Como se escreve nos jornais

É da crise

      «O Tribunal de Torres Vedras começou ontem a julgar o alegado homicida de um outro homem, a quem lhe terá arrancado a orelha e desferido várias facadas em Dezembro de 2010, abandonando depois o corpo da vítima. Na acusação do Ministério Público, o arguido, de 31 anos, é acusado dos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida» («Cortou orelha e matou amigo por se meter com a namorada», Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 21).
      É verdade que no corta e cola, isto pode acontecer — mas, porque pode ser deliberado e fruto de convicção, diga-se que o pronome pessoal não faz ali falta. O que está antes deste segmento também não está escorreito: «o alegado homicida de um outro homem».
[Texto 742]

«Linha de Cascais»

Por mim

      Caro L. M., eu, pouco proclive a empregar letra grelada, como dizia Feliciano de Castilho, escrevo com maiúsculas: Linha de Cascais. A outra linha, a do caminho-de-ferro, é que escrevo com minúscula: linha de Cascais.
      «Posso abrandar a marcha, conduzir mais devagar, sem pressa de ir e ainda não ter em mente para onde, talvez espreitar os passos dos que moram na Linha de Cascais e que vão ao Cais do Sodré apanhar o comboio vazio dos domingos, ou ir deslizando ao longo de toda a 24 de Julho e da Avenida da Índia, a ver como é a noite, a noite lisboeta e dominical e como sopram os ventos do estuário, e como se me apresenta triste esta beleza escurecida e pálida dos poucos navios atracados às docas, e como tudo isto tem de súbito a cor, o movimento, o drama da minha depressão» (O Homem Suspenso, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1996, p. 25).
[Texto 741]

«De modo que»

Híbridos

      «O enredo do romance conta como Józio, um homem de 30 anos, é submetido a um rigoroso (e paródico) processo de infantilização, de modo a que volte a ser um adolescente inocente e ingénuo. É encaminhado para a inenarrável escola do professor Piórkowski, especializada em educar uma juventude inquieta e disparatada, que resiste ao ensino proferindo palavrões muito selvagens» («Infantilização em curso», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 29.11.2011, p. 3).
      Não se deve empregar tal locução. Já tínhamos «de modo que», mas depois veio o galicismo «de modo a», «de maneira a», «de forma a». «Alguns escritores modernos», notou José Leite de Vasconcelos, «até somam as duas sintaxes uma com a outra, e dizem de maneira a que, não ficando pois nem português nem francês.»
[Texto 740]

Como se escreve nos jornais

Palavras a mais

      «Actor de papéis principais, Cary Grant ficou como uma das caras mais populares dos clássicos de Hollywood. Nasceu em 18 de Janeiro de 1904 e morreu às 23h22 do dia 29 de Novembro de 1986, aos 82 anos, em Davenport, Iowa, no hospital de St. Luke, com uma hemorragia cerebral. Cary Grant era o nome artístico de Archibald Alexander Leach, um actor britânico que mais tarde se naturalizou como cidadão americano. Ao longo da carreira foi destacado inúmeras vezes» («O actor Cary Grant morre aos 82 anos», «P2»/Público, 29.11.2011, p. 2).
      Senhor jornalista, bastaria ter escrito «se naturalizou [cidadão] americano». E a última frase traz-nos logo à memória os militares que são destacados — enviados — para fazer serviço fora do corpo a que pertencem.
[Texto 739]

Acordo Ortográfico

Essa máquina diabólica

      Já chegou às livrarias o Dicionário de Luís de Camões (Caminho), com coordenação de Vítor Aguiar e Silva. Afinal, não se esqueceram (ou acrescentaram-lhe?) a preposição (de que falámos aqui). «Reconhecido contestatário do Acordo Ortográfico», lê-se na edição de hoje do Público, «Aguiar e Silva não se opôs a que a Caminho publicasse o dicionário seguindo a nova ortografia. A verdade é que, diz o coordenador, a passagem do texto pelo crivo do corrector ortográfico – “essa máquina diabólica que tem efeitos devastadores”, como o classificou – deixou algumas marcas. Dá como exemplo as palavras “recepção” e “acta”, que perderam o “p” e o “c”, contrariando a ortografia tradicional de ambos os países. “Mas isso não afecta o essencial, que é este dicionário ter uma informação rica, variada e de excelente qualidade”, acredita Aguiar e Silva» («Dicionário sobre o “estado da arte” dos estudos camonianos já está nas livrarias», Sérgio C. Andrade, Público, 29.11.2011, p. 12).
[Texto 738]

«Enquanto académico»

Enquanto humano

      Pode ser só embirração minha, mas detesto o uso da conjunção «enquanto» no sentido de «na qualidade de; como», especialmente se aparecer repetidas vezes no mesmo texto. Sei lá, este exemplo fictício (?): «Enquanto académico e enquanto cidadão, não posso eximir-me a comentar a actualidade política, o momento crítico por que o País passa.» De quando datará este uso? Há-de ser, forçosamente, giro moderno.
[Texto 737]

Como escrevem no Governo

Também vocês

      O leitor Rui Almeida chamou-me a atenção para um comunicado do Ministério da Solidariedade e Segurança Social divulgado hoje na imprensa. Só uns excertos: «O Ministério da Solidariedade e Segurança Social (MSSS) vem, ao abrigo do art. 24 da Lei de Imprensa solicitar a publicação do seguinte direito de resposta [...]. Em bom nome da verdade importa esclarecer o seguinte [...]. Pouco depois da tomada de posse o Ministro deixou de ter viatura oficial, em virtude da anterior ter terminado o seu Aluguer Operacional de Veiculo (AOV). O MSSS solicitou por isso à Agência Nacional de Compras Públicas (ANCP), uma viatura, tendo sido indicado que a única disponível de imediato era a viatura referida na notícia, uma vez que, já tinha o necessário concurso de aluguer, lançado e concluído por ter sido efectuado pelo Governo Anterior, sendo na altura, destinada ao então Secretário de Estado da Energia; 3 - O próprio Jornal Correio da Manhã, escreveu na sua edição do dia 10 de Agosto de 2011: “Ministro da Economia herda frota de Luxo” e acrescentava “que, dado os termos do acordo, o actual Executivo nada pode fazer a não ser pagar” referindo-se precisamente ao contrato do carro encomendado pelo Secretário de Estado da Energia do anterior governo; 4 - O Ministério da Solidariedade e Segurança Social, não compra carros, todo o processo de aluguer de viaturas do Estado, é gerido única e exclusivamente pela ANCP. O Ministério paga um aluguer, pelas viaturas, ao seu serviço; 5 - O valor pago neste momento pelo MSSS, referente a este AOV é exactamente o mesmo que era pago pelo carro oficial da Ministra do Trabalho e Segurança Social [...].»
      Há muito por onde pegar. No meu caso, gostei muito do par Governo Anterior/anterior governo e do «bom nome da verdade». A pontuação é um mimo.
[Texto 736]

Verbo «colocar»

Mais três colocações

      «Para este italiano, cabe aos políticos colocar em prática as decisões já acordadas, como o efectivo reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e maior governação a nível económico» («A figura. Mario Monti», João Villalobos, Público, 20.11.2011, p. 32).
      «A aldeia foi colocada à venda por um dos dois proprietários, irmãos, no sítio da Internet da imobiliária inglesa Sotheby’s» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      «Terá sido a indústria que produz animais para a utilização das suas peles a responsável pela introdução “acidental”, em Portugal, de uma espécie exótica que está a colocar em risco recursos marinhos e a sobrevivência de animais que já tinham o estatuto de espécie ameaçada» («O vison americano não serve só para fazer casacos, também ameaça a lontra e o toirão», Susana Ramos Martins, Público, 20.11.2011, p. 43).
[Texto 700]

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