Tradução: «roomette»

No Amtrak

      «To escape the confines of our roomette…» É em vão que procuramos no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora tradução para a palavra «roomette». Regista «roommate», e já é um pau. Bem, é «a small private single room on a railroad sleeping car». «Compartimento»? «Cabina»? No sítio da CP, lemos que os passageiros do Lusitânia «podem optar por lugares cama em compartimentos para 1, 2 ou 4 pessoas».

[Texto 1740]

«Desportivismo»

Jogo limpo

      «Quero felicitar muito calorosamente todos os jogadores e a equipa técnica, que por terras da Polónia e da Ucrânia se bateram com brio, com determinação e com muito desportivismo e que alcançaram um excelente resultado. Os Portugueses estão orgulhosos da sua selecção nacional de futebol», disse o Presidente da República. Fosse outro o titular ou — talvez até para sermos mais justos — o redactor dos discursos, e teríamos ali fair play. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista fair play, pois claro, mas não remete para «desportivismo». Grandes promotores da lingua franca.

[Texto 1739]

Léxico: «petrechado»

Agora imaginem

      «N’essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas recommendações para debelar quaesquer ardis judiciarios da consorte, favorecidos pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro» (Estrellas Funestas, Camilo Castelo Branco. Porto: Viúva Moré Editora, 1869, 2.ª ed., p. 77).
      Agora imaginem que, numa reedição, desta ou de qualquer outra obra, em vez de «petrechado» na editora entendiam que «apetrechado» é que estava correcto, e alteravam nesse sentido. Agora imaginem que isso já aconteceu.
[Texto 1738]

Czar, tzar, tçar

Esquecidas

      «Por todos os lados, na tolda do imenso barco, a confusão e o movimento são intensos: há centenas de soldados russos que voltam da ilha de Creta (em cuja baía a esquadra do tzar permanece, pronta, dizem, para intervir no conflito turco-grego), e tantos ou mais peregrinos, da mesma nacionalidade, que regressam de Jerusalém» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 165-66).
      A fiável Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista o que provavelmente nenhum dicionário regista: «Tçar, s. m. Título do antigo Imperador da Rússia; o mesmo e melhor que tzar e czar, mas menos usado.» Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista somente «czar», mas com a ressalva de que é a «forma consagrada pelo uso: a correcta seria tçar». Em francês, recorde-se, é tsar ou tzar, e em castelhano e em italiano zar (Zar em alemão).
[Texto 1737]

Coisas dos dicionários

Ignotíssimo

      «As duas familiares (a mais velha era mãe solteira de uma criança de ano e meio) perderam a vida num acidente, pelas 00.30, quando seguiam no estradão florestal de Calvão» («Álcool e velocidade excessiva em despiste com três mortos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 27.06.2012, p. 17).
      Um estrangeiro que esteja a aprender a língua consulta, ingenuamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vê? «Estradão: aumentativo, masculino singular de estrado (nome)». Pois é...
       «Graças, porém, a um estradão florestal de construção relativamente recente, a serra oferece acesso fácil até ao limiar dos mil metros» (Alto Douro Ignoto, Sant’Anna Dionísio. Lisboa: Lello Editores, 1973, p. 129).
[Texto 1736]

«De conta própria»

Era assim

      «— Já teve..., antes de meu pai se estabelecer de conta própria. Eu ainda lhe não disse o nome do meu pai, chama-se Cruteman» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 32).
       Se agora escrevemos e dizemos sempre «por conta própria», dantes era quase sempre como se lê na novela de Teixeira-Gomes.
[Texto 1735]

Deste livrámo-nos

Uf...

      «No carácter geral da cidade havia mais homogeneidade, de modo que a catedral — a incomparável — com as suas naves tenebrosas, onde se acendem as fulgurações dos vitrais; o claustro composto, deduzido, como sinfonia magistralmente orquestrada na série das suas capelas de retábulos polilhados, entrevistos através de vetustíssimas e imaginosas grades de ferro batido; a sua catedral — a única — não dava ainda essa impressão de flagrante anacronismo que depois foi tomando passo a passo, com a abertura das infinitas avenidas rectilíneas, dos esquares geométricos, das vastas praças rectangulares» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 120-21).
      Deste lá escapámos, caro Montexto, valha-nos Deus. «Esquare»! Talvez assentasse bem na escrita do cosmopolita e esteta Teixeira-Gomes.
[Texto 1734]

Plural de apelidos estrangeiros

Ele sabia

       O apelido do pai da amante do protagonista é Cruteman. Logo, são os?... «De Nieuwe Markt a Oude Schans, onde era o escritório do Kater, havia dez minutos de caminho e, embora a ocasião não fosse própria para o procurar, pois àquela hora de volta da Bolsa encontrá-lo-ia certamente na crise diária de trabalho, cercado de empregados, transmitindo ordens e fechando contratos, o ouvido colado ao telefone e a voz ditando, imperiosamente, concisos mas importantes telegramas, não resisti à tentação de o importunar para colher qualquer informe acerca desses Crutemans que deixavam uma filha tão linda e caprichosa à solta e vestida miseràvelmente» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., p. 33).
[Texto 1733]

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