Definição: «Dormição»

Falta a explicação


      «El ataque ruso ha provocado importantes daños en la histórica catedral de la Dormición, en Kiev. [...] El Monasterio de las Grutas, cuyo nombre en verdad es el Monasterio de la Dormición de la Madre de Dios, es la fundación monástica más antigua de la Rus' de Kiev. Erigido en la proximidad de la antigua residencia de los príncipes reinantes en Berestovo, fue fundado por Antonio, un monje venido del Monte Atos» («Una bomba al corazón de la Ortodoxia Eslava», Susana Torres Prieto, La Razón, 16.06.2026, p. 22).
      Não é uma suspeita, mas uma certeza: o leigo (em ambos os sentidos da palavra) que consulte os nossos dicionários não vai ficar a saber exactamente do que se trata. Quando um ortodoxo fala da «Dormição da Mãe de Deus» (Koímēsis tês Theotókou), não está a pensar primariamente na Assunção, mas no acontecimento completo: a morte santa de Maria, o seu «adormecimento» e a sua glorificação por Cristo. Valha a verdade que a definição do Houaiss até se aproxima ao esclarecer que a morte de Maria foi apenas um sono, mas estraga um pouco as coisas ao começar por afirmar que foi um intervalo de tempo. Ainda assim, porém, vai mais longe do que outros dicionários. 
      Tudo visto, e aproveitando toda a estrutura da definição da Porto Editora, proponho ➠ dormição RELIGIÃO [com maiúscula] na tradição dos cristãos orientais, morte da Virgem Maria, entendida como um adormecimento no Senhor e seguida da sua glorificação e elevação ao Céu; Assunção.

[Texto 23 158]

Definição: «interpolação»

Na Índia sabem


      «This is called an extrapolation problem: that is, Al is great at interpolating, or predicting things within the range of what it has seen, but it struggles to predict things far outside of its training data» («Al falls short on extreme weather forecasting», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 16.06.2026, p. II). 
      Interpolação e extrapolação. Ora bem, todos temos uma ideia aproximada do que é, sobretudo esta última. Se quisermos saber mais exactamente o que significa a primeira e usarmos o dicionário da Porto Editora, os nossos intentos vão sair frustrados: «MATEMÁTICA processo de achar o valor de uma função entre dois valores conhecidos por um processo diverso da lei que é dada pela própria função». Ena, «por um processo diverso da lei que é dada pela própria função». E o que significa isso? Se perguntarmos a um matemático o que distingue interpolação de extrapolação, ele responderia quase certamente que interpolação consiste em estimar dentro do intervalo dos dados conhecidos e extrapolação, estimar fora desse intervalo. Porque é que um dicionarista quererá complicar isto? 
      Sendo assim, proponho ➠ interpolação MATEMÁTICA processo de achar aproximadamente o valor de uma função para um valor da variável situado entre outros valores da mesma variável para os quais se conhece o valor da função.

[Texto 23 157]

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P. S.: Exemplo simples de interpolação: se às 10h00 a temperatura era de 20 °C e às 11h00 tinha subido para 24 °C, pode estimar-se que às 10h30 rondaria os 22 °C, uma vez que o instante considerado se situa entre dois pontos de referência conhecidos.


Léxico: «rádio-leitor»

Faz aqui falta


      «Do outro, a ganga preta dos blue collars, da laranjinha e do chinquilho, o rádio-leitor de cassetes no requinte supremo de um qualquer Casal Ventoso circundante longínquo à tal catedral de exposição cornuda, a espreitar ciganas inquietas, a venderem camisolas baratas de lagarto nada original, por Lacoste impenitente» (Quarto Minguante, António Carvalho Martins. Coimbra: Coimbra Editora, 1990, p. 66).

[Texto 23 156]

Léxico: «gnaisse lewisiano»

Ainda se fosse da Luisiana


      Procuramos «lewisiano» no dicionário da Porto Editora, mas só nos aparece «luisiano», «brevemente disponível». Não tenham pressa, só diz respeito a Luisiânia, no Estado de S. Paulo, ou o que é seu natural ou habitante. Nem sequer todos os dicionários e vocabulários brasileiros o acolhem. Mais falta faz, como subentrada, em «gnaisse», isto  gnaisse lewisiano GEOLOGIA variedade de gnaisse de idade arqueana e paleoproterozóica, considerada uma das rochas mais antigas da Europa, característica das Hébridas Exteriores da Escócia, especialmente das ilhas de Lewis e Harris.

[Texto 23 155]

Léxico: «avunculado, avunculato»

Pensar em inglês, escrever em português


      «Não é a primeira vez que Gary Oldman fez “Krapp’s Last Tape”, nem é o único Krapp imperdível. Nas últimas décadas tivemos pelo menos três Krapps marcantes em Londres, todos entretanto falecidos. Tive a sorte de ver um deles, Michael Gambon, apropriadamente no dia do meu aniversário (pois na peça Krapp faz anos, ou, como ele diz, “completa” tantos anos). Não vi o Krapp de John Hurt, nem o de Harold Pinter, que o fez certamente como homenagem ao seu amigo Sam. Gambon era “avuncular”, palavra em desuso, fisicamente ameaçador, decrépito» («Oldman Krapp», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 68). 
      Em desuso, isso é certo, mas o problema aqui não é esse. Em português, os dicionários registam apenas a acepção ligada ao parentesco («relativo ao tio» ou «relativo à relação entre tios e sobrinhos»), ao passo que o inglês moderno desenvolveu também a acepção figurada de «afável, protector, com maneiras de tio». Por todos, veja-se o Cambridge Dictionary: «friendly, kind, or helpful, like the expected behaviour of an uncle». Só estaria certo, sem mácula, se Pedro Mexia escrevesse, já não digo toda a crónica, mas pelo menos a frase toda em inglês: «Gambon was avuncular (a somewhat old-fashioned word), physically threatening, decrepit.» 

[Texto 23 154]

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P. S.: Dá-se o caso, para mim, quase sempre feliz, de a Porto Editora não acolher avunculado, avunculato ANTROPOLOGIA sistema de parentesco em que o tio materno ocupa posição de autoridade privilegiada em relação ao sobrinho, sendo frequentemente considerado seu protector, mentor ou herdeiro principal.


Léxico: «pitom/ pitão/ trava»

Então, são três


     «A la mi-temps, Dassler dévissa les crampons pour les remplacer par d’autres, plus longs, qui permirent ensuite aux joueurs allemands de mieux tenir sur la pelouse et de renverser les Hongrois, invaincus depuis trois ans» («1954: l’innovation, mère de toutes les conquêtes», Laurent Favre, Le Temps, 11.06.2026, p. 17). 
      Também usamos o termo crampom/crampão, mas reservámo-lo para o calçado de montanhismo. Nós usamos pitom/pitão, mas a Porto Editora esqueceu-se de registar o primeiro, seguramente o mais usado, além de que define mal o segundo: «peça cónica ou pontiaguda existente na ponta da frente de alguns sapatos desportivos». Muitos pitons modernos não são cónicos nem pontiagudos: existem modelos cilíndricos, laminares, triangulares, elípticos, em forma de seta, etc. Logo, a forma não é o traço distintivo. Por outro lado, os pitons distribuem-se pela sola. Há pitons na parte anterior e na parte posterior da chuteira. Aliás, os do calcanhar são essenciais para a estabilidade e a tracção. Já quanto a ser «de alguns sapatos desportivos», a formulação parece-me demasiado vaga. O uso normal refere-se sobretudo a chuteiras. Além disso, a expressão «sapatos desportivos» faz pensar em ténis de corrida, de basquetebol ou de ténis, nos quais não se usam pitons. Acresce que, não apenas não acolhe, como vimos, «pitom», como também esquece o sinónimo «trava». 
      Assim, tudo visto e ponderado, proponho para esta acepção ➠ pitom/pitão/trava DESPORTO cada uma das saliências fixadas ou moldadas na sola de algumas chuteiras para aumentar a aderência ao terreno.

[Texto 23 153]

Léxico: «pteruges»

O equipamento completo


      Fez muito bem aqui um tradutor, e um dos mais criteriosos, em escrever pteruges, assim mesmo, sem itálico. Porque é usado noutros textos, sobretudo de cariz histórico, em português, porque a sequência inicial pte-, embora rara, não nos é desconhecida, e porque faz falta. No nosso imaginário, e talvez ainda mais no meu, que estudei Latim, tinha os manuais, a gramática, os textos de apoio, há três elementos imediatamente associados ao soldado romano: o capacete, as cáligas e os pteruges. Assim, proponho pteruges nome masculino plural HISTÓRIA conjunto de tiras protectoras, geralmente de couro, suspensas da cintura ou dos ombros da armadura dos soldados da Antiguidade, sobretudo romanos, destinadas a proteger as virilhas, as ancas e a parte superior das coxas sem restringir os movimentos.

[Texto 23 152]

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P. S.: Porto Editora, agora, para tudo estar bem, tens de levar a nova definição de «almadraba» para o verbete de «almadrava».


Léxico: «fotóstato»

Antes das fotocópias


      «Eram fotóstatos de fraca qualidade. A máquina fora ligada com pouca definição, os originais tinham sido enfiados lá dentro à pressa e tortos.» Pois, Porto Editora, não o tens. Assim, proponho ➠ fotóstato 1. aparelho de reprodução fotográfica de documentos, antecessor das modernas fotocopiadoras; 2. cópia fotográfica de um documento ou desenho obtida por meio desse aparelho.

[Texto 23 151]

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