XVIII e que a madeira era vinhático. «Já reparou nos belíssimos escudetos e nos puxadores de pau-santo?» Século XVIII... Malandrim. E também não se diz escudeto, mas escudete. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «peça exterior, de metal ou de madeira, que ornamenta a fechadura de um móvel; espelho».
[Texto 2397]

«Babygro», de novo

Na pronúncia, sim, /ˈbeɪbɪgrəʊ/

      «Cristina Lima e Filipa Pinto, ambas designers, deixaram os seus empregos para criar uma marca de roupa para bebés, onde há babygrows com padrão de pele de vaca e vestidos amarelo fluorescente [sic]» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      Ora, já vimos aqui que os dicionários registam «babygro». A explicação para o erro pode estar na etimologia e na própria pronúncia do vocábulo.
[Texto 2396]

Como se escreve nos jornais

De alpercata

      «Os dedos de Guida Fonseca deslizam sobre o fio de alparca, os pés dançam levemente sobre os pedais. Uma pequena multidão junta-se em volta da roda de fiar. “Parece fácil, não é? Mas não é. Querem experimentar?” Ninguém se atreve» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      A jornalista, porém, atreveu-se a escrever sem consultar um dicionário. Mesmo que possa jurar ter ouvido «alparca», tinha obrigação de confirmar. Alparca é o calçado que se prende ao pé com tiras de couro. Devia ter escrito alpaca: neste caso, seria a lã do animal ruminante da família dos Camelídeos, da América do Sul.
[Texto 2395]

Sobre «formato»

Quem sabe

      «Entre os formatos que deverão prosseguir e os novos conteúdos para a RTP2 a partir de janeiro, os vínculos ainda não terão sido celebrados» («Contratos parados à espera de modelo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 51).
      O verbete do vocábulo «formato» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções, mas não esta, que vem, ora pois claro, do inglês: «general plan of organization, arrangement, or choice of material (as for a television show)» (in Merriam Webster). Deve ou não estar nos dicionários? No Houaiss está: «género, característica, organização (p. ex., para um programa de TV)».

[Texto 2394]

Tradução: «suit»

Hum...

      Título do DN: «‘Suits’ (paisanos) é o jargão americano para os agentes do FBI; ‘spooks’ (espiões) são os da CIA» («Irmãos e inimigos: a difícil relação entre paisanos e espiões», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.12.2012, pp. 28–29).
      Será a melhor tradução, «paisano»? É que paisano é, na acepção que se adequa, o «indivíduo que não é militar». O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, se regista spook («Estados Unidos da América gíria espião»), em relação a suit nada diz. O Merriam-Webster acolhe a acepção: «slang: a business executive — usually used in plural». Logo, não se aplica somente aos funcionários do FBI, mas a qualquer homem de fato. Engravatado.

[Texto 2393]

Os erros do «Público»

Haja quem o diga

      «Isto só pode significar que há no PÚBLICO quem, devendo zelar pela correcção de eventuais erros de redacção alheios, é afinal autor e responsável directo pela publicação de uma boa parte das tolices ortográficas e gramaticais que são dadas à estampa. Não se trata, convém notar, de simples gralhas, ou de faltas de atenção que seriam sempre censuráveis, mas de manifestações de ignorância e de insuficiente domínio da língua, que não são aceitáveis num jornal que diz ter por objectivo a excelência editorial» («Erros a mais e correcções a menos: um apelo ao controlo de qualidade», José Queirós, Público, 2.12.2012, p. 55).
[Texto 2392]

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