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Bípedes, como nós
Então, está na hora
Já que falei em comédia negra, diga-se que não está no dicionário da Porto Editora, isto quando podemos encontrar lá a auto-explicativa «comédia musical». Assim, proponho ➠ comédia negra CINEMA, TELEVISÃO, LITERATURA obra cómica baseada em situações, temas ou acontecimentos trágicos, mórbidos ou socialmente sensíveis, tratados de forma humorística ou satírica.
[Texto 23 090]
Escolha infeliz
Mas também se arranjam opções de tradução no mínimo infelicíssimas, ora essa. Quando a nossa obituarista está a olhar para o defunto, ao afagar-lhe a mão, exclama: «Damn! That half-blind mortician made her more alive than my obituary did.» E na tradução e legendagem de Luís M. A. Freitas? «Raios... O armador cegueta deu-lhe mais vida que o meu obituário.» Quem é que usa o termo «armador» neste contexto quando tem o inequívoco «agente funerário»? Ainda por cima é um filme, a informação tem de chegar rápida e directamente ao entendimento do espectador. O espectador pergunta logo: «Armador de quê?» Ora, um anglófono nunca faria essa pergunta ao ouvir mortician. Em tradução audiovisual, regra geral, deve escolher-se a palavra que explica, não a que precisa de explicação. Claro era isto, por exemplo: «Raios! Aquele tipo da funerária meio cegueta conseguiu fazê-lo parecer mais vivo do que o meu obituário.» Era isto que deviam ter alterado em vez de trocar «quere-a» por «qué-la».
[Texto 23 089]
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P. S.: A acepção de «armador» mais usada em Portugal está... fora dos dicionários! É ver nos classificados e painéis com anúncios, páginas na internet... Assim, proponho ➠ armador (de ferro) CONSTRUÇÃO CIVIL operário especializado na execução e montagem de armaduras de aço para elementos de betão armado.
Que é lá isso?
Quando, seis meses depois, Elvira Clancy vai ao velório de um habitante, agricultor e feniano, o filho do defunto, um tipo fortalhaço e brutamontes, certamente um dos melhores clientes de algum pub nas imediações, corre um cortinado junto da urna onde a nossa obituarista está em devaneios, e reclama: «A minha mãe deu-te uma gorjeta.» «Ela insistiu», defende-se Elvira. «Ela qué-la de volta. Diz que o texto estava uma porcaria.» É o que se lia nas legendas, que, juntamente com a tradução, são de Luís M. A. Freitas. Acontece, e isto é curiosíssimo, que a série já tinha passado em Setembro de 2025, com tradução e legendagem do mesmíssimo Luís M. A. Freitas, e lia-se então isto: «Ela quere-a de volta.» Isto é inédito. Algum espertalhão suposto entendido achou que estava errado e optou por uma forma correcta, sim, mas malsoante e minoritária. Vejam que lição e que proveito tiram daqui: «Usa o verbo ser e as formas verbais esté (= esteja), imos (=vamos), se rimem em vez de se redimem, rim (por riem), jouverão, trouverã-me; com pronome encontram-se as formas illas (= ir-las), quella (por quer-la, ou quere-a)» (História da Língua Portuguesa, Serafim da Silva Neto. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 508).
[Texto 23 088]
Ah, isso depende, não é?
A comédia negra irlandesa, em seis episódios, Morte Anunciada (Obituary, do realizador John Hayes, 2023) acompanha Elvira Clancy, uma jovem que sempre sentiu fascínio pela morte, assim como pela escrita, obsessões que consegue conciliar graças ao seu trabalho como escritora de obituários no jornal da sua pequena cidade. Logo no primeiro episódio, é apresentada como necróloga. E está certo, aqui é só uma questão de gosto: nunca eu escolheria tal palavra, que mais nos faz lembrar «necrófaga», como se fosse um animal que se alimenta de cadáveres ou substâncias em decomposição. Então, optaria por necrologista (esta é das tais, duplas) e até mais provavelmente por «obituarista». Justamente uns segundos antes de a personagem dizer que é a «nova necróloga do Kilraven Chronicle, um emprego de sonho», aparecia num ecrã de um computador da redacção do jornal: «Agnes Dunford, obituarist for the Chronicle, dead at 76». Já nos debruçaremos sobre outras questões linguísticas suscitadas por este episódio. Para já, concentremo-nos na definição de «necrólogo» (verbete para que se remete de «necrologista») no dicionário da Porto Editora: «autor de textos biográficos, em geral elogiosos, sobre pessoas que faleceram; autor de necrológios». Não me parece. Um necrólogo é autor de necrológios como um biógrafo é autor de biografias. Se se quiser essa ideia, errada, de que os textos são elogiosos, que o façam no verbete de «necrológio».
[Texto 23 087]
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