«Era/é/seria melhor»

Valha-o Deus!...

      «Anda tudo a fazer contas acerca de quanto dinheiro é preciso para safar a “eurozona”, que é o nome que se arranjou para juntar ricos e pobres, credores e devedores, como se tivessem os mesmos recursos e interesses.
      Todos acham, com razão, que o trilião de euros actualmente posto à disposição dos aflitos é pouco. Uns aventam dois triliões. Outros, mais circunspectos, sussurram que seriam melhores três ou cinco» («Basta um quatrilião», Miguel Esteves Cardoso, Público, 4.11.2011, p. 41).
     «Três horas, três horas... é melhor três horas... Valha-o Deus!... Ó Cecília, eu não posso levar ao fim este caldo... Tira para lá, filha...» (Uma Família Inglesa, Júlio Dinis).
[Texto 635]

«Falésia/faleja/arriba»

Pois saiba que

      Faleja — diz-lhe alguma coisa? Pois saiba que é o termo há muito proposto para verter o francês falaise. Pouquíssimo usado, e creio que apenas no Brasil. Cá, preferimos-lhe a adaptação «falésia», embora arriba ou riba signifiquem precisamente o mesmo.
[Texto 634]

«Por memória»

Dêem aqui uma achega

      Um leitor, José Correia, pergunta-me se sei o que significa a expressão «por memória», que por vezes aparece no relatório do Orçamento do Estado e noutros documentos. Pois não sei, não. Sei apenas, depois de pesquisar, que é um termo usado na estatística e traduzido por memorandum item em inglês. Algum leitor saberá e nos dirá, decerto.
[Texto 633]

Sobre «falcata»

Ia lá adivinhar

      Qualquer coisa me caiu aos pés (ainda não sei o quê) quando vi que o Dicionário Houaiss não regista o termo «falcata». Viriato, a esta hora, dá voltas na tumba. Nem quero saber se regista ou não «cetra». Em todos os dicionários que consultei, a falcata é definida como uma arma antiga composta de uma haste encimada por uma foice (aliás, falcāta, do latim, significa mesmo «munido de foice»). Mas algo não bate certo, pois toda a iconografia e algumas descrições apontam para uma pequena espada de lâmina curta. Quid juris?
[Texto 632]

Léxico: «autoficção»

E podia estar

      «Quanto ao próximo romance, não revela ainda qual será o tema, mas garante que quer “contar o real”. “Os relatos intimistas ou a autoficção não me interessam”, disse à AFP. “Nunca irei contar uma história de amor evanescente entre a Toscânia e o Mediterrâneo, essa é a minha única certeza”» («Ganhou o professor que receava ser um “escritor falhado”», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 3.11.2011, p. 8).
      Pensei que pelo menos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhesse o termo «autoficção» (cunhado no final dos anos 70 pelo escritor francês Serge Doubrovsky), mas não.
[Texto 631]

Como se escreve nos jornais

Onde puseram o verbo «pôr»?

      Manchete da edição de hoje do Público: «Referendo na Grécia à ajuda da UE coloca zona euro à beira do caos». Isto, e tudo o resto, não se coaduna com a cruzada que faz contra o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 630]

Tradução: «think outside the box»

A toque de caixa

      «As taxas de referência de detecção de pólipos de cada médico eram respectivamente de 21,5% e 27,16%. Mas, graças às composições do genial Amadeus, elas passaram para respectivamente 66,7% e 36,7%. “Tudo o que for possível fazer para aumentar essas taxas”, diz O’Shea, “tem o potencial de salvar vidas.” Apesar de ser muito pequeno, o estudo tem o mérito de pôr em evidência os benefícios de pensar “fora da caixa”, salienta a investigadora» («Colonoscopias: Mozart é preciso», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 1.11.2011, p. 3).
      Mesmo com aspas, é — e não quero parecer sobranceiro — uma tradução lamentável do original e incompreensível para a maioria dos leitores: «thinking outside the box». A história da expressão, que não é nossa nem dela carecemos, está aqui. Qualquer leitor, imagino, encontrará uma forma melhor de dizer o mesmo.
[Texto 629]

Ortografia: «reses»

Ora vejam melhor

      «“Numa época em que campeava o anti-semitismo pela Europa e em que se preparava o encaminhamento de milhões de seres humanos como rezes a caminho do matadouro, em Portugal um oficial do Exército, Arthur Carlos Barros Basto, foi sancionado por ser judeu e ser praticante da religião judaica”, justifica o requerimento» («Caso Dreyfus português vai ser discutido no Parlamento», Público, 1.11.2011, p. 6).
      Não se sabe é se se lê mesmo assim no requerimento para reabilitação póstuma apresentado à Assembleia da República (assinado pelo advogado Rui da Silva Leal) pela neta do oficial ou se é erro de transcrição do Público. Este é erro muito comum, dado mesmo por quem julga que conhece bem a língua. Tão comum como «revezes» por «reveses». E quanto a reses: «Nomes há na língua actual que apresentam reduplicação do plural, tais são eiroses, pioses, ichoses, reses; provém ela da falsa analogia com os plurais regulares nozes, vozes, etc. E de se considerar como fazendo parte do singular o -z- que entra nos diminuitivos [sic] de tais nomes; por igual motivo o povo diz moses, avoses, poses, filhoses, ilhoses, e até mãses; daqueles plurais duplos tiraram-se os falsos singulares eirós, piós. É escusado lembrar que a antiga língua só conhecia o singular eiró ou iró, e peió ou pió ou, como então se escrevia, eiroo ou iroo e peioo ou pioo» (Gramática Histórica Portuguesa, J. J. Nunes. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1919, p. 229).

[Texto 628]

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