Definição: «gaivina-dos-pauis»

Criticamente em perigo


      «Os adultos em época de nidificação das gaivinas-dos-pauis têm o bico vermelho e o peito cinzento-escuro, distinguindo-se de forma mais evidente as faces claras — e daí ser também chamada de [sic] gaivina-de-faces-brancas. Já o tagaz ostenta, nas mesmas circunstâncias, um bico preto e o peito claro, sem distinção com as faces. Classificada, em Portugal, como Criticamente em Perigo, o III Atlas de Aves Nidificantes não consegue apresentar uma tendência credível sobre a sua presença no país, dada a sua imprevisibilidade e falta de acompanhamento específico» («A imprevisível gaivina-dos-pauis», Patrícia Carvalho, Público, 20.08.2026, p. 32). 
      É informação que nem sequer a consulta dos nossos dicionários nos fornece. Por isso, proponho ➠ gaivina-dos-pauis ORNITOLOGIA (Chlidonias hybrida) ave da família dos Larídeos, de plumagem predominantemente cinzenta, que, na época de reprodução, apresenta barrete preto, faces claras, peito cinzento-escuro e bico vermelho, frequenta sobretudo zonas húmidas com abundante vegetação aquática, onde nidifica em colónias sobre vegetação flutuante, estando a população reprodutora em Portugal classificada como criticamente em perigo; gaivina-de-faces-brancas.

[Texto 23 428]

Léxico: «lambdacista» Definição: «lambdacismo» | «paralambdacismo»

É muito mais do que isso


      «A essa altura ninguém se surpreende ao saber que uma odisseia tem esse nome por causa da “Odisseia”, que por sua vez tem esse nome por causa de Odisseu. Só que a origem do nome do herói é obscura. E já era obscura lá na Antiguidade Clássica. Até a forma variava. Além de Odysseus, aparecem versões como Olisseus, Otisseus e Oulixeus. Em tempos romanos, a forma preferida passou a ser Ulixes, que também vez por outra virava Ulysses. E, mais uma vez, ninguém sabe ao certo as razões. Existe na linguística um troço chamado lambdacismo, que é quando ocorre a troca de um som pelo “L”, que no alfabeto grego é lambda. Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» («Por que Odisseu virou Ulisses», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A38). 
      Sejamos claros: lambdacismo não é apenas o que a Porto Editora diz: «pronúncia viciosa caracterizada pelo emprego do l em vez do r». Lembro-me ainda de o meu professor de Latim falar nisto, e não era apresentado como «pronúncia viciosa» (que também é), mas como fenómeno linguístico, como na crónica acima. É muito mais do que isso. Assim, proponho ➠ lambdacismo nome masculino 1. LINGUÍSTICA fenómeno fonético que consiste na substituição de outro som por l, especialmente de r por l; 2. FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia que afecta a articulação do som l; 3. RETÓRICA emprego ou repetição excessiva do som l, designadamente como recurso estilístico. 
      Quanto à etimologia, vem do grego lambdakismós, «emprego do lambda em lugar de outra letra», pelo latim lambdacismu-, «emprego excessivo ou pronúncia defeituosa de l». 
      E também a definição de «paralambdacismo» tem de ser corrigida, pois não se trata de letra, mas som. Assim, proponho ➠ paralambdacismo nome masculino FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia caracterizado pela substituição do som l por outro som. 
      (Diga-se, já agora, que a frase de Galindo — «Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» — tem um fundo verdadeiro, mas está formulada de maneira enganadora.)

[Texto 23 427]

Extras! Extras! Extras!

Para ninguém se esquecer


      «Entre as instituições politécnicas, destacam-se a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, com uma taxa de ocupação de 101,2% (o que significa que houve vagas extras criadas para resolver, por exemplo, situações de empate), seguida do Instituto Politécnico do Porto (agora Universidade Técnica do Porto) e do Instituto Politécnico de Lisboa com taxas de ocupação de 98,9% e 95,2%, respectivamente» («Número de colocados é o segundo maior da década», Andreia Sanches, Público, 22.08.2026, p. 15).

[Texto 23 426]

Como se traduz por aí

Pobres leitores, isso sim


      «Mais tarde ela contou-lhe que tinha vindo na carreta funerária com o cadáver da mãe, mas apenas até à porta da capela, em obediência às instruções de Deborah» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 182). 
      Mais conhecida no mundo moderno ocidental por... carrinha funerária ou carro funerário. Reaparece mais à frente, e já com o adjectivo desatrelado: meramente «carreta». Pesquisem então «undertakers’ van» no Google Imagens e depois digam-me o que aparece. Que raio de disparate... A única carreta que chegou aos nossos dias, em todo o universo lusófono, está no Brasil, onde é sinónimo de «camião»: «Ao menos 23 pessoas morreram na madrugada desta quarta-feira (19) em um acidente entre uma carreta e um micro-ônibus no km 209 da rodovia BR-373, em Ipiranga, a cerca de 171 quilômetros de Curitiba, no Paraná. [...] O caminhão tinha placas de Erechim, no Rio Grande do Sul, e seguia no sentido de Carambei para Prudentópolis» («Acidente entre micro-ônibus e carreta deixa 23 mortos no Paraná», Cristina Camargo, Francisco Lima Neto, Bruna Fantti e Catarina Scortecci, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A34).

[Texto 23 425]

Léxico: «irmão postiço»

Ora esta...


      Vamos ver, isto pode ter diferentes abordagens. Vejo por aí a palavra stepbrother (o mesmo se aplica a stepsister) traduzida por «meio-irmão». Está, evidentemente, errado. (Mas é repetido pelos dicionários bilingues!) Neste caso, não há aí nenhum pai em comum. Quando há um, o inglês tem half brother (e, adivinharam, half sister). Nós é que, aparentemente, não temos termo para stepbrother e stepsister. Ou assim se pensa. Ora, no verbete «postiço», os nossos dicionários já acolhem a acepção relativa à criança que é tratada como se fosse filho próprio. No Brasil, porém, onde ainda se fala português, foram mais longe e para estes casos usa-se irmão postiço (e irmã postiça). Assim, proponho ➠ postiço 6. (irmão ou irmã) que é filho ou filha do padrasto ou da madrasta, não havendo progenitor comum.

[Texto 23 424]

Como se traduz por aí

Pormenores, mas tudo são pormenores


      «Com uma deliberação estudada, Ellen retira os brincos de diamante, primeiro rodando o travão atrás de cada orelha, depois pondo-os na caixa forrada de cetim, e por fim devolvendo a caixa à gaveta esquerda do toucador» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 45-46). 
      Há, efectivamente, brincos com travão, mas podemos ter a certeza de que os de Ellen não são desse tipo: basta atentar numa palavra do original — unscrewing. Os travões são encaixados no espigão e retirados por pressão, não enroscados. Portanto, é antes assim: «Com deliberada lentidão, Ellen tira os brincos de diamantes, desenroscando primeiro o fecho por trás de cada orelha, depois guarda-os na caixa forrada de cetim e mete a caixa na gaveta esquerda da penteadeira.» Quanto a «penteadeira», é apenas para os meus queridos (e os outros, os nada, nada queridos) leitores ficarem a conhecer a palavra.

[Texto 23 423]

Definição: «estratovulcão»

A teoria do mil-folhas


      «L’Etna è uno stratovulcano complesso attivo. La sua altezza massima è di circa 3-357 metri (l’altezza varia costantemente in base alle eruzioni e all’accumulo o crollo dei crateri sommitali) con una superficie di 1.190 km2. È il più grande vulcano attivo d’Europa con circonferenza alla base di oltre 140 chilometri. E Patrimonio dell’Umanità dell’Unesco» («Il vulcano», Lara Sirignano, Corriere della Sera, 13.08.2026, p. 6).
      Exactamente, um estratovulcão, que a Porto Editora define assim: «GEOLOGIA tipo de vulcão de forma cónica bem pronunciada, composto por diversos estratos lávicos intercalados com níveis piroclásticos». Por coincidência, o Etna é um excelente exemplo, pois mostra-nos como esta definição é demasiado restritiva e esquemática: apresenta a forma cónica bem pronunciada como necessária e sugere uma alternância regular entre estratos lávicos e níveis piroclásticos. Além disso, não explicita o carácter poligenético do estratovulcão, formado pela acumulação sucessiva de materiais ao longo de numerosas erupções. O Etna mostra perfeitamente por que razão não devemos imaginar um estratovulcão como um cone feito de uma espécie de mil-folhas geológico, com uma camada de lava, outra de piroclastos, outra de lava, e assim sucessivamente. O seu edifício é muito mais complexo: possui vários centros eruptivos e crateras cimeiras, sofre actividade explosiva e efusiva, tem erupções fissurais nos flancos e nestes formam-se também cones adventícios. O portal dos Parques Naturais dos Açores caracteriza os estratovulcões como grandes vulcões poligenéticos constituídos por níveis piroclásticos e níveis de escoada lávica e explica que o perfil cónico pode ser modificado por movimentos de massa, erupções nos flancos ou uma caldeira cimeira. 
      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ estratovulcão GEOLOGIA vulcão poligenético formado pela acumulação sucessiva, ao longo de numerosas erupções, de escoadas de lava e materiais piroclásticos, geralmente com vertentes íngremes e perfil cónico; vulcão compósito.

[Texto 23 422]

Léxico: «à babuja»

Até dá nome a restaurantes


      «Colocando-nos atrás de uma moita, espreitámos. À borda de uma langua uns dez gansos enormes, de bico e pés encarnados, e penas azuloias, dormiam, com a cabeça debaixo da aza, encostados uns aos outros, em linha, à babuja da água» (Nostalgia Africana, Carlos R. M. Faria e Maia. Lisboa: Oficinas Fernandes, 1936, p. 205).

[Texto 23 421]


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P. S.: «Se o líder do PS manter a consistência e for claro e consistente naquilo que tem dito sobre o Orçamento do Estado, não me parece que haja razões para crise», afirmou o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, em entrevista à SIC Notícias. Recomenda-se é que aprenda a usar correctamente os verbos, pelo menos para os momentos em que anda por aí a porta-vozear. 

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