Deglutinação: «anspeçada» e «onça»

Uma lança quebrada

      Veio também o Canhenho de Português de José Stringari, donde colho isto: «Êsse fenômeno de deglutinação do l por julgar-se artigo, faz-nos lembrar outros exemplos. No francês temos a palavra anspessade, que deveria ser lanspessade, pois formou-se da expressão italiana lancia spezzata (lança despedaçada), mas supondo-se ali a existência do artigo, começou-se a dizer l’anspessade em vez de la lanspessade. Também no português é anspeçada.
      A elisão do l deu-se ainda na palavra onça (animal), que se deriva do italiano lonza (do latim vulgar luncea-lyncea), do grego lynx.
      Note-se que onça “pêso” vem do lat. uncia» (São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 138).

[Texto 1756]

«Cumpre-me o Presidente...»

Novas do CCB

      A encaminhar um convite redigido (ou assinado, vá lá) pela mão criativa de Vasco Graça Moura, os «Amigos CCB» (!) estão a receber uma mensagem de correio electrónico da sua relações públicas em que se lê, nomeadamente, o seguinte: «Cumpre-me o Presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém, Dr. Vasco Graça Moura, de fazer chegar a V.Exa o convite para o Concerto de Outono que terá lugar no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, no dia 16 de Setembro às 17h00.»
      Eu, que nem sequer sou «amigo CCB», fiquei boquiaberto — o que vou aproveitar para ir merendar.

[Texto 1755]

Tradução: «booth»

Na alfândega

      Podemos dizer que o agente da alfândega, no cais, estava na sua guarita (little booth), ou, palavra que estou a ver constantemente e de que já estou farto, na sua cabina? E posto alfandegário não será algo maior?
      «Por desfastio fui-me a ver desembarcar os passageiros. Estava a chover: e eu que não levava cobertura, abriguei-me da bátega numa guarita do cais que achei vazia» (O País das Uvas, Fialho d’Almeida. Lisboa: Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, 1968, 11.ª ed., p. 263).
[Texto 1754]

«Responsável deste crime»

Novas do Brasil

      Chegou-me do Brasil o segundo volume do Regime de Verbos de José Stringari (Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 1937). Sobre o verbo responsabilizar (ver aqui), escreve na página 97: «Dizemos também responsabilizar alguém de alguma coisa: “Firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilizá-lo da sua desgraça” (Camilo: Um Homem de Brios, 178, 3.ª ed.).» Fui confirmar na 2.ª edição, a que tenho mais à mão: «— É, se a minha amiga entrar n’este melindroso acto, segura de si, e firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilisal-o da sua desgraça» (Um Homem de Brios, Camilo Castelo Branco. Porto: em Casa de Cruz Coutinho, 1862, 2.ª ed., p. 200).
[Texto 1753]

Sobre «assexual»

Mas reparem

       «“Nem fazem ideia o quanto me sinto aliviada depois de ler este tópico. Sempre pensei que era uma esquisita... e considerei-me mesmo assexuada... mas como nunca tinha ouvido falar, achei que estava maluca.” É a afirmação de quem diz não ter desejo sexual no fórum da Rede Ex Aequo, associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes (LGBT) e onde se discute se esta é uma nova orientação sexual. O assunto não é pacífico nestes grupos, como também não o é na comunidade científica. Mesmo quando os estudos revelam que 1% da população é assexual» («Não têm desejo sexual e sentem-se bem com isso», Céu Neves, Diário de Notícias, 1.07.2012, p. 16).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista uma acepção de assexual, e não é a usada no artigo: «que não provém de uma união sexual».
[Texto 1752]

Regência de «inspirado»

Quando há escolha

      «Por estes dias, estreou-se em Telavive um espectáculo de dança inspirado pelo Diário e pela vida de Anne Frank. O facto, aparentemente trivial, torna-se notícia quando se sabe que o espectáculo começou por ser concebido na Venezuela para exibição local e foi proibido por ordem de Hugo Chávez, que “sugeriu” aos coreógrafos a troca do tema pelo do “sofrimento palestiniano”» («A segunda morte de Anne Frank», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 1.07.2012, p. 55).
      As regências verbais e nominais já aqui causaram alguma polémica. Quando há várias regências, o uso de uma em particular, mesmo que pouco habitual, apenas decorre do bom gosto. Como é o caso: eu não teria escrito «inspirado pelo», mas «inspirado no». Mas diz-se, consoante o contexto e o que se pretende significar, inspirado de, em, para e por.
[Texto 1751]

«Evacuação/retirada»

Não apenas erros

      «Depois de ter declarado o “estado de grande catástrofe” no Colorado, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deslocou-se ontem à região devastada pelo fogo que já destruiu 346 casas e obrigou à retirada de 36 mil pessoas» («Obama pede apoio para os bombeiros que estão a combater o fogo no Colorado», Diário de Notícias, 1.07.2012, p. 36).
      «Retirada», não «evacuação». Muito bem. O livro de estilo do Público recomenda: «Verbo cuja utilização requer alguma cautela e que (tal como evacuação) é de evitar em títulos. Só os locais são evacuados, as pessoas são retiradas e, às vezes, basta explicar que foram transportadas para, realojadas noutro local...»
[Texto 1750]

Sobre «cor-de-rosa» no AOLP90

Quem sabe

      «Dominique Strauss-Khan e a mulher, Anne Sinclair, anunciaram ontem que “decidiram processar” na justiça “por atentado à vida privada” a revista cor de rosa Closer, a qual afirmou que o casal está atualmente separado» («DSK e mulher processam revista», Diário de Notícias, 30.06.2012, p. 32). «Mesmo perante a insistência da imprensa cor-de-rosa, Rafaella Fico remeteu-se ao silêncio, não confirmando nem desmentindo o estado de graça. Quem sabe se Fico já avisou Balotelli e este, tal como Ronaldo, está a marcar golos em honra de um filho?» («Apresentadora Rafaella Fico poderá estar grávida de Balotelli», Diário de Notícias, 30.06.2012, p. 26).
      Eles têm uma certeza: a palavra ou leva ou não leva hífenes. O resto não interessa, são especulações.

[Texto 1749]

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