«Veronil»?

Estival, veraniço

      «O Outono estava veronil, com todas as consequências sociais benéficas do calor – da abundância de boa disposição, no foro psíquico, à boa exibição da abundância, em termos corporais. Ninguém, por isso, quis sentar-se no andar de baixo do autocarro turístico, cujo pavimento superior se encontrava atafulhado de visitantes» («Dedo em riste», Ricardo Garcia, Público, 13.11.2011, p. 43).
      Não é o povo que faz a língua? Ora cá está um elemento do povo — tanto que até viaja no 44 da Carris — a inventar uma palavra. Ah, não foi ele... Bem, mas já no começo de Outubro a tinha usado, quer mesmo divulgá-la.
[Texto 675]

Ortografia: «neoplatónico»

Nem em inglês é diferente

      «É um facto que alguns teólogos defendem que era comum na tradição filosófica da Antiguidade os discípulos de um filósofo escreverem textos e atribuí-los ao seu mestre. Mas, em defesa dessa tese, esses teólogos só conseguem dar um exemplo fundamentado, um texto do filósofo neo-platónico Iamblichus, que escreveu sobre os discípulos de Pitágoras: “É uma bela circunstância que eles remetem tudo para Pitágoras, dando aos trabalhos o nome dele”» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
[Texto 674]

Ortografia: «malvisto»

Água em pena de pato

      «É, pois, com base unicamente neste trecho de Iamblichus que se constrói toda uma tese de que as fraudes naquele tempo não eram mal vistas. O problema é que Iamblichus escreveu 800 anos depois de Pitágoras e que nenhum outro filósofo ou historiador antes de Iamblichus afirmou alguma vez tal coisa. Pior ainda, Iamblichus enganou-se, uma vez que a vasta maioria dos escritos da escola de Pitágoras é de discípulos que não assinaram com o nome do mestre, mas com os seus próprios nomes!» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
      «Ele queria deixar Tarcisis pacificada e, pelas informações de que dispunha, a minha permanência no duunvirato era malvista por muita gente que não me perdoara o suicídio de Pôncio, nem a condescendência para com os cristãos» (Água em Pena de Pato: Teatro do Quotidiano, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 316).
[Texto 673]

Tradução: «saucer»

Castiçal, palmatória?

      «A vela foi fixada no pires», lê-se na tradução. Era uma casa pobre, sim senhor, mas a base para uma vela tanto pode ser de materiais pobres como ricos. No original, inglês, lê-se saucer, que, além de «pires», significa qualquer disco ou prato — semelhante a um pires. Não dizemos nós castiçal? Ou, se tiver prato e asa, palmatória.
      «À cabeceira do leito estava um castiçal com vela de sebo, derramando nas faces arroxeadas do agonizante um clarão sinistro» (Coisas Espantosas, Camilo Castelo Branco, p. 13).
[Texto 672]

«Interceptar/intersectar»

São da mesma opinião?

      «Eram celas de tijolo interceptadas por vielas», escreve a autora. Interceptadas ou intersectadas? O étimo é o mesmo, parecem sinónimos puros, mas há alguma especialização de sentidos. O verbo interceptar é mais usado no sentido de apoderar-se do que vai dirigido a outrem — «interceptar uma carta», por exemplo. Intersectar, por sua vez, é mais usado no sentido de interromper o curso de algo — «caminhos que se intersectam», por exemplo.
[Texto 671]

Plural dos apelidos

Para não se esquecerem

      «Já vivia [o cão da raça spaniel] confortavelmente em palácios quando os Plantagenetas, os Tudors e os Stuarts ainda andavam a puxar uma charrua que não era deles nas terras lamacentas que também não eram deles» (Flush, uma Biografia, Virginia Woolf. Trad. de Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Edições Afrontamento, 1987, p. 16).
      No final da década de 1980, ainda se sabia que devia ser assim. E em inglês: «He was taking his ease in palaces when the Plantagenets and the Tudors and the Stuarts were following other people’s ploughs through other people’s mud.»
[Texto 670]

«Bastante frequentemente»

Digam-me o que acham

      O consultor da consecutiva, Miguel Moiteiro Marques, voltou para nos assombrar. Uma consulente quis saber se a frase «Ele come peixe bastante frequentemente» era correcta. Sentença: «A sequência dos advérbios bastante e frequentemente soa agramatical, mas os dois termos podem ocorrer na mesma frase, ainda que noutras posições e assumindo outros valores gramaticais.» Mas, previne, já «podemos dizer, por exemplo, “Ele come bastante peixe frequentemente” – o que é uma alternativa à frase b) proposta pela consulente – mas neste caso bastante deixa de ser um advérbio e passa a ser adjetivo do nome peixe, indicando tratar-se de “peixe abundante, numeroso”.» E remata: «Por outro lado, a sequência “bastante frequentemente” é possível numa frase como “Ele come bastante frequentemente” –, havendo a opção por colocar, ou não, uma vírgula a separar o advérbio frequentemente do resto da frase – mas aqui bastante é um pronome indefinido e refere-se a uma quantidade indefinida que o sujeito da frase consome, não se sabendo se é peixe ou não.»
[Texto 669]

Como se escreve nos jornais

Pois escreveu

      «O caso – e a atitude dos responsáveis da Penn State – já foi comparado pela imprensa americana ao escândalo de pedofilia que abalou outra instituição insular e exclusivamente masculina, a Igreja Católica. “As semelhanças são demasiado notórias para serem ignoradas”, escrevia há dias o New York Times» («Caso de pedofilia afasta treinador de futebol universitário», Kathleen Gomes, Público, 11.11.2011, p. 18). 
      Pois escrevia, como também escrevia o que está antes das aspas: «A better comparison would be the sexual molestation scandals that rocked another insular, all-male institution, the Roman Catholic Church.»

[Texto 668]

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