Tradução: «spider hole»

Eles talvez saibam

      Na minha família mais próxima, com tantos homens, só um primo de minha mãe, por sinal o mais franzino, fraca-figura, imbecil mesmo, esteve no Ultramar. Veio incólume da Guiné e o juízo, ao que parece, não está pior do que antes de ter embarcado a defender o império. Ah, mas o intróito vai longo... só estava a pensar que os militares, sobretudo estes que estiveram na guerra, hão-de saber qual a designação portuguesa para spider hole, o buraco de aranha que descobrimos com a captura de Saddam Hussein.
[Texto 627]

Acordo Ortográfico

Séculos de novilíngua, então

      «Disse-se aqui, na semana passada, que nem Saramago escapava ao acordo ortográfico. Não é verdade. Saramago foi, talvez, um pioneiro das adesões post mortem. Agora vêm outros, aliás com um argumento bastante singelo: o de que “a língua está sempre a mudar”. E assim Camões, Gil Vicente, Camilo e outros mais que se verá estão a ser implacavelmente traduzidos para a novilíngua nacional para venda a preços módicos, nas bancas já a partir de amanhã» («Taprobana, meu», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 31.10.2011, p. 22).
      Terá Nuno Pacheco lido alguma vez Camões na ortografia original? Ou Gil Vicente? Ou, mais próximo, mesmo Camilo? E os contemporâneos de Nuno Pacheco, todos nós? Bah, que grande argumento.

[Texto 626]

«Dicionário Luís de Camões»

Só agora

      Na segunda quinzena de Novembro, a Caminho lança o Dicionário Luís de Camões, fruto de cinco anos de trabalho de uma equipa coordenada por Vítor Aguiar e Silva. Já tardava. (E vai mesmo chamar-se Dicionário Luís de Camões? É que a editora já tem o Dicionário de Camilo Castelo Branco e o Dicionário de Eça de Queiroz...)
[Texto 618]

Pontuação

Que faço?

      «E a passagem da monarquia para a república não melhorou a vida da população, que se sentiu defraudada.» A autora não quer ali a vírgula. Que é um disparate. Que seja à responsabilidade dela, pede. Quanto a Jaime Rebelo e às orações relativas explicativas e às orações relativas restritivas, isso é para esquecer. Viva a intuição!
[Texto 603]

Latim

Tinha de ser

      A repórter Arlinda Brandão, da RTP, foi ouvir Vítor Ferreira, o organizador da exposição O Mundo dos Dinossauros, na Cordoaria Nacional. «Aqui de novo o Velociraptor, não é, e um dos animais, que era o Spinosaurus, um dos animais mais violentos da altura, apesar de não ser dos maiores, porque, como pode ver pela dentição, era uma dentição onde encaixava [sic] os dentes perfeitamente e entrava uns dentro dos outros e portanto a vítima era esmagada.» E como é que o entrevistado pronunciou o nome do dinossauro? À inglesa, pois claro.
[Texto 600]

Acordo Ortográfico

Mal começou

«Ajudara-o a levantar-se e tinham caminhado juntos pela 24 de julho, em direção às docas.»
A aplicação cega das regras do Acordo Ortográfico também dá nisto. Como o AOLP90 manda grafar com minúscula inicial os nomes dos dias, meses e estações do ano e permite escrever Avenida 24 de Julho ou avenida 24 de Julho, vai tudo a eito.

[Texto 599]

«À boca calada»

Bocas

      «Foram estas forças que faltaram e à boca calada se atribui a responsabilidade a Joffre» (É a Guerra, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1934, p. 161). É expressão sinónima da outra: dizer à boca pequena, que é o mesmo que dizer em privado ou em voz baixa. O contrário é dizer à boca cheia, que significa dizer publicamente.

[Texto 598]

Sobre «travo»

Hum...

      «Expulsa pelo nariz, devagar, o fumo do primeiro travo e sente-se vacilar durante um instante.» Eu também me sinto vacilar um pouco. Podemos travar o fumo do cigarro — mas nunca antes vira o substantivo deverbal (é disso que se trata?) «travo». Conheciam? Só conheço o «travo» que todos conhecerão: o sabor adstringente de bebida ou comida ou, figuradamente, o vestígio ou impressão desagradável.
      «Tirei um cigarro e acendi-o. Inalei o fumo, travando-o nos pulmões até a vista me turvar» (O Rei do Volfrâmio, Miguel Miranda. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 55).
[Texto 597]

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