Definição: «fasciolose»

Até para se saber do que se trata


      Apareceu-me aqui um carneiro com fasciolose e morreu. Numa tradução, valha-me Deus, não cá em casa. Cá em casa, só tenho o meu gato, prestes a fazer seis anos e agora menos selvagem. Que tem problemas recorrentes na pele, é verdade, mas acaba sempre por se curar. Ora, Porto Editora, se a fasciolose é muito mais frequentemente tratada como problema veterinário do que como problema médico humano, é melhor, até para dizermos mais do que o estrito mínimo, assim ➠ fasciolose MEDICINA, VETERINÁRIA doença parasitária do fígado e das vias biliares causada por tremátodes do género Fasciola.

[Texto 23 150]

Definição: «cepticismo/pirronismo»

Qualquer assunto não, caramba


      «El primer gran escéptico fue Pirrón de Elis o Élide, que planteó las dificultades del conocimiento, el problema del juicio y muchas otras cosas más de forma pionera. Fundador de esta corriente de larga duración, es una figura fundamental para la escuela escéptica, que pone en duda el criterio y el juicio, y llega a suspenderlo para llegar a la tranquilidad o ataraxia, de manera semejante al estoicismo y al epicureísmo. A lo que anima el escéptico Pirrón es a carecer de turbación y pasiones en un legado que luego reivindicará Sexto Empírico en la edad romana» («Pirrón: que la vida te sea indiferente», David Hernández de la Fuente, La Razón, 15.06.2026, p. 46).
      Tão fundamental, de facto, que «cepticismo» é sinónimo de «pirronismo». Sinónimos, mas se consultarmos os verbetes no dicionário da Porto Editora, vemos que não dizem o mesmo, e a diferença não é formal, mas substancial: em «pirronismo», não encontramos a estranha referência às duas teses opostas. Um pirrónico não diria que duas teses opostas são ambas verdadeiras; diria antes que dispomos de razões de força equivalente para sustentar uma e outra, precisamente o que conduz à suspensão do juízo. A formulação da Porto Editora simplifica excessivamente a doutrina. O núcleo do pirronismo, segundo os especialistas, é a equipolência dos argumentos e a consequente suspensão do juízo, pelo que tem de estar explícito na definição. Mais: não é «sobre qualquer assunto», demasiado absoluto, o que os faria parecer mais totós do que filósofos. Os pirrónicos suspendiam o juízo sobretudo sobre questões não evidentes. 
      Tudo visto, proponho, com remissões mútuas no corpo da definição, ➠ cepticismo/pirronismo FILOSOFIA doutrina do filósofo grego Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), que preconizava a suspensão das opiniões e dos julgamentos perante a dificuldade de alcançar um conhecimento seguro da realidade; fundamenta-se na ideia de que, relativamente a uma mesma questão, podem ser apresentados argumentos de força equivalente em defesa de posições opostas, o que impede uma decisão definitiva sobre a verdade das coisas.

[Texto 23 149]

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P. S.: Também recomendo vivamente que no verbete de «pirrónico» apareça alguma referência ao cepticismo, para o leitor não ter de tentar adivinhar. Podia ser assim: ➠ pirrónico FILOSOFIA relativo a Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), filósofo grego, ou à sua doutrina, o pirronismo ou cepticismo.


Léxico: «agnático»

Temos de fazer o mesmo


      «Tal como acontece noutras monarquias, o Japão ainda tem a chamada sucessão agnática (que exclui as mulheres do trono). O enredo complica-se porque o país já teve imperatrizes reinantes no passado: oito mulheres soberanas ocuparam o trono até que surgisse um herdeiro masculino, e duas delas repetiram a proeza. Isso foi, porém, entre os séculos VI e XVIII, ou seja, o Japão nunca teve uma imperatriz moderna, nomeadamente nos 79 anos em que a atual Constituição esteve em vigor» («Princesa para sempre», Mara Tribuna, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 33). 
      Se nos ficássemos pela consulta do dicionário da Porto Editora, concluiríamos que estava errado: «relativo a agnatia (ausência congénita do maxilar inferior)». E, efectivamente, dantes não se dizia senão «sucessão agnatícia». Agora, porém, já não é assim, e nos dicionários brasileiros uma das acepções de «agnático» remete para «agnatício». Temos de fazer o mesmo.

[Texto 23 148]

Léxico: «polvo-comum»

Se é comum, não temos


      «A espécie em causa é o polvo-comum (Octopus vulgaris), nativa das águas britânicas, embora habitualmente observada em números reduzidos. Os especialistas explicam que a conjugação de invernos mais amenos e primaveras mais quentes favorece a sua reprodução, tendência que se tem intensificado devido às alterações climáticas» («Explosão de polvos nas águas do Reino Unido chega à Escócia e preocupa cientistas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 11.06.2026, 12h51). 
      É verdade que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora podemos ver um verbete de polvo-vulgar (tradução directa do nome científico), que também está correcto, mas temos de acolher todos os nomes comuns.

[Texto 23 147]

Definição: «pedra seca»

Chegou a ocasião propícia


      «A arte da construção dos muros de pedra seca, tradicional no Maciço de Sicó, já faz parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI). De acordo com despacho publicado em Diário da República, a inscrição desta técnica foi aprovada pelo Património Cultural, Instituto Público» («Muros de pedra seca no património nacional», Diário de Coimbra, 7.06.2026, 14h01). 
      Como veremos de seguida, «pedra seca» designa duas coisas distintas mas relacionadas, mas na sua definição no dicionário da Porto Editora não se acerta em nenhuma delas: «pedaço de matéria rochosa aplicada sem argamassa na construção de muro, parede, etc.». O nome designa quer a técnica quer o resultado, não o elemento construtivo utilizado. Assim, proponho  pedra seca técnica construtiva que consiste na justaposição e no encaixe de pedras, sem recurso a argamassa ou outro material de ligação, utilizada sobretudo na construção de muros, paredes e estruturas de suporte; construção assim realizada.

[Texto 23 146]

Léxico: «linha»

Alguma vez tínhamos de olhar para isto


      «É, actualmente, um tratamento de segunda linha, aplicado após o tratamento com imunoterapia contra o cancro urotelial metastático. As recomendações publicadas pela equipa de André Mansinho indicam que devem ser aplicados painéis de testes genéticos o mais cedo possível, mas que, dado ser um tratamento de segunda linha, pode ser avaliado após a primeira linha terapêutica, desde que a resposta seja rápida» («Pode um teste genético acelerar o tratamento do cancro da bexiga?», Tiago Ramalho, Público, 27.05.2026, p. 27). 

      Inglês escondido com rabo de fora, mas, como a ouvimos há décadas e as palavras até são portuguesas, ninguém diz nada — nem os dicionários. Veio claramente do inglês (first-line treatment), mas naturalizou-se com tal facilidade, que já poucos lhes estranham a construção. Está no limbo, como tantas outras. Fazemos uma tentativa? Assim ➠ linha MEDICINA em expressões como «tratamento de primeira linha», «de segunda linha», etc., cada um dos níveis sucessivos de uma estratégia terapêutica, definidos segundo a ordem preferencial de utilização dos tratamentos, medicamentos ou abordagens clínicas disponíveis para determinada doença ou situação médica.

[Texto 23 145]

Léxico: «marquesano»

Não compramos o anacronismo


      «En el lecho de la agonía lo cuidaban unas jóvenes polinesias y a su lado estaba uno de los antropófagos llorando desconsolado, quien al verlo ya muerto le mordió una pierna para que su alma volviera al cuerpo, según sus ritos. Los indígenas rodearon la cabaña. Vistieron el cadáver a la manera maorí. Lo untaron con perfumes y lo coronaron de flores. Un obispo misionero rescató los despojos para enterrarlos en un cementerio católico. Bajo el jergón Gauguin había dejado solo doce francos en moneda suelta. Eso sucedió en Atuona, el 8 de mayo de 1903, a sus 54 años» («La gloria entre los cocoteros», Manuel Vicent, El País, 13.06.2026, p. 43). 

      O papel do cronista moderno deveria ser o de iluminar o mito de Gauguin, e não o de baralhar a geografia e a antropologia para o leitor: os habitantes são os Marquesanos, não Maoris. E não creio que se possa invocar a licença poética. Isso era o que se pensava e afirmava no tempo de Gauguin, não no tempo de Vicent, que é o nosso, século XXI.

[Texto 23 144]

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P. S.: Ofereço-to, Porto Editora, com muita amizade ➠ marquesano adjectivo de 2 géneros relativo aos Marquesanos ou às ilhas Marquesas | nome de 2 géneros indivíduo natural das ilhas Marquesas | nome masculino LINGUÍSTICA língua polinésia oriental da família austronésia, falada pelos Marquesanos das ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. | Marquesanos nome masculino plural ETNOLOGIA povo polinésio indígena das ilhas Marquesas, arquipélago da Polinésia Francesa, cuja presença no território remonta a vários séculos antes da chegada dos Europeus. 

      Quanto à etimologia, vem de Marquesas + -iano, sob influência do francês marquisien, «idem».


Léxico: «justiça transicional / de transição»

Não é por falta de abonações


      «Longtemps journaliste (y compris pour Le Temps), Pierre Hazan s’est par la suite forgé un nom dans la médiation des conflits armés. Œuvrant notamment au sein du Centre pour le dialogue humanitaire, basé à Genève, son travail quotidien consiste à essayer si possible de faire taire les armes, ou à tout le moins d’encourager des formes de justice post-conflit. Une justice “transitionnelle” dans le jargon, susceptible de cicatriser au mieux les plaies afin de ramener de nouvelles chances de coexistence dans des contextes meurtris» («Contre “l’effacement” des Juifs arabes», Luis Lema, Le Temps, 13.06.2026, p. 41).
      Não faltam textos em língua portuguesa em que podemos ler a locução, e por isso está na hora de dicionarizar justiça transicional/ de transição DIREITO conjunto de medidas judiciais e extrajudiciais destinadas a lidar com as consequências de conflitos armados, regimes autoritários ou violações graves dos direitos humanos, promovendo o apuramento da verdade, a responsabilização dos responsáveis, a reparação das vítimas e a reconciliação social.

[Texto 23 143]

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