Léxico: «rã-golias | conrauídeo | Conrauídeos»

Nem por ser a maior

      «A rã-golias (Conraua goliath) é o maior anfíbio africano e o maior sapo da Terra. Pode crescer até 40 centímetros e pesar mais de três quilos. É capaz de dar um salto de cerca de três metros, mas cansa-se rapidamente após dois ou três saltos. Habita as densas florestas tropicais húmidas e os rios de fluxo rápido dos Camarões e da Guiné Equatorial» («África – Camarões e Guiné Equatorial: O maior anfíbio do planeta», Audácia, Julho de 2026, p. 6).
      O quê, até é mencionada, desde 2012, num regulamento da Comissão Europeia, e não aparece nos nossos dicionários?! Vamos tratar do caso dicionarizando rã-golias ZOOLOGIA (Conraua goliath) espécie de conrauídeo, considerada a maior rã do mundo, podendo atingir cerca de 40 centímetros de comprimento e pesar mais de 3 quilogramas; vive junto de rios de corrente rápida nas florestas tropicais dos Camarões e da Guiné Equatorial.

[Texto 23 094]

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P. S.: Viram bem, como sempre: a rã-golias obriga-nos a dicionarizar igualmente ➠ conrauídeo ZOOLOGIA que ou animal que pertence à família dos Conrauídeos; e Conrauídeos ZOOLOGIA família de anfíbios anuros africanos do género Conraua.

Léxico: «tilossauro»

Por mero acaso, outro

      «Tyrannosaurus rex was a huge land predator during the twilight of the age of dinosaurs. But it was not the only T. rex that terrorised the Cretaceous Period. There also was a marine reptile named Tylosaurus rex – the T. rex of the sea – that rivalled its land counterpart in size and ferocity» («Fearsome dinosaur-era reptile was T. rex of the sea», The Hindu, 2.06.2026, p. II).
      Assim, proponho ➠ tilossauro ZOOLOGIA designação comum dos répteis marinhos extintos do género Tylosaurus, grandes mosassaurídeos predadores que viveram durante o Cretácico Superior; possuíam corpo alongado e hidrodinâmico, focinho comprido, quatro membros transformados em barbatanas e poderosa cauda adaptada à natação; algumas espécies ultrapassavam os 12 metros de comprimento, figurando entre os maiores predadores marinhos do seu tempo.
      Quanto à etimologia, vem do latim científico Tylosaurus, a partir do grego tylos, «protuberância, saliência», e saûros, «lagarto».
[Texto 23 093]

Léxico: «ornitomimossauro | Ornitomimossauros»

Bípedes, como nós

      «A existência do ‘Labrujasuchus expectatus’ foi documentada num estudo publicado na semana passada no ‘Journal of Vertebrate Paleontology’. Segundo os investigadores, o animal, também conhecido como ‘crocodilo-bruxa’ seria muito parecido aos ornitomimossauros» («Crocodilos já foram bípedes, sem dentes e com boca em forma de bico», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 1.06.2026, p. 19).
      Visto isto, proponho ornitomimossauro PALEONTOLOGIA dinossauro terópode do grupo dos Ornitomimossauros, de corpo esguio, pernas longas adaptadas à corrida, pescoço comprido e cabeça pequena com bico sem dentes, semelhante a uma avestruz. | Ornitomimossauros PALEONTOLOGIA grupo de dinossauros terópodes bípedes que viveu sobretudo durante o Cretácico, cujas espécies apresentam corpo esguio, pernas longas adaptadas à corrida, pescoço comprido e cabeça pequena com bico sem dentes, de aspecto semelhante ao das avestruzes actuais.
[Texto 23 092]
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P. S.: Porto Editora, como é que menarca é a «primeira ocorrência da menstruação» e semenarca/espermarca as «primeiras ejaculações»? Não pode ser: é tudo a primeira.

Ortografia: «fluido»

Talento nato

      «Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”» («O caráter que Passos não viu ao espelho», Davide Amado, Diário de Notícias, 1.06.2026, p. 8).
      Eles lá se arranjam sempre para nos trazer um erro ou outro. Felizmente não é jornalista, mas deputado. Claro que o jornal também tem culpa: limpava-lhe o acento de «fluida» e serviam-nos melhor. Para tal, bem sei, tinham de se verificar duas condições: saberem e verem.
[Texto 23 091]
 

Léxico: «comédia negra»

Então, está na hora

 

      Já que falei em comédia negra, diga-se que não está no dicionário da Porto Editora, isto quando podemos encontrar lá a auto-explicativa «comédia musical». Assim, proponho  comédia negra CINEMA, TELEVISÃO, LITERATURA obra cómica baseada em situações, temas ou acontecimentos trágicos, mórbidos ou socialmente sensíveis, tratados de forma humorística ou satírica.

[Texto 23 090]

Tradução: «mortician» Léxico: «armador»

Escolha infeliz

 

      Mas também se arranjam opções de tradução no mínimo infelicíssimas, ora essa. Quando a nossa obituarista está a olhar para o defunto, ao afagar-lhe a mão, exclama: «Damn! That half-blind mortician made her more alive than my obituary did.» E na tradução e legendagem de Luís M. A. Freitas? «Raios... O armador cegueta deu-lhe mais vida que o meu obituário.» Quem é que usa o termo «armador» neste contexto quando tem o inequívoco «agente funerário»? Ainda por cima é um filme, a informação tem de chegar rápida e directamente ao entendimento do espectador. O espectador pergunta logo: «Armador de quê?» Ora, um anglófono nunca faria essa pergunta ao ouvir mortician. Em tradução audiovisual, regra geral, deve escolher-se a palavra que explica, não a que precisa de explicação. Claro era isto, por exemplo: «Raios! Aquele tipo da funerária meio cegueta conseguiu fazê-lo parecer mais vivo do que o meu obituário.» Era isto que deviam ter alterado em vez de trocar «quere-a» por «qué-la».

[Texto 23 089]

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P. S.: A acepção de «armador» mais usada em Portugal está... fora dos dicionários! É ver nos classificados e painéis com anúncios, páginas na internet... Assim, proponho ➠ armador (de ferro) CONSTRUÇÃO CIVIL operário especializado na execução e montagem de armaduras de aço para elementos de betão armado.


Qué-la, quere-a, quer-la

Que é lá isso?

 

      Quando, seis meses depois, Elvira Clancy vai ao velório de um habitante, agricultor e feniano, o filho do defunto, um tipo fortalhaço e brutamontes, certamente um dos melhores clientes de algum pub nas imediações, corre um cortinado junto da urna onde a nossa obituarista está em devaneios, e reclama: «A minha mãe deu-te uma gorjeta.» «Ela insistiu», defende-se Elvira. «Ela qué-la de volta. Diz que o texto estava uma porcaria.» É o que se lia nas legendas, que, juntamente com a tradução, são de Luís M. A. Freitas. Acontece, e isto é curiosíssimo, que a série já tinha passado em Setembro de 2025, com tradução e legendagem do mesmíssimo Luís M. A. Freitas, e lia-se então isto: «Ela quere-a de volta.» Isto é inédito. Algum espertalhão suposto entendido achou que estava errado e optou por uma forma correcta, sim, mas malsoante e minoritária. Vejam que lição e que proveito tiram daqui: «Usa o verbo ser e as formas verbais esté (= esteja), imos (=vamos), se rimem em vez de se redimem, rim (por riem), jouverão, trouverã-me; com pronome encontram-se as formas illas (= ir-las), quella (por quer-la, ou quere-a)» (História da Língua Portuguesa, Serafim da Silva Neto. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 508).

[Texto 23 088]

Definição: «necrólogo | necrologista»

Ah, isso depende, não é?

 

        A comédia negra irlandesa, em seis episódios, Morte Anunciada (Obituary, do realizador John Hayes, 2023) acompanha Elvira Clancy, uma jovem que sempre sentiu fascínio pela morte, assim como pela escrita, obsessões que consegue conciliar graças ao seu trabalho como escritora de obituários no jornal da sua pequena cidade. Logo no primeiro episódio, é apresentada como necróloga. E está certo, aqui é só uma questão de gosto: nunca eu escolheria tal palavra, que mais nos faz lembrar «necrófaga», como se fosse um animal que se alimenta de cadáveres ou substâncias em decomposição. Então, optaria por necrologista (esta é das tais, duplas) e até mais provavelmente por «obituarista». Justamente uns segundos antes de a personagem dizer que é a «nova necróloga do Kilraven Chronicle, um emprego de sonho», aparecia num ecrã de um computador da redacção do jornal: «Agnes Dunford, obituarist for the Chronicle, dead at 76». Já nos debruçaremos sobre outras questões linguísticas suscitadas por este episódio. Para já, concentremo-nos na definição de «necrólogo» (verbete para que se remete de «necrologista») no dicionário da Porto Editora: «autor de textos biográficos, em geral elogiosos, sobre pessoas que faleceram; autor de necrológios». Não me parece. Um necrólogo é autor de necrológios como um biógrafo é autor de biografias. Se se quiser essa ideia, errada, de que os textos são elogiosos, que o façam no verbete de «necrológio».

[Texto 23 087]

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